segunda-feira, 18 de agosto de 2025

VASTIDÃO DO COSMOS, VIDA EXTRATERRESTRE E A INFINITUDE DE DEUS




Kelson Mota T. Oliveira


 “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; ” (Rm 1:20 )

 

        É ideia recorrente nos meios tidos como esclarecidos que há vida inteligente fora da terra e que, portanto, não estamos sozinhos no cosmos. Uma das principais razões aventadas é que o espaço é um lugar infinito, sendo razoável a existência de vida alhures. Quando se levanta a objeção que talvez haja vida somente na Terra, uma vez que as Escrituras não dão a entender que o Senhor criou outros seres em outros planetas, é comum ouvir a velha e manjada resposta: se um Deus criou todo o universo e só fez a vida na terra, para que toda essa vastidão? Se é assim, foi um baita desperdício de espaço. Alguns em tom de zombaria completam: o homem não precisa de todo esse espaço se só há vida na terra. Esse Deus não foi muito esperto. Independente se há ou não vida em outros planetas (essa é uma pergunta para outra ocasião), o problema com este tipo de posicionamento é que está fundamentado em duas noções erradas: primeiro se confunde imensidão com probabilidade e, segundo, que o tamanho do universo demanda uma utilidade em escala humana. Explico.

        No primeiro caso se imagina que se o universo é infinito, também são infinitas as possibilidades de qualquer coisa ocorrer, como no caso do aparecimento de vida aqui, ou nas vizinhanças de Proxima Centauri ou de Betelgeuse. De fato, o universo é em extremo vasto, talvez infinito (a ciência ainda não fechou essa questão), mas tamanho não é certeza de realidades possíveis. O quintal de casa, que mede 15x10m e provavelmente tenha uns 2,5 m de profundidade de solo cultivável, é virtualmente infinito para vírus nanométricos que porventura possam habitar no gramado ou solo, nem por isso significa que deverá existir algum vírus capaz de se comunicar em japonês ou forte o suficiente para levantar a minha casa. O máximo que surgiu no quintal ao acaso, para nossa surpresa, foi uma melancia (provavelmente de uma semente cuspida em uma tarde de calor). Semelhantemente, um vasto oceano, por maior que seja seu volume em termos de quantidade de moléculas de água, não me permite defender a premissa que, devido sua imensidão, há uma probabilidade não zero de existir uma molécula de água que seja formada por xenônio no lugar de oxigênio. Nunca aparecerá esta molécula. Simplesmente amplidão não é garantia que toda e qualquer coisa poderá existir em algum lugar. Quem pensa assim desconhece as bases mais elementares de probabilidade.

        No segundo caso há a falsa correlação entre tamanho e utilidade (notem que não estou me referindo a propósito e sim a utilidade). O raciocínio é simples e rasteiro: se o universo é imenso, logo é obrigatório haver vida em muitos lugares do cosmo; se não houver não há sentido prático na imensidão do espaço. Quem melhor defendeu essa falsa correlação foi Carl Sagan em seu romance de ficção científica “Contato” (1985). Em determinado momento da trama, a personagem, Ellie Arroway, uma cientista atéia (um avatar do próprio Segan), ao discutir a possibilidade da existência de vida apenas na Terra, provoca os céticos e os cristãos ao afirmar: “O universo é um lugar bem grande. Se existir somente nós, parece um terrível desperdício de espaço!”. De lá para cá, muitos utilizaram essa frase como prova “auto evidente” da existência de extraterrestes e, ao mesmo tempo, da inexistência de Deus. Cabe notar que essa concepção não está ligada ao conceito de propósito do universo, pois indicaria um sentido subjacente à vida (e com isso a possibilidade da existência de um Deus), mas uma percepção humana de utilidade (se tem água, logo tem algum ser que possa beber; se é grande então haverá muita gente para caber dentro, etc). A frase de Segan não é uma evidência científica, sequer é uma afirmação da ciência, apenas uma opinião pessoal (aliás, muitas declarações de cientistas não são científicas e jamais passariam pelo crivo da ciência). Voltando à ilustração do quintal de minha casa, este é uma faixa de grama de 15x10m (atualmente um pouco descuidada), com uma pequena jabuticabeira na lateral direita, perto do muro, o que cria uma bela vista da varanda gourmet da casa. É pergunta recorrente entre os que nos visitam à primeira vez: por que você não constrói uma piscina, ou uma pequena quadra de vôlei ou uma edícula? Tanto espaço sem uso…”. E meneiam sutilmente a cabeça lamentando o desperdício daquele espaço. O que é isso? É tendência humana em demandar utilidade para qualquer coisa que se mostre um desperdício em relação às suas aspirações pessoais. De forma semelhante, Segan, assim como tantos outros ateus, varre para baixo do tapete do absurdo existencial qualquer possibilidade de um sentido maior no esquema das coisas apenas se algo lhes parece sem um uso imediato. “Que utilidade teria tanto espaço, se há vida em um único lugar?” é um arremedo de silogismo falacioso utilitarista, cuja premissa, em lugar de conduzir a uma conclusão lógica, entroniza uma opinião rasteira. Não lembro de alguém já ter perguntado: qual o propósito de não teres construído algo nesse belo gramado?

        Mas sejamos justos com os céticos, estima-se que o universo visível tenha um diâmetro em torno de 93 bilhões de anos‑luz  - 883 quatrilhões de quilômetros! Um vasto quintal onde existe desde as partículas subatômicas até imensas estruturas como galáxias e aglomerados de galáxias. Nesse contexto é legítimo pensar que a existência de apenas uma só espécie racional seria, no mínimo, extravagante. Contudo, à luz da fé em um Deus que criou todas as coisas com inteligência, sabedoria e poder, a amplidão do espaço não revela descuido, mas grandeza; não denuncia vazio, mas advoga propósito. A contemplação da imensidão do universo revela tanto nossa pequenez quanto a grandeza do Criador. “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres, e o filho do homem, que o visites?” (Sl 8.3-4) é o pensamento e o sentimento do Rei Davi. Se ontem Davi estremecia só em contemplar a magnificência do céu estrelado em relação à finitude humana, como não estremecer ainda mais hoje que sabemos que entre um próton (10-15m) e o superaglomerado Laniaekea (≈10²⁴ m) há quase quarenta ordens de magnitude? Como não ficar perplexo ante o fato que dentro de nosso sol, em termos de volume, cabe tranquilamente um milhão trezentos e vinte um mil planetas Terra? O Sol é grande e brilhante? É, e o apóstolo Paulo dois mil anos atrás já afirmava ousadamente que até entre estrela e estrela há diferença de esplendor (1 Co 15.41). Se isso já nos traria espanto na época dos apóstolos, o que dizer de hoje uma vez que sabemos que cabem, em termos de volume, no interior na estrela VY Canis Majoris, entre 3 e 8 bilhões de Sóis (!!)? O universo é um oceano estrelas, mas nessa comparação as estrelas não compõem a água, são apenas como pequenos agrupamentos aqui e ali de plânctons. O oceano é de vazios, com bolhas nucleares e pequeninas ilhas de matéria dispersas, regulado delicadamente por forças em um ajuste ultrafino além de toda escala de compreensão científica. A física descreve essas forças, mas não as cria. Nossa ciência as mede, mas não explica o porquê de as constantes de força terem os valores que têm. O acaso não é, e nunca será, suficiente para explicar essa orquestra universal. Como li outro dia em para-choque de caminhão, e que se aplica perfeitamente à existência do cosmos, “nunca foi sorte, sempre foi Deus”.

        Sim, o universo é grande, amplo, talvez até infinito em termos dimensionais, mas para que tanto espaço? O Senhor precisava criá-lo deste tamanho para fazer habitar apenas a raça humana? Perguntas legítimas, mas a resposta acertada só pode ser dada mediante a pergunta correta. A pergunta nunca foi “para quê”, ou sua similar “qual a utilidade de”, e sim “para quem”. Sagan estava errado quando disse que seria um desperdício de espaço se houvesse apenas a raça humana. Em sua afirmação, ele conseguiu errar as duas perguntas básicas: primeiro ao conceber que existência pressupõe utilidade em escala de valores humanos e, segundo, por achar que esse universo existe para o homem e suas contrapartes extraterrestres. O universo não foi criado para o homem ou para qualquer outra criatura, terrestre, angelical ou alienígena, o universo foi criado exclusivamente para o Senhor Deus, por meio do seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. “Tudo foi criado por meio dEle e para Ele.  Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Cl 1.16b-17). Quando imaginamos que universo deva ter alguma utilidade pensamos sempre em termos de benefício próprio, algo que seja útil para nós, mas este não foi o motivo e nem o principal propósito. O universo não foi criado para a glória do homem, mas para a Glória do Senhor e temos o privilégio, dado e mantido por Ele, de habitarmos nesse lugar imensamente maravilhoso. Que é o homem para que o estimes a esse ponto, e o Filho do Homem que o visites?

        O universo criado espelha em reduzida escala alguns atributos incomunicáveis do seu Criador. A infinitude é um deles. Mas como compreender um Ser infinito quando nós mesmos somos finitos e habitamos um planetinha minúsculo comparado a outras grandes estruturas cósmicas, que por sua vez são pequenas comparadas à imensidão do cosmos? Como amar algo que não se pode abarcar nem ao menos com a mente? E é aqui, naquilo que parece inefável e inconcebível, que entra a beleza das coisas criadas pelo Altíssimo. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas (Rm 1.20a). Sim! Podemos ter um pequeno, porém verdadeiro e significativo, vislumbre da infinitude do Criador ao observar a imensidão do universo. Nesse oceano cósmico que parece sem fim, podemos reconhecer a Grandeza superlativa do Criador. O universo é grande do jeito que é para que seja claramente reconhecido, por meio de suas escalas superlativas, os atributos, o poder e a divindade do Senhor Deus. Quem rejeita essas verdades reveladas, negando o Criador, rejeita as evidências da ciência, cujo objeto de estudo são as coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; ” (Rm 1:20b).

        Termino, respondendo à pergunta nunca antes feita sobre meu quintal: não construí nada porque um gramado amplo, com uma pequena e charmosa jabuticabeira ao lado, é belo em si e me lembra que nem tudo necessita apresentar uma utilidade imediata às nossas demandas. Não precisa ter uma piscina ou uma quadra, ou churrasqueira, para validá-lo como um quintal. Em seu despojado vazio há propósito e beleza, e se surgir uma melancia, vez ou outra, também me alegrarei. O universo não demanda ETs para ser grande, ele é imenso porque Quem o fez é imensurável em sua infinitude.

        Àquele que mede as galáxias na concha da mão e, ainda assim, se inclina para ouvir nossa oração, sejam glória, honra e domínio para todo o sempre. 

Amém.


👉Originalmente publicado em 19/05/2025, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão de Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.

👉Acesse o blog completo e veja outros textos. Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/

sábado, 16 de agosto de 2025

ENERGIA, MAGIA OU ONIPOTÊNCIA DIVINA?

 


 

Kelson Mota T. Oliveira

“Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Cl 1:17)

 

Algumas semanas atrás a Universidade de Exeter, no Reino Unido, anunciou que será a primeira do mundo a oferecer um mestrado em magia e ciências ocultas (MA Magic and Occult Science), com início previsto para setembro de 2024. Justificaram a criação do curso pelo crescente interesse das pessoas por magia e ocultismo. A justificativa procede, ainda que esse interesse não seja algo novo. É fato histórico que a inclinação pelo oculto sempre esteve presente desde a mais tenra infância da humanidade. À Eva foi oferecido a oportunidade de obter um conhecimento exclusivo de Deus que a tornaria semelhante ao Criador. Porque Deus sabe... e, como Deus, sereis conhecedores... foi o engodo da antiga serpente (Gn 3.5).

A busca pelo oculto (o conhecimento) e pela magia (o poder) é coisa antiga. Egípcios invocavam combinações de palavras e de símbolos para conjurar feitiços. Gregos e romanos usavam amuletos e invocações de divindades na tentativa de manipular a realidade. No início da era cristã, o gnosticismo ensinava que havia um conhecimento oculto (gnosis) disponível aos iniciados, dotado de poder para transcender a realidade e, por esse meio, alcançar a "plenitude" ou o "pleroma" divino. A idade média mostrou-se salpicada, aqui e ali, de relatos de bruxaria, de ocultismo e de culto a demônios. Isso, sem citar as crenças celtas, em runas de poder, ao xamanismo associado a plantas, as práticas esotéricas dos persas, a astrologia caldeia ainda presente hoje, o satanismo moderno, entre tantos outros. Em comum, todas buscam alguma forma de evocar algum poder de manipular a realidade conforme seus desejos. Sereis como Deus continua sendo o mote da humanidade decaída, mesmo após cinco mil anos de história escrita. O que mudou, de lá para cá, foi apenas o grau de exposição a essa sedução. Toda série, filme, livro ou animação de sucesso tem algum personagem com um pé em algum tipo de magia, superpoder, paranormalidade ou interação com o sobrenatural. A sedução está presente até mesmos em algumas igrejas, seja para subjugar potestades, conter espíritos territoriais ou invocar unções para reivindicar prosperidade, saúde ou objetivos semelhantes. Simão, chamado de o “grande poder”, ainda persiste, nas igrejas, procurando obter poder por seus próprios meios (At 8:9-24). A promessa da serpente cala fundo em nossas almas. Essa ânsia levanta algumas questões. Listo três:

(a) É possível o conhecimento oculto capacitar o homem a manipular aspectos de natureza mágica, sobrenatural ou paranormal? Se estamos nos referindo à habilidade de um indivíduo em exercer magia, ou seja, possuir um poder intrínseco de influenciar ou manipular os aspectos físico, mental ou espiritual do mundo através de práticas ritualísticas, psíquicas, totêmicas, simbólicas ou conjurações, a resposta é simplesmente negativa. A realidade, em si, não pode ser manipulada nesse nível, pois seria necessário transcendê-la, ser-lhe dominador, e o ser humano simplesmente não exerce ou possui esse nível de controle. Qualquer poder sobrenatural ou habilidade miraculosa que o homem venha exercer deverá necessariamente ser delegada por outra fonte. A força de Sansão não advinha de preparo físico, os milagres de Elias não eram oriundos de habilidades místicas, a sabedoria de Salomão não resultou de longos anos de estudos acadêmicos. Moisés realizou grandes prodígios, no Egito, na presença de Faraó e, assim como Sansão, Elias ou Salomão, fora investido de um poder que emanava e que era controlado pelo próprio Deus. Podemos ser instrumentos dos milagres de Deus, mas certamente não somos a fonte das bênçãos e não há qualquer conhecimento esotérico que nos capacite a tal.

(b) Será que não há outra fonte além de Deus que revista um homem de habilidades paranormais ou sobrenaturais? No episódio das dez pragas, há uma situação que pode ser de alguma ajuda nessa questão. Os magos de Faraó resistiram ao poder de Deus, exibindo certas habilidades com suas ciências ocultas (termo esse constante em Ex 8:7). Embora pareça um ponto a favor da existência de um poder paralelo, a verdade é que, com suas artimanhas, o máximo que conseguiram foi intensificar os estragos. Rios transformados em sangue pela mão de Deus, e qual a resposta da magia? Apenas mostraram ao Faraó como gerar mais sangue. Rãs vindas de todas as partes, o que eles fizeram? Contentaram-se em convencer o Faraó de que também podiam invocar rãs. Por que não sumiram com as rãs ou transformaram o sangue novamente em água? Teria sido mais proveitoso. O motivo é obvio: não detinham poder, nenhum poder além do engodo. Isso fica evidente na terceira praga, a dos piolhos, onde desistiram da malfadada estratégia, e exclamaram “Isso é o dedo de Deus” (Ex 8:18-19). O mal pode até certo ponto emular algum aspecto do poder divino, mas o resultado sempre será pobre, sem força e ineficaz. Se há alguma operação espetacular que não reconheça o Deus Vivo como fonte de poder, certamente será baseada no erro, na ilusão, no dolo e na mentira. O Senhor é o único que opera grandes maravilhas (Sl 136:4).

(c) O crescente fascínio, inclusive, acadêmico, pelo oculto não sugere a possibilidade de manipulação de forças paranormais ou sobrenaturais pelo homem em algum nível? É essencial que tenhamos clareza nesse ponto: a frágil condição humana é incapaz de reter e de manipular o poder divino. O nível mais próximo que o homem pode exercer é a manipulação do que chamamos de energia e, apesar de usarmos esse termo cotidianamente, sequer sabemos direito o que vem a ser. O conceito clássico de energia é apenas funcional, sendo descrito como a capacidade de realizar trabalho. Parece fazer sentido, mas o problema dessa definição é que trabalho, em física, também tem a dimensão de energia. É quase como se estivéssemos dizendo: energia é a capacidade de utilizar energia. E nesse aspecto, a termodinâmica é taxativa ao afirmar que somente uma fração da energia total existente no universo pode ser usada com proveito, todo o restante se perderá em sumidouros frios. Se não é possível usar todo o potencial de energia disponível no cosmos, que dirá acessar alguma energia “esotérica”? Filosoficamente, energia é um conceito primitivo, uma entidade abstrata, uma propriedade fundamental do universo que se manifesta de maneiras diversas – a qual podemos manipular para diversos fins – e que, de certa forma, conecta todos os fenômenos físicos. Em termos humanos, é uma forma de poder, mas não é poder, em si mesmo, é sempre derivada. Energia, por si só, não é capaz de criar, de transformar, manipular ou destruir. Tem potência, porém não apresenta direção, intenção ou controle. Por outro lado, o poder humano está associado à capacidade de exercer algum grau de controle sobre fenômenos, eventos ou circunstâncias, de manipular energia e seus efeitos. Exercer o poder remete à autoridade, uma mente com propósito e meios para atingi-los. Um revólver carregado apresenta tanto poder sobre o seu entorno quanto um descarregado, a não ser que esteja sob o controle de alguém. O problema do ser humano, ao exercer o poder, é a natureza indomável, quase volátil deste. Toda nova descoberta científica que permite ao homem acessar algum controle sobre algum aspecto da realidade física ou social, rapidamente se deteriora em uma maldição, uma nova forma de destruição, de controle desmedido, de manipulação da opinião pública, de multiplicação da iniquidade. Apenas três exemplos: a pólvora criada para fogos de artifício passa rapidamente ao uso bélico; a imprensa de Gutenberg, com o tempo, vai além da impressão da Bíblia e gera os meios de circulação de factoides, ideologias cruéis e pornografia; a internet criada para revolucionar a comunicação humana, em poucos anos, transforma-se em terra de ninguém, em um campo de ódios, de fakenews, de nichos para pedófilos, para milicianos, para golpes variados e para pornografia ilimitada. Considerando a propensão humana à corrupção e ao descontrole, mesmo com seu limitado poder, o que aconteceria se tivesse acesso à magia, à transmutação, à clarividência, por exemplo? A resposta é evidente: não teríamos sobrevivido à primeira geração de humanos poderosos, porém decaídos. Sejamos claros: não temos como exercer magia ou forças esotéricas. A prova cabal é que ainda estamos aqui.

Se os seres humanos não podem exercer um poder divino, quem pode? A palavra-chave aqui é poder, não me refiro ao poder delegado, oriundo de algum cargo, de alguma função ou do uso de algum equipamento, mas o verdadeiro poder, aquele capaz de dobrar a realidade segundo a sua vontade. Só é possível alguém que é, por definição, Todo-Poderoso e que vive, em estado de poder absoluto e ilimitado, exercer esse poder. E há somente Um Ser que se encaixa nessa categoria, o SENHOR Deus, que declara sobre si “Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus.” (Is 45:5a). A história da revelação divina é a história de um Deus gracioso e misericordioso, detentor de todo o poder. As Escrituras começam com um ato de poder absoluto (“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” Gn 1:1), e, página após página, somos apresentados a um Deus que é ilimitável em seu Ser e supremo em seu poder, capaz de criar, realizar, controlar, destruir ou dirigir qualquer evento, fenômeno, criatura, em qualquer momento, em qualquer lugar, da forma que deseje, sem limitações. Ele trouxe à existência coisas que não existiam, criou todo um universo e seus fundamentos, tempo, espaço, matéria, energia, leis físicas e campos de força. Dirige a História, levanta reinos, abate nações, escolhe para si um povo, faz seu Nome conhecido na terra. E na plenitude dos tempos realiza um ato de poder inaudito que vai além de todas as escalas do portentoso criar. Aquele que é, antes de todas as coisas, no qual tudo subsiste (Cl 1:17), o Maior, que nem mesmo os céus dos céus podem conter, tornou-se o menor, um de nós. Deus infinito, incomensurável em poder, se revela na finitude e na fragilidade da figura humana. Que demonstração absurda de poder e de graça, o próprio Deus andando entre nós. Quem poderia antecipar algo tão extraordinário? A revelação mais poderosa do Deus Altíssimo não foi um monte trovejante, um relâmpago coruscante, uma voz tonitruante ou uma luz de glória ofuscante, mas um homem, um de nós, um carpinteiro, gente como a gente. Naquele homem, enquanto habitava entre nós, residia corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2:9). Detinha poder sobre as doenças (Mt 15:30), sobre matéria (Jo 2:9), sobre as leis físicas (Mt 14:26), sobre o clima (Mc 4:41), sobre as potestades (Mc 9:25), sobre o espaço (Jo 8:59; Jo 20:19), sobre o tempo (Mt 24:3; Jo 8:58), sobre a morte (Jo 11:43-44). Viveu em um mundo decaído, em meio a pessoas alquebradas pelo pecado, e, naquilo que não tínhamos poder para vencer, Ele se mostrou vencedor. Mesmo tentado, em nível inconcebível para nós mortais, não pecou. Em meio a zombarias, a torturas e à crucificação, não usou seu supremo poder em favor de si mesmo. Aquele que detinha o poder para se salvar, para destruir seus adversários, que poderia invocar legiões de anjos a seu favor, entrega-se à morte pelos que não O receberam. Mesmo este ato supremo de amor não foi destituído de poder, Ele tinha autoridade para entregar sua vida e também para reavê-la (Jo 10:18). Os grilhões da morte não eram poderosos para retê-lo na sepultura (At 2:22-24). Se, em Gênesis, o Senhor Deus exerce seu poder na criação, em Cristo, pela sua obra na cruz, vemos novamente seu poderio em ação em uma nova criação, diferente da antiga (2Co 5:17), na qual aspectos desta realidade como a morte, o luto, a dor e o pranto não terão mais lugar (Ap 21:4). Deus tem poder para fazer assim e o fará, porque o poder lhe pertence (Sl 62:11). Ele é onipotente. Nenhuma circunstância ou ser pode impedir os seus desígnios ou limitar o seu raio de ação. Agindo Deus quem O impedirá? No entanto, há um aspecto menos conhecido da onipotência divina: o poder não pode ser exercido independentemente de outros atributos divinos.

Ao exercer o omnipoder, o Senhor o faz em consonância com sua onisciência, sua onipresença, sua justiça e sua benevolência. Ao deter todo o poder e a capacidade de exercê-lo, Ele o fará de forma a não ser contrário à sua própria natureza e atributos. Ou seja, Ele não usará esse atributo para criar coisas incompatíveis e/ou ilógicas, para ser cruel ou mesmo para ser infiel a seus próprios desígnios. Aquela velha e manjada armadilha de professores ateus que negam a existência do ao indagar, em sala de aula, a adolescentes incautos, se Ele seria capaz de criar uma pedra tão grande que não pudesse levantá-la revela mais a ignorância de quem propala esse falso dilema do que a inexistência de Deus. Deixemos claro: onipotência implica que Deus só exercerá seu poder para realizar coisas que são dignas de seu poder. Ele tem o poder e a sabedoria necessários para nunca ser contraditório no seu uso. Nessa linha de pensamento há um outro dilema, às vezes atribuído a Epicuro, muito usado por filósofos naturalistas, que declara: se Deus tem poder para acabar com o mal e não o faz, é porque não é bom. E se é bom e quer acabar com o mal, mas não o faz, é porque não tem poder. O dilema novamente repousa em bases contraditórias e ignora a natureza do Senhor Deus. Deus tem poder para exterminar o mal e quer acabar com o mal e o fará, mas nos seus termos, não nos nossos. Sem entrar nos detalhes da questão do sofrimento e do mal, em certo sentido, Deus já eliminou o mal e todo o sofrimento, pela força de seu poder, da sua graça e da sua justiça. Em que aspecto? Para um Ser que transcende tempo e espaço, detém todo o conhecimento, o poder e a benevolência, o problema do mal não é uma questão moral, temporal ou local, é transcendental. Para nós, seres humanos, a realidade desdobra-se no tempo e no espaço, enquanto a ação de Deus é determinada na eternidade. Pela obra de Cristo, o mal foi julgado, o poder do pecado extinto e todos os inimigos do Senhor derrotados. Da perspectiva humana, o início dessa obra ocorreu cerca de dois mil anos atrás, seus efeitos ainda se desdobram pelas gerações e a concretização plena ainda está no futuro. Na ótica da eternidade, o Cordeiro foi escolhido e morto antes da fundação do mundo, foi manifestado no tempo designado por Deus (Ap 13:8; 1Pe 1:19-20) e está assentado, à direita do Pai, nos lugares celestiais (Ef 1:20). Um hino famoso diz, no seu refrão, “vencendo vem Jesus”, o que é verdade da perspectiva humana, mas o próprio Cristo afirma aos seus discípulos, mesmo antes de ser crucificado, que já venceu o mundo (Jo 16:33). Em termos temporais, o problema do mal parece depor contra a onipotência divina, mas as Escrituras nos incentivam a avaliar todas as coisas, inclusive o sofrimento temporário, em relação a eternidade (Rm 8:18), pois virá um tempo (e na eternidade já é algo concreto e perene) em que todo pecado será julgado e toda maldade punida (Ap 20:10, 13-15), e o problema do mal será finalmente resolvido. Nos recessos de seu poderoso Ser e na vastidão dos seus justos e graciosos desígnios, o problema do mal já foi solucionado pelo Senhor, o tempo apenas o revelará.

Universidades oferecem cursos de magia, grupos esotéricos e ocultistas continuam a propalar suas mistificações, multidões ainda se contorcem seduzidas pela proposta da serpente, cientistas pesquisam novas formas de manipular energia, mas somente Cristo detém o poder e exerce-o com justiça e graça. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste (Cl 1:17).


👉Orginalmente publicado em 27/11/2023, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição de Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.

👉Acesse o blog completo e veja outros textos. 

Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/