
Kelson Mota T. Oliveira
“A esposa briguenta é como um dia triste em
que a chuva não para de cair. O que é que você pode fazer para que ela fique
calada? Você já procurou fazer o vento parar ou tentou pegar óleo com a mão?”
(Pv 27:15-16.
NTLH)
Ah! Os doces privilégios da
liderança masculina no lar... Ooh! Que tremendos esforços para manter a digna
condição de homem no exercício de sua função doméstica... Os maridos dizem
abertamente uns aos outros: eu sou a
cabeça, eu é que mando! As esposas retrucam em seguro sussurro para si
mesmas: eu sou o pescoço, eu viro essa cabeça para a direção que quero!
Ah! As artimanhas da luta pelo
poder no lar. As inúteis discussões com a esposa briguenta... Oooh! Como é
difícil fingir ter o poder... especialmente quando acossado na parede pelos
seus pares. Mísero homem, tu que desejas parar o vento e segurares o óleo que escorre
pela tua mão, negue até o fim tua pobre condição de pau-mandado. Se não for
possível, chute o pau da barraca. Mostre com quantos paus o frágil barco do
poder masculino é feito. Quem sabe dê para sair com alguma dignidade...
***
É
meio-dia, 28 de janeiro de 2014, estou voltando da UFAM para almoçar em casa
com as meninas, que estão de férias. Pela manhã foi anunciado com pompa pela
digníssima que teríamos um prato francês para o almoço: restou d’ontê. Como no dia anterior já havíamos saboreado um prato
japonês (o temido yakissobra), não estava
muito animado em encarar o cardápio requentado. Decido parar em uma modesta
churrascaria e levar algo para incrementar o soberbo menu.
No balcão externo, isolado do ambiente do
restaurante, estavam outros quatro homens também encomendando suas porções ao
churrasqueiro. Peço um frango na brasa e uns cortes de fraldinha assada. O
churrasqueiro, homem corpulento e bem-humorado, banhado de suor, envolto em uma
permanente nuvem de vapor de churrasco, entre uma virada na grelha e uma
espetada em uma linguiça suspeita, faz pequenos comentários engraçados, os
quais são bem recebidos pela pequena confraria masculina presente. O tempo, aliado
ao delicioso aroma de carne assada, passa agradavelmente devagar.
Quase em frente à porta de entrada, um carro
breca com impaciência e dele salta um homem esbaforido, calva pronunciada e
semblante cansado. O churrasqueiro, pelo visto conhecido do pobre infeliz, solta
das suas, convencido do riso que irá despertar nos atentos ouvintes.
-
Iiih! Lá vem o João. Hoje não tem almoço em casa. A mulher mandou ele comprar comida. Só vem
aqui quando é mandado pela patroa e pelas filhas – e faz uma engraçada expressão
de submissão amedrontada. Todos damos uma pequena risadinha, uma mistura de
escárnio, superioridade e condescendência.
O
homem entra taciturno e pede um frango na brasa, meio quilo de maminha assada,
salada e arroz, e manda embrulhar para viagem. Ainda estamos imaginando a cena
do pobre João sendo mandado pela mulher. Há um ar de marota cumplicidade no
recinto, quando o churrasqueiro, animado por nossas expressões, volta à carga
com redobrada confiança:
-
E aí João? Sem almoço de novo hoje? – E dá uma piscadela para nós. Seguramos o
riso.
-
Pois é... – responde baixinho, quase se desculpando, e faz de conta que está
interessado no cupim chiando na grelha.
-
João, companheiro velho, manda tua mulher e tuas filhas fazerem o almoço. Deixa
de ser pau-mandado. Quem é que manda na tua casa? Tu ou elas? – Nova piscadela,
acompanhado de um franco gargalhar, seguido pelo riso tímido de todos os
presentes.
João ergue a cabeça e encara o compadre. Seus
lábios estão crispados e há desafio mortal em seu olhar. Responde amargurado
para todos ouvirem:
-
Quem manda lá em casa são elas, ouviu? Tô comprando comida para elas, sim! Fui
mandado para comprar comida, sim!! Sim, são elas que mandam!! – e acrescentou
furibundo – Vai me dizer que em tua casa é diferente? Hein? Hein? Responde? – E encara ferozmente seu algoz e a
pequena assembleia.
Os sorrisos murcham e cabeças pendem ao peito.
Não pela belicosa amargura da resposta, mas porque todos estávamos comprando
comida por motivos similares e porque não ousávamos responder a inquietante
questão lançada em nossas faces. Somente João permanecia com a cabeça erguida,
com a dignidade que advêm de humilde confissão.
Um por um, todos pegam suas encomendas e saem
de fininho com um semblante torturado. No ar, misturado ao delicioso cheiro
levemente adocicado de carne assada, impregna-se uma atmosfera de flagrante e
submissa aquiescência.
***
Ah! Os doces privilégios da
liderança masculina no lar... Ooh! Que tremendos esforços para manter a digna
condição de homem no exercício de sua função doméstica... Mísero homem, tu que
desejas parar o vento e segurares o óleo que escorre pela tua mão, negue até o
fim tua pobre condição de pau-mandado. Se não for possível, chute o pau da
barraca. Mostre com quantos paus o frágil barco doméstico do poder masculino é
feito. Quem sabe você saia com a cabeça erguida. Seus pares, na churrascaria,
nem tanto.
Um
grande e masculino abraço,
nEle...
Kelson Mota
2 comentários:
Poder utópico:)
Hahaha. Poder utópico. Essa foi boa!
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