terça-feira, 25 de agosto de 2026

INTELIGÊNCIAS ANULADAS

 Como a rejeição a Deus tem comprometido a própria racionalidade científica

                                                                                                   

Kelson Mota T. Oliveira

“porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos”  (Rm 1:21-22)


Em minha graduação tive a oportunidade de estudar com um professor de bioquímica defensor da hipótese que a vida se originara ao acaso, em uma sopa química primordial, quente, em um ambiente vulcânico (aliás, uma narrativa em voga até hoje).  Quando questionado sobre as instransponíveis dificuldades químicas deste cenário, se animava em propalar explicações elaboradas, mas que contrariavam os próprios fundamentos da química que ensinava em sala. E quando confrontado com estas incoerências se limitava a responder: “aceite, foi assim que ocorreu. Isso é o melhor que a ciência tem para dar”. Por ser ele um homem de ciência, esperava uma resposta coerente à altura da importância do tema, mas esta não nunca vinha. Sua posição na ciência sugeria lucidez, suas respostas, nem sempre. Confesso que por vezes, me surpreendi com sua falta de discernimento quando o assunto girava sobre temas dessa magnitude. Na época tinha por certo que cientista era sinônimo de inteligência. Descobri, com alguma desilusão, que nem sempre é o caso.

Vivemos em uma época em que a humanidade tem experimentado os frutos dos grandes avanços e conquistas científicas. Por cerca de 300 anos ininterruptos, a ciência moderna tem galgado, palmo a palmo, o monte da ignorância para trazer de lá o fogo do conhecimento. Carros elétricos, internet onipresente, computação quântica, smartphones, foguetes que fazem baliza, telescópios espaciais, entre tantas outras maravilhas, podem dar a impressão que a inteligência humana também se desenvolveu no mesmo ritmo e criar a falsa percepção que os cientistas de hoje são mais brilhantes que seus antecessores (e, por tabela, a sociedade atual mais esclarecida que as de outrora). Mas é apenas impressão. Uma perigosa impressão.

Sendo muito claro, a ciência não avança com o aumento da inteligência, e sim com o acúmulo do conhecimento adquirido por década e décadas de experimentação via tentativa e erro. De vez em quando alguma mente mais brilhante traz à lume um novo paradigma e, consequentemente, novas décadas de experimentação solidificam os novos parâmetros de conhecimento (ou dissolvem concepções erradas). O saber científico, nesse aspecto, avança, mas a inteligência humana não. Por inteligência refiro-me à capacidade de adquirir, compreender e aplicar conhecimento, bem como as diversas habilidades para resolver problemas, adaptar-se ao ambiente e, por fim, lidar com situações novas ou complexas. A dificuldade reside não na capacidade para lidar com essas informações, mas no limite que há para uma mente humana adquirir, dominar e acumular conhecimento. Um químico de nossos dias, mesmo que seja excelente, não tem em sua mente o conhecimento acumulado de quase 350 anos da química moderna e, muito provavelmente, não terá domínio completo de todos os processos básicos que resultaram na leis dos gases, das leis ponderais da matéria, das minúcias envolvidas na busca de uma lei periódica dos elementos, etc. É improvável que entenda todos os parâmetros físicos envolvidos na construção de equipamentos como RMN, espectroscopia de massas, EPR ou microscopia de força atômica. O que ele tem, que os químicos de outrora não tinham, é o acesso fácil ao conhecimento acumulado, catalogado, disponível e depurado por anos de experimentos e revisão por pares. Não é questão de inteligência, é de informação disponível. E, no entanto, em alguns aspectos, o cientista de hoje não consegue ombrear com os homens da ciência dos séculos XVIII, XIX e início do XX, dada a especialização crescente do conhecimento científico frente ao domínio limitado das ciências básicas. Portanto, a inteligência do cientista moderno não tem correlação direta com os avanços da ciência, e em alguns casos demonstra um claro um retrocesso. Um exemplo emblemático é o dos pesquisadores que defendem uma cosmovisão naturalista. Como todos sabem, naturalistas não medem esforços em explicar esse mundo reduzindo tudo ao material, à interações aleatórias da matéria, rejeitando qualquer evidência que aponte para a existência de Deus ou de uma realidade metafísica e transcendental. Esse posicionamento, longe de demonstrar um intelecto superior, manifesta um pensamento retrógado e irracional. Posso provar. Considere sete grandes questões respondidas por sumidades da ciência:

1. Qual a origem do universo? O famoso físico Stephen Hawking responde: “Porque existe uma lei como a gravidade, o Universo pode e irá criar-se do nada.”1.

2. Como a vida surgiu da matéria não-vida? Alexandr Oparin, o pai da abiogênese, afirma sem titubear:

“Não há diferença fundamental entre um organismo vivo e a matéria sem vida. A complexa combinação de manifestações e propriedades características da vida deve ter surgido como parte do processo de evolução da matéria.”2

3. De onde veio a informação presente no DNA dos seres vivos? Richard Dawkins, o zoólogo britânico, amado pelos ateus, tergiversa:

“O Universo não é nada mais do que uma coleção de átomos em movimento, os seres humanos são simplesmente máquinas de propagação do DNA, e a propagação do DNA é um processo de autossustentação. É a única razão de viver de todos os objetos vivos”3

4. Qual a origem da mente? Daniel Dennett, venerado por sua filosofia da mente, e um dos quatro cavaleiros do neoateísmo, responde sem qualquer pejo:

“Uma mente compreensiva poderia, de fato, ter surgido de um processo irracional de seleção natural... Sistemas naturais podem criar ‘competência sem compreensão’, isto é, situações em que ações sofisticadas ocorrem sem que o indivíduo ou a máquina envolvida entendam as razões das ações tomadas.” 4

5. Por que existe um universo contingente e inteligível? O físico teórico estadunidense, Sam M. Carrol, tenta explicar:

“A física moderna sugere que o universo pode existir por si só como um sistema autocontido, sem nada externo para criá-lo ou sustentá-lo. Mas pode não haver uma resposta absoluta para o porquê de sua existência. Eu argumento que qualquer tentativa de explicar a existência de algo em vez de nada deve, em última análise, se basear em um conjunto de fatos brutos; o universo simplesmente é, sem causa ou explicação definitiva.”5

6. Por que o universo se mostra finamente ajustado para manter vida? O físico de partículas e filósofo, Victor John Stenger, desconversa:

“O universo não está ajustado a nós; nós estamos ajustados ao nosso universo particular. Alguma forma de vida poderia ter evoluído em uma faixa de parâmetros que não é infinitesimal, como frequentemente se afirma”6.

7. Qual o sentido e a finalidade do universo? Novamente com a palavra Richard Dawkins:

“O universo que observamos tem precisamente as propriedades que deveríamos esperar se, no fundo, não houvesse nenhum projeto, nenhum propósito, nenhum mal, nenhum bem, nada além de indiferença cega e implacável.”7

Todas as respostas acima contrariam de forma grosseira algum fundamento básico da ciência, seja química, física, matemática, lógica ou biologia (ou todas elas). São respostas inconsistentes com o conhecimento científico acumulado durante os últimos séculos. Não é preciso muita reflexão para notar a inconsistência. Por exemplo, para Hawking, é a gravidade que cria o universo do nada (do nada!). Qual o problema? A gravitação é uma lei que o próprio modelo cosmológico padrão não pode descrever de forma funcional na singularidade primordial que supostamente criou o universo. Hawking certamente não desconhecia essa limitação. Se não era funcional como poderia ter sido a causa criadora? Oparin teve argumento semelhante ao defender o disparate que a vida surgiu da não-vida e que a matéria inanimada não é diferente de matéria sem vida! Se não tem vida, como gerou vida? A incoerência aumenta ao afirmar que a vida surgiu espontaneamente da matéria, uma posição que ignora fundamentos químicos básicos e contraria a biologia, que historicamente nunca sustentou a geração espontânea como origem da vida. Nas palavras de Wald: “Basta contemplar a magnitude dessa tarefa para concluir que a geração espontânea de um organismo vivo é impossível. No entanto, aqui estamos”8.

As incongruências da inteligência naturalista não param aí. O mistério da origem da informação no DNA em organismos vivos, um dos mais cabulosos enigmas da ciência, para Dawkins é apenas devido ao movimento aleatório dos átomos do universo em meio a um processo que se cria e se sustenta a si mesmo. O zoólogo joga por terra tudo o que se sabe sobre a teoria da informação e os fundamentos de probabilidade e estatística. É sabido que aleatoriedade não cria informação (gera apenas ruído). Informação implica em codificação, tradução, significado e contexto entre um emissor e um receptor. Ainda que uma máquina possa propagar e armazenar informações, ela não é a origem da informação, apenas o meio. Se há informação complexa e especificada, é consenso científico que há inteligência envolvida. Pelo visto, para Dawkins, isso não é condição necessária. Imagino que a essa altura já tenha provado meu ponto, mas a demonstração de irracionalidade vai além.

Dennett, em uma espantosa demonstração de inépcia, afirma que a mente racional é oriunda de processos brutos, cegos, puramente irracionais, sem qualquer razão ou significado anterior. O irracional, que por definição é algo diametralmente contrário à razão, para o materialista é o fundamento do racional. Nesse esquema, a razão não é algo real, mas um tipo de simulacro oriundo da seleção natural. O só considerar a possibilidade dessa ordem bizarra já demonstra uma grave inconsistência de pensamento. É de pasmar que um filósofo do patamar de Dennet defenda um argumento que destrói a confiabilidade de qualquer conhecimento, inclusive o dele. Nas palavras C. S. Lewis: “A menos que a razão humana seja verdadeira (e não fruto do acaso), nenhuma ciência pode ser verdadeira”9. Defender que sistemas naturais brutos criam competências sem qualquer compreensão é, no mínimo, um sinal de clara estupidez ou de tremenda má fé, ou ambos, para não usar um termo mais duro.

A situação fica ainda mais interessante (e bizarra) quando a pergunta não admite uma resposta naturalista. Sam Carrol, incensado pelos ateus, ao ser questionado sobre o fato do universo ser compreensível, simplesmente tergiversa: o universo é sem causa, sem explicação, sem significado. Ao lançar fora a necessidade de explicação, reduz a ciência ao nível do mistério bruto, do subjetivo, de uma realidade sem sentido, da anti-ciência. Carrol, parece ter esquecido o espanto de Einstein quando confrontado com a mesma pergunta: “A coisa mais incompreensível sobre o universo é que ele é compreensível”10. De forma semelhante, quando indagado sobre o impressionante ajuste fino do universo, que aponta indubitavelmente para uma causa inteligente, Stenger simplesmente inverte a situação e, cinicamente, afirma que o ser humano é que é ajustado ao universo e ponto final, sem dar bola para todos os limites matemáticos quebrados nessa bizarra inversão. Por fim, Dawkins, quando inquirido acerca do sentido do universo, simplesmente nega que haja projeto, propósito ou sentido, somente matéria indiferente. Sequer considera a eterna busca humana por transcendência, e se abriga no reducionismo puro e simples. Sua inteligência (ou falta dela) não parece processar que matéria não ama, não questiona, não investiga, não evolui, não anseia, não tem moral, é cega, irracional, sem propósito e direção e, portanto, incapaz de lastrear as ousadas asseverações que ele mesmo faz. O reducionismo materialista não é tão somente um erro lógico e intelectual, é um claro desvio moral.

O que vemos em todas essas respostas, a despeito dos avanços científicos, não é inteligência, e sim irracionalidade. Não são hipóteses baseadas em evidências, são imposturas científicas. Não é avanço da ciência, mas desespero tolo em suprimir por todos os meios os vestígios de Deus na criação. Defender que o universo existe, mas não tem causa, que a matéria existente é fruto do nada, que o irracional gerou o racional, que vida se origina da não-vida, que a informação não demanda inteligência, etc, é prova evidente de um intelecto um tanto tolo, incoerente e insensato. "Diz o tolo em seu coração: Deus não existe" (Sl 14.1 NVI 2011). A cegueira da mente é o alto preço pago pelo materialista no altar do ateísmo. Todavia essa cegueira não é falta de luz, e sim de disposição e vontade para aceitar o que a criação revela.

A recusa sistemática de um Criador em meio a tantas evidências a favor, longe de ser uma atitude científica, é uma espécie de suicídio intelectual que se caracteriza por um modo desarrazoado de pensar, uma anti-inteligência que se autolimita, e, em certo sentido, se anula. “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios” (Rm 1:21). As conclusões que tal mente pode chegar são nulas, inúteis, sem efeitos. Mesmo mentes brilhantes, quando limitadas a uma cosmovisão estritamente material, acabam por esvaziar o próprio fundamento da razão que utilizam, produzindo interpretações que carecem de sentido último e coerência plena.  São, portanto, inteligências anuladas, eclipsadas por uma ilusão de orgulhosa sabedoria. Como bem escreveu o apóstolo Paulo, “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1:22). Meu professor de bioquímica era um indivíduo perspicaz, mas quando o assunto remetia a algo além da matéria, suas respostas eram frágeis e revelavam uma inteligência anulada, esvaziada de discernimento.

Assim, a recusa do Divino não apenas empobrece a compreensão da realidade, mas também compromete a própria inteligência que a sustenta — e, embora tal decisão permaneça no âmbito da liberdade pessoal, suas consequências não se limitam ao tempo presente, mas ecoam na eternidade.

O cientista minimamente honesto, ao avaliar rigorosamente os dados e evidências, inevitavelmente se defrontará com indícios que remetem aos atributos e poder de Deus. O que ele fará de posse deste conhecimento é de cunho pessoal, mas seus desdobramentos são eternos. Ou mostrará uma inteligência que se humilha perante as evidências e se rende ao Senhor, Criador de todas as coisas, ou uma inteligência anulada, orgulhosa de sua sabedoria materialista, porém incapaz de perceber até os fatos mais simples manifestos na natureza. A recusa sistemática de Deus não apenas empobrece a compreensão da realidade, mas também compromete a própria inteligência que a sustenta. Cada indivíduo é livre para anular ou acolher as provas inequívocas da existência do Divino, mas não para escapar das consequências intelectuais e eternas dessa escolha.


Referências


1. Stephen Hawking e Leonard Mlodinow. The Grand Design. Ed. Bantan, 2012.

2. Aleksandr I. Oparin. A origem da vida. Ed. Global, 9ª edição, 2018.

3. Richard Dawkins. Waking Up in the Universe. BBC Christmas Lectures Study Guide. London, BBC 1991.

4. Daniel Dennett. Das bactérias a Bach e vice-versa: a evolução das mentes. Edições 70, 2021.

5. Sean M. Carroll. Why Is There Something, Rather Than Nothing? ArXiv:1802.02231, 02/2018.

6. Victor J. Stenger, The Fallacy of Fine-Tuning: Why the Universe Is Not Designed for Us. Ed. Prometheus, 2011.

7. Richard Dawkins. O rio que saía do Éden: uma visão darwiniana da vida. Ed. Rocco, 1996.

8. George Wald, “The Origins of Life”.  The Physics and Chemistry of Life, 1955

9. C. S. Lewis. Miracles: A Preliminary Study. London: Geoffrey Bles, 1947

10. A. Einstein. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute. 221(1936) 349–382


👉Texto Originalmente publicado em 15/06/2026, sob o mesmo título, na coluna de Fé e Ciência do portal Voltemos ao Evangelho. Acesse clicando aqui.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A REFORMA PROTESTANTE, A CIÊNCIA E AS UNIVERSIDADES

 


 
Prof. Kelson Mota T. Oliveira


      Muito se tem falado sobre a relação entre o saber científico e a Reforma Protestante no início do século XVI e como isso resultou nas modernas universidades. Mas, para entender a ciência e a educação nas universidades após o século XVI, e entendendo que o evento da Reforma foi o ponto fulcral nesse processo, devemos refletir um pouco como era antes do século XVI, antes de Lutero pregar suas 95 teses e com isso mudar todo o rumo da Europa e por tabela o mundo todo nos séculos que se seguiram.

      Primeiramente devemos ter em mente que o conceito de universidade atual é atavicamente ligado ao conceito de desenvolvimento do conhecimento científico e seus avanços. Mas isso sempre foi assim? É necessário perguntar: como era esse desenvolvimento antes e por que a ciência moderna não se desenvolveu antes do século XVI, mesmo em povos como os árabes, os chineses e os gregos? A resposta não é simples, contudo podemos angariar algum auxílio em ao menos três pontos fundamentais:

    A universidade não é uma evolução natural do pensamento e desenvolvimento das civilizações. A universidade, conforme relembram Pearcey e Thaxton, no excelente livro A Alma da Ciência, é uma instituição inventada. E por que é assim? Porque várias civilizações avançadas surgiram e desapareceram no decorrer da história sem desenvolverem uma filosofia científica. E esse é um ponto muito importante, pois o pensamento científico em termos de experimentação e formulação matemática só veio a surgir na Europa Ocidental, no fim do século XVI e em nenhuma outra era da história humana. Por mais estranho que pareça à primeira vista, a ciência, enquanto metodologia, não é algo natural para a humanidade. E aqui devemos ter o cuidado de não confundir com a curiosidade humana em entender como o mundo funciona: a curiosidade humana é algo natural; pensar, inquirir, buscar entender faz parte do padrão mental do homem criado à imagem e semelhança de Deus. Todavia, a ciência institucional, a metodologia científica não o é. Para efeito de ilustração, alguns princípios de química em termos de metalurgia, fabricação de vidros, tinturas, bebidas, etc, eram conhecidos desde o século V aC, mas somente em fins do século XVII é que ganhou roupagem realmente científica, e nunca antes. 

     Para que a ciência institucionalizada, metodologicamente precisa, possa surgir na história é preciso um substrato singular e específico para que isso possa se desenvolver. Esse substrato, como muitos filósofos da ciência têm atestado, é a fé cristã, especialmente a que se difundiu pela Reforma Protestante, iniciada por Lutero em 1517 ao afixar na porta da Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg, Alemanha, as suas 95 teses. Sim, foi na Europa fortemente impregnada pela cosmovisão teísta cristã que a ciência pode surgir. Mesmo que muitos naquele século não vivessem a fé cristã de forma genuína, a cosmovisão vigente e abrangente era totalmente cristã e permeava a todos, do nobre ao camponês, do erudito ao ignorante. A estrutura intelectual do indivíduo à época, se fundamentava com a visão bíblica de mundo. Essa cosmovisão faria toda a diferença para a institucionalização da ciência. Por exemplo, culturas mais avançadas como China e os arábios, apesar de grandes descobertas e avanços tecnológicos à época, não tinham o substrato necessário para desenvolver a ciência moderna ou mesmo sequer iniciar uma revolução científica. Esta depende de alguns caros pressupostos acerca do mundo natural, que somente a cosmovisão bíblica fora capaz de imprimir nas mentes e corações. Que pressupostos são esses? Há vários, cito três: 

  1. A realidade concreta da natureza. Parece óbvio para nós em pleno século XXI, afirmar que a natureza que nos cerca é real, tangível, concreta, no entanto, no passado, civilizações cujas cosmovisões eram dominadas pelo panteísmo e idealismo ensinavam que as coisas eram manifestações ou simulacros da divindade. No fim das contas defendiam que a realidade era um certo tipo de ilusão. E muitos desses sistemas de pensamento estão em voga até hoje. O hinduísmo apregoa que o mundo material é dominado pelo conceito do maya (uma ilusão) e todos vivem imersos em um mundo que é apenas um simulacro vago e ilusório. Nesse pensamento, o iluminado é quem percebe essa ilusão e alcança uma compreensão divina da realidade maior (a trilogia Matrix bebe nessa fonte). O problema desse sistema de pensamento é óbvio: se você desacredita da materialidade do mundo, como desenvolver uma metodologia verdadeiramente científica, que parte do pressuposto que a matéria é real? A doutrina cristã, redescoberta pelos reformadores, por outro lado, ensina que o mundo material é criação de Deus. É concreto, e não uma emanação ou manifestação divina. É real, não ilusório, passível de estudo e experimentação.
  2. A ordem na natureza criada. Por apresentar uma ordem subjacente, a natureza é digna de estudo. Também parece um conceito óbvio, mas por muitos séculos esse pressuposto não foi aceito. A civilização grega, talvez a mais inteligente da história, pressupunha que a matéria era má e caótica, sem qualquer ordem subjacente. Para os gregos o trabalho braçal era coisa para escravos, trabalhar com a matéria bruta era algo degradante. Chama a atenção que os gregos, apesar do impressionante desenvolvimento filosófico e intelectual, não desenvolveram nenhuma ciência empírica, posto que esta requer observação e experimentação material. Por outro lado, a cosmovisão bíblica vai martelar a ideia de que a criação é boa. Várias vezes o livro de Gênesis repete a reação de Deus ao terminar cada obra: e viu Deus que era bom. A teologia cristã, especialmente após a Reforma, afirma que o trabalho manual não é degradante e deve ser usado para a glória de Deus, pois tudo o que foi criado por Deus espelha a sua bondade. A Reforma Protestante reconheceu além do chamado para servir na igreja, o chamado secular do cristão. Esse chamado para servir permitiu e conferiu dignidade à investigação da natureza. Não há como desenvolver boa ciência se considerarmos a natureza indigna dos esforços do ser humano. João Calvino, o mais notório dos reformadores, certa vez escreveu acerca das observações astronômicas: “é necessário haver arte e um trabalho mais preciso para investigar o movimento das estrelas, determinar suas posições ordenadas, medir seus intervalos e observar suas propriedades”. Se eu der essa frase para qualquer aluno que cursa a disciplina Metodologia Científica e perguntar a que metodologia o autor se refere, ele dirá prontamente: ora, isso é puro método científico! 
  3. A materialidade da natureza em contraposição à divinização. Aqui o princípio já não é tão óbvio, mas é de suma importância para o estabelecimento de uma instituição científica. O pressuposto afirma que a natureza, ainda que boa, ordenada, digna de estudo da parte do homem, não é divina, e sim apenas criação de Deus. Qual a importância desse fundamento? Simples, religiões animistas, totemistas e panteístas retratam o mundo como um jardim encantado, cheio de espíritos, demônios, fadas, semideuses, ou emanações divinas. Chama-se a isso de divinização da natureza. Um exemplo emblemático deste obstáculo na história foi o não desenvolvimento da ciência chinesa. Os chineses, apesar das muitas e impressionantes descobertas (papel, pólvora, bússola, imprensa, sericultura, papel moeda, ábaco, números negativos, etc), tinham uma visão animista de mundo, com uma natureza comandada por espíritos, traduzido no ocidente como dragões. Na mitologia chinesa diversos tipos de dragões, ou espíritos, eram responsáveis por toda sorte de fenômenos naturais, desde o movimento de placas tectônicas até o controle do fluxo dos rios e a mudança no clima. Nesse sistema de pensamento, era mais interessante estudar os gostos e hábitos dos dragões do que procurar sistematicamente as causas dos fenômenos. Não há como sistematizar os padrões naturais se estes são caprichos de seres sobrenaturais. Em suma: uma civilização, por observação cuidadosa, pode chegar a compreender vários fenômenos naturais e construir algum avanço tecnológico, mas nunca chegará a institucionalizar uma metodologia científica se sua cosmovisão for animista. A doutrina bíblica sempre descartou a ideia que a matéria é divina. Deus não habita nas coisas materiais, não é uma personificação de forças naturais e as coisas criadas não são emanações do divino. Deus é o Criador, e os reformadores relembraram o mundo que não devemos confundi-lo com as coisas criadas, como sol, lua estrelas, templos, pessoas, ídolos, etc. Com a Reforma, a natureza foi desdeificada. E aqui temos um ponto de suma importância: é só quando a natureza é desdeificada, desvestida de sua aura divina, que a ciência pode emergir. A alquimia só se tornou a química moderna que conhecemos quando abandonou de vez a ideia grega dos quatro elementos divinos e a simbologia egípcia do poder oculto na matéria.

       Em resumo, a ciência para se desenvolver precisa de um pensamento que aceite que esse mundo é real, ordenado, inteligível e cujos padrões podem ser naturalmente reconhecidos. Um mundo onde os acontecimentos naturais ocorrem de maneira confiável e regular e não sob o capricho de potestades e espíritos da natureza. A fé cristã foi o substrato no qual a ciência moderna pôde nascer, e a Reforma Protestante foi o meio usado por Deus para fixar na mente europeia esses pressupostos. E é nesse ponto que começamos a pensar nas universidades que vieram no rastro da Reforma, no século XVI. Mas a Reforma não é um movimento institucional fixo, ela começa e se desenvolve com o substrato da genuína cosmovisão cristã, ainda de forma incipiente no século XV, e vai encontrar sua expressão mais emblemática em Martinho Lutero.

       Martinho Lutero, ainda novo, com 21 anos, chegou à conclusão que todos deveriam ter acesso aos textos sagrados. Mas havia um problema, o povo alemão era majoritariamente analfabeto. É nessa preocupação que começa os caminhos que levariam a educação a ser um direito de todos e a ciência uma metodologia. Com a Reforma, Lutero propôs aos príncipes que as crianças deveriam receber educação formal e, ao seu lado, estava Felipe Melanchthon que defendeu o direito universal à educação ao requerer que tanto meninos, quanto meninas, tivessem o direito de frequentar a escola. Assim, Lutero propôs que a educação fosse mantida pelo Estado e fosse obrigatória para todos, e defendeu que a educação deveria ser mais do que apenas espiritual, mas também cultural, para que os indivíduos pudessem se inserir na sociedade. Anos depois, já em meados do século XVII, o fundador da didática moderna, João Amós Comenius, bispo protestante da igreja da Moravia, e seguidor das ideias de Jan Huss, lançou as bases que fundamentaram as universidades que viriam. Primeiro defendeu, assim como Lutero, a universalidade da educação. Depois estabeleceu um tratado sobre a tríade da educação superior que deveria contemplar três áreas: (a) a instrução, que seriam os conteúdos em si (as nossas ementas modernas), (b) a virtude, entendidas por habilidades que podem ser desenvolvidas (para nós hoje, a prática e a experimentação) e por fim (c) a piedade, que são as atitudes (nos dias de hoje, a competência, a responsabilidade e o senso crítico). O interessante desta visão reformada, é que apregoava que a educação deveria considerar o educando e enxergá-lo como um ser integral em todas as suas dimensões: intelectual, moral e espiritual. Basicamente, Comenius antecipou em três séculos a teoria moderna de aprendizado significativo. Todas as universidades e o próprio sistema de educação, aos poucos, aderiu à visão de Comenius, dando origem ao que entendemos hoje como a base do ensino, tanto fundamental e médio, como superior. Se hoje temos currículos que se preocupam com o aprendizado significativo do aluno, é porque no passado um cristão reformado lançou as bases para tal.

     É nesse caldo cultural que veio com a Reforma Protestante que as universidades antigas se abriram para a população e novas universidades foram formadas. Naturalmente que antes da Reforma já existiam universidades fundadas na idade média (como Universidade de Bolonha, criada em 1190; Universidade de Oxford, criada em 1214; Universidade de Paris, criada em 1215, e cerca de 60 outras). Mas as universidades antes da Reforma eram restritas à formação do clero e a alguns filhos de nobres e do alto escalão da governança. Foi só após o movimento da Reforma que aos poucos, e mui lentamente, as portas dessas universidades antigas começaram a se abrir para os demais segmentos da população. Cristãos reformados, imbuídos pelo desejo de educação universal, criaram novas universidades atreladas a seminários teológicos, onde se poderia estudar além da teologia divina (ThD), a teologia natural ou filosofia natural (PhD). A mais emblemática foi a Universidade de Genebra, fundada em 1559, por João Calvino, criada para treinar ministros e promover a teologia reformada, seguida da Universidade de Leiden, na Holanda, em 1575, por calvinistas durante a guerra dos oitenta anos. Em uma movimentação diferente, a vetusta universidade de Heidelberg, fundada em 1386, foi fortemente influenciada pela Reforma Protestante, sendo a primeira a adotar o luteranismo e o calvinismo. A universidade de Maburgo, fundada em 1527, foi a 1ª universidade protestante do mundo, tornando-se um centro de teologia luterana e formação clerical. Por fim, foi criada a (hoje famosa) Universidade de Edinburgo, na Escócia (um dos maiores centros de Ciência da Computação da atualidade), fundada em 1582, por reformadores escoceses na esteira de John Knox.

     Mas é impossível falar de universidades reformadas sem citar as universidades protestantes americanas. Entre as famosas cito três: a Universidade de Yale (1640), a Universidade de Harvard (criada por puritanos em 1643) e a Universidade de Princeton (1746). O desejo de Lutero de ver todas as crianças com acesso à educação ficou marcado no coração dos peregrinos que emigraram para a América, que criaram o lema uma escola, uma igreja. Nenhuma outra nação anterior, com cosmovisão diferente da cristã, foi capaz de estabelecer um marco de educação tão impressionante. As universidades americanas (e mesmo as europeias), acima citadas, estão entre as mais respeitadas e relevantes do mundo atual e todas possuem em sua história muitos ganhadores de nobel, presidentes famosos e lideranças globais. Os lemas das instituições americanas apontam indubitavelmente para suas origens reformadas. O lema de Princeton até hoje é: Dei sub numine viget (Sob o poder de Deus prosperará). O de Yale é Lux et veritas (luz e verdade) e no brasão escrito, em hebraico, urim e tumim, indicando a vontade de Deus revelada. O lema de Harvard atual, criada originalmente para formar líderes e pastores para as igrejas, é um claro caso de tentativa de gerações posteriores em esconder suas origens cristãs: veritas (verdade). Mas o lema original era maior:  Veritas Christus et eclesieae (verdade para Cristo e a Igreja). Esses lemas, longe de ser apenas propaganda, eram um testemunho do quanto a ciência era algo vinda de Deus e um conceito valioso para os reformados. Infelizmente, os lemas das universidades seculares de hoje esquecem que para haver ciência é necessário que haja o substrato da fé cristã. Na universidade em que trabalho o lema é Universia scientia veritas (a ciência como verdade universal), o que em si incorre em erro, posto que o método científico é um meio de investigação da verdade natural e não é a expressão da própria verdade. E é sempre bom lembrar aqui: ciência não é a verdade, mas a busca pela verdade.

      Infelizmente, nos séculos que se seguiram à Reforma, a ciência e a educação nas universidades europeias e americanas passaram por transformações profundas. O incipiente humanismo no século XVI, o deísmo no século XVII, o iluminismo do século XVIII e o naturalismo do século XIX aos poucos eclipsaram as conquistas da Reforma Protestante, o que culminou em meados do século XIX na narrativa tosca e mentirosa que fé e ciência sempre se opuseram, o que foi aceito como certo no século XX.

       Se hoje temos boas escolas, excelentes universidades e incríveis avanços na ciência e na tecnologia é porque no passado cristãos corajosos se levantaram e ensinaram que vivemos em um mundo ordenado e inteligível, criado por um Deus sábio, inteligente e poderoso, que nos deu domínio sobre sua criação. A igreja reformada, pelos desígnios do Senhor, nos legou, além do maravilhoso e correto entendimento das doutrinas bíblicas, a benção da ciência. Sim, a ciência quando honestamente conduzida, sempre concordará com a correta interpretação das Escrituras, e apontará para o Criador. Certamente, os reformadores concordariam com essa frase. 

Soli Deo Gloria!


👉Texto Originalmente publicado em 31/10/2024, sob o mesmo título, na coluna de Fé e Ciência do portal Voltemos ao Evangelho. Acesse clicando aqui.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Morte da Verdade e o Futuro da Civilização - Ciência, Fé e a Crise do Relativismo Contemporâneo

 

 

  Reginaldo Cresencio

Palestra na manhã de, 03 de julho de 2026,

No 7º Congresso TDI Brasil,

Universidade Mackenzie - SP.

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 É uma grande honra participar deste 7º Encontro do TDI Brasil diante de uma seleta plateia, para refletirmos sobre uma das questões mais fundamentais da história da filosofia, da ciência e da própria civilização humana: a questão da verdade. Gostaria de começar nossa reflexão com uma imagem simples. Imaginem uma figura desenhada no chão. De um lado, uma pessoa olha para ela e afirma categoricamente:

— “Isso é claramente um número seis.”

Do lado oposto, outra pessoa observa o mesmo símbolo e responde com igual convicção:

— “Não. Isso é obviamente um número nove.”

Ambos estão sinceramente convencidos. Ambos observam exatamente o mesmo símbolo. Ambos acreditam possuir razão. Agora eu lhes pergunto: qual deles está falando a verdade? Talvez alguns digam: “depende do ponto de vista”. E, honestamente, talvez poucas frases consigam resumir tão bem o espírito intelectual do nosso tempo quanto essa.

Curiosamente, vivemos numa época que alcançou extraordinário avanço tecnológico e científico, mas que simultaneamente enfrenta uma profunda crise epistemológica. Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca produzimos tantos dados. Nunca desenvolvemos sistemas tão sofisticados de processamento cognitivo. E, ainda assim, talvez nunca tenhamos vivido tamanha confusão acerca do que é real, verdadeiro ou confiável.

Entramos numa época em que deepfakes desafiam nossa percepção; algoritmos moldam nossa interpretação do mundo; inteligência artificial produz simulações cada vez mais convincentes; e a própria distinção entre realidade e fabricação começa lentamente a se tornar nebulosa. Paradoxalmente, quanto mais avançamos tecnologicamente, mais urgentemente precisamos recuperar critérios objetivos de verdade. Porque sem verdade objetiva sequer conseguiremos distinguir entre informação e manipulação; descoberta e fabricação; ciência e propaganda. Mas aqui precisamos fazer uma distinção filosófica extremamente importante.

Uma coisa é reconhecer as limitações interpretativas do ser humano. Outra completamente diferente é concluir que, por causa dessas limitações, a realidade objetiva deixou de existir. A primeira afirmação pertence ao campo da epistemologia. A segunda é uma afirmação ontológica muito mais radical. E confundir essas duas coisas talvez tenha sido um dos erros mais profundos da cultura contemporânea. Porque o fato de interpretações divergirem não significa necessariamente que a verdade deixou de existir.



             Perspectiva limitada não equivale à inexistência do real. E isso é crucial. Uma época em que praticamente tudo foi transformado em perspectiva: a moralidade; identidade; significado; verdade; e até mesmo a própria realidade.

A ideia de verdade objetiva passou a ser vista com desconfiança. Uma civilização onde expressões como “essa é apenas a sua verdade”; “cada um possui sua própria verdade”; “verdade é uma construção social”;  “tudo depende do seu ponto de vista”, etc, tornaram-se praticamente axiomas culturais; deixaram de ser apenas slogans acadêmicos e passaram a moldar profundamente nossa cultura. De fato, vivemos uma crise epistemológica profunda.

O problema é que, quando uma sociedade deixa de acreditar na possibilidade da verdade objetiva, ela não destrói apenas a religião. Ela começa lentamente a destruir também: a moral; a justiça; o diálogo racional; a confiança pública; e até a própria ciência.

A grande pergunta do nosso tempo talvez não seja: “Qual é a verdade?” Mas algo ainda mais fundamental: “A verdade existe?”. Essa pergunta é civilizacional. Porque toda sociedade depende da pressuposição de que existe algo real a ser conhecido. Toda ciência pressupõe isso. Todo tribunal pressupõe isso, toda investigação, toda filosofia, toda comunicação pressupõe isso. Até mesmo quem nega a verdade objetiva normalmente espera que sua negação seja objetivamente verdadeira. E aqui começamos a perceber que talvez o relativismo contemporâneo possua um problema estrutural interno.

 

1. O QUE É VERDADE?

A pergunta: “A verdade existe?” É tão importante, porque talvez o futuro da ciência, da racionalidade e da própria civilização dependa da resposta que dermos a essa pergunta. Antes de perguntarmos se a verdade existe, precisamos perguntar: o que queremos dizer com “verdade”? Historicamente, uma das definições mais influentes da tradição filosófica clássica vem de Aristóteles e posteriormente desenvolvida por Tomás de Aquino:

Veritas est adequatio intellectus et rei[1]

(A verdade é a adequação do intelecto à realidade)

Ou seja: uma afirmação é verdadeira quando corresponde ao que de fato é. Essa é a chamada teoria correspondentista[2] da verdade.

Quando afirmo que a água entra em ebulição sob determinadas condições físicas”, essa afirmação é verdadeira não porque eu gosto dela, nem porque ela me conforta, mas porque corresponde à realidade observável. A verdade, portanto, não depende: de preferência; de emoção; de consenso; de maioria; de ideologia ou aprovação cultural. Ela depende da realidade. E isso meus caros, é fundamental. Porque a própria atividade científica só faz sentido se existir uma realidade independente da mente humana.

           Se não houver realidade objetiva, não existe descoberta científica. Existe apenas construção psicológica ou narrativa social. Mas nenhum cientista realmente trabalha assim. Um pesquisador não entra num laboratório pensando: “vamos descobrir nossa verdade subjetiva sobre química orgânica”.  Ele parte da convicção de que existe uma estrutura objetiva da realidade a ser compreendida. Ele entra no laboratório porque acredita; consciente ou inconscientemente que, existe uma estrutura objetiva da realidade esperando para ser descoberta. A ciência inteira repousa sobre essa pressuposição.

Mas aqui precisamos fazer outra distinção importante. A existência da verdade objetiva não implica onisciência humana. A ciência frequentemente trabalha com aproximações, refinamentos e revisões metodológicas. E corrigir interpretações não significa abandonar a ideia de realidade. Pelo contrário, a possibilidade de correção científica só existe porque pressupomos que há algo real em direção ao qual nossas teorias podem se aproximar progressivamente.

 

2. A REVOLTA CONTEMPORÂNEA CONTRA A VERDADE

 Mas então surge a pergunta: como chegamos ao atual cenário de relativização radical? Precisamos compreender brevemente o percurso intelectual da modernidade tardia.

A modernidade depositou profunda confiança na razão humana. Acreditava no progresso; na objetividade; na ciência; e na capacidade racional do homem. Contudo, as tragédias do século XX produziram um profundo desencanto: guerras mundiais; totalitarismos; genocídios; e recentemente a instrumentalização ideológica da ciência. A partir daí, cresce aquilo que chamamos de pós-modernidade. Autores como: Michel Foucault[3], Jacques Derrida e Jean-François Lyotard, passam a questionar profundamente a neutralidade; os discursos universais; as metanarrativas; as estruturas de poder. E é importante reconhecer que algumas dessas críticas possuíam elementos legítimos. De fato, as instituições podem manipular; os discursos podem oprimir; a ciência pode ser usada ideologicamente e seres humanos possuem vieses. Mas o problema começa quando a crítica à distorção da verdade evolui para a negação da própria verdade. E então entramos num território perigosíssimo.

Porque, se toda verdade é apenas construção de poder, então a própria afirmação: “toda verdade é construção de poder” também deveria ser apenas construção de poder. O relativismo começa então a colapsar sob o peso de sua própria lógica.

 

3. O PROBLEMA FILOSÓFICO DO RELATIVISMO

Aqui encontramos um dos pontos mais importantes desta reflexão. O relativismo radical é autorrefutante. Pensemos na frase atribuída ao conhecido filósofo Friedrich Nietzsche “Não há fatos, apenas interpretações.[4]” e façamos uma pergunta simples: essa afirmação é absolutamente verdadeira? Se for, então existe ao menos uma verdade absoluta. Se não for, então não temos motivo para acreditar nela.

O mesmo ocorre com afirmações como “toda verdade é relativa”, “não existe conhecimento objetivo” e “tudo é interpretação”. Essas frases tentam funcionar universalmente enquanto negam a possibilidade de universalidade. Isso gera uma contradição inevitável.

O filósofo cristão Alvin Plantinga[5] argumenta algo semelhante ao sustentar que, sob determinadas formas de naturalismo evolucionista, a probabilidade de confiabilidade de nossas faculdades cognitivas torna-se epistemicamente problemática, produzindo uma espécie de autoderrota racional do próprio sistema. E aqui percebemos algo importante: O relativismo parece intelectualmente sofisticado, até que tentamos viver consistentemente segundo ele. Porque ninguém realmente vive como relativista absoluto. Ninguém entra num avião esperando que a engenharia seja “socialmente construída”. Ninguém aceita um diagnóstico médico puramente subjetivo. Ninguém deseja que o cirurgião diga: “essa é apenas minha narrativa sobre anatomia”. Na prática, todos continuamos dependendo desesperadamente da existência da verdade objetiva.

 

4. A CIÊNCIA PRESSUPÕE UMA REALIDADE INTELIGÍVEL

E aqui chegamos talvez ao ponto central de tudo o que já foi dito.A ciência não prova a inteligibilidade do universo. Ela pressupõe essa inteligibilidade. Isso é extraordinário. A ciência depende de fundamentos filosóficos anteriores à própria investigação científica. Por exemplo, a ciência pressupõe:

·       que existe um mundo externo real;

·       que as leis da natureza possuem estabilidade;

·       que há coerência racional no cosmos;

·       que a lógica é válida;

·       que relações causais existem;

·       e que a mente humana consegue acessar parcialmente a realidade.

Mas a pergunta é: por quê? Por que o universo é inteligível? Por que a matemática descreve a realidade física com tamanha precisão? Por que estruturas abstratas concebidas na mente humana correspondem tão profundamente ao funcionamento do cosmos?

Albert Einstein disse certa vez “O mais incompreensível do universo é que ele seja compreensível[6]”. Essa frase é filosoficamente devastadora, porque revela um mistério profundo: a racionalidade do cosmos.

A ciência não nasce do caos epistemológico. Ela nasce da convicção de que existe ordem a ser descoberta. O cientista entra no laboratório porque acredita, ainda que implicitamente, que existe coerência, regularidade, inteligibilidade e estrutura. A ciência não cria inteligibilidade. Ela a encontra. E talvez isso nos obrigue a considerar uma hipótese metafísica mais profunda: talvez a inteligibilidade do cosmos não seja um acidente irracional. Talvez ela aponte para uma Fonte racional. Para um Designer Inteligente.

 

5. CRISTIANISMO E O NASCIMENTO DA CIÊNCIA

 Existe uma narrativa popular moderna de que ciência e cristianismo são inimigos históricos. Mas historicamente isso é extremamente simplista. A ciência moderna nasceu majoritariamente em solo teísta. Grandes nomes da revolução científica eram profundamente influenciados por pressupostos cristãos: Isaac Newton; Johannes Kepler; Robert Boyle; Michael Faraday. Eles acreditavam que o universo era racional, a natureza possuía ordem e as leis naturais refletiam uma mente ordenadora. Kepler compreendia a investigação científica como participação racional na ordem criada por Deus, ideia frequentemente resumida pela expressão “pensando os pensamentos de Deus depois dEle”[7]. Essa visão nasce diretamente da ideia cristã do Logos[8]. O Evangelho de João afirma: “No princípio era o Logos”.

No mundo grego, Logos não significava apenas “palavra”. Significava: razão, ordem, inteligibilidade e estrutura racional do cosmos. O cristianismo afirmava algo revolucionário, o universo não é caos irracional. Ele possui coerência porque procede de uma Inteligência racional. Isso fornece um fundamento metafísico extraordinariamente fértil para a ciência.

   

6. A MORTE DA VERDADE E O FUTURO DA CIVILIZAÇÃO

 Agora precisamos considerar as consequências culturais. O que acontece quando uma civilização abandona a verdade objetiva? A primeira consequência é ética. Sem verdade objetiva: a moralidade torna-se mera preferência; a justiça torna-se puro poder; a identidade torna-se fluidez absoluta; e a linguagem perde estabilidade. Então o debate racional começa a morrer. Porque o diálogo só existe quando acreditamos que existe algo verdadeiro a ser buscado conjuntamente. Caso contrário, resta apenas disputa de narrativas.

Talvez seja exatamente neste ponto que esta discussão deixa de ser apenas um debate filosófico e passa a tocar profundamente a vida de milhares de famílias cristãs. Como pastor, tenho acompanhado de perto uma preocupação crescente entre pais sinceros que amam seus filhos e investiram anos ensinando-lhes as Escrituras. O receio não é simplesmente vê-los ingressarem em uma boa universidade, afinal  a universidade deveria ser um dos lugares privilegiados da busca pelo conhecimento e pela verdade. A verdadeira preocupação é outra: será que eles permanecerão firmes na fé quando suas convicções forem submetidas ao intenso escrutínio intelectual do ambiente acadêmico?

Infelizmente, essa preocupação não é infundada. Há um número significativo de jovens que, justamente no período de transição para a universidade, afastam-se da igreja e, em muitos casos, abandonam completamente a fé cristã. Evidentemente, as razões são múltiplas e variam de pessoa para pessoa. Entretanto, não podemos ignorar que muitos deles chegam à universidade preparados para resolver problemas complexos de matemática, física, biologia ou engenharia, mas completamente despreparados para responder a uma pergunta muito mais fundamental: a verdade existe?

Pela primeira vez, muitos são confrontados diariamente por discursos que afirmam que toda verdade é uma construção social, que toda moralidade é apenas uma convenção histórica, que toda religião constitui apenas uma narrativa cultural e que não existe qualquer fundamento objetivo para distinguir entre verdade e erro. O problema é que essas afirmações costumam ser apresentadas como conclusões científicas, quando, na realidade, repousam sobre pressupostos filosóficos que também precisam ser analisados, questionados e debatidos.

Talvez um dos maiores desafios da igreja contemporânea seja justamente este: formar jovens que não apenas saibam no que creem, mas também compreendam por que é racional crer. Precisamos preparar uma geração que ame a Deus não apenas com o coração, mas também com toda a mente; jovens capazes de entrar na universidade sem medo das perguntas, porque aprenderam que a fé cristã jamais precisou fugir da investigação honesta. Pelo contrário. Desde o nascimento da ciência moderna, foi justamente a convicção de que existe uma ordem racional criada por Deus que motivou inúmeros cientistas a investigar o universo.

É exatamente por isso que encontros como este, promovidos pelo TDI Brasil, possuem uma relevância que vai muito além da academia. Eles contribuem para formar uma geração intelectualmente preparada para compreender que fé e razão não são adversárias. Quando a verdade é entendida como objetiva e a realidade como inteligível, ciência, filosofia e teologia deixam de disputar espaço e passam a cooperar na mesma busca pela compreensão da realidade.

Senão falarmos sobre a verdade outros falarão aos nossos filhos sobre a mentira, e continuaremos a ver crescer no meio dos nossos jovens a polarização, o tribalismo, a manipulação emocional, a propaganda e a engenharia ideológica. É assustador como George Orwell explorou magistralmente essas questões em seu livro 1984, ao compreender com profundidade algo que a filosofia da linguagem contemporânea também reconhece: alterar sistematicamente o vocabulário de uma cultura altera progressivamente sua estrutura de percepção do real [9]. E quando a verdade morre, sobra apenas poder. Essa talvez seja uma das maiores ameaças contemporâneas. Não apenas o erro. Mas a perda da própria categoria de verdade.

 

7. A PERSPECTIVA CRISTÃ DA VERDADE

 O cristianismo historicamente não destruiu a razão. Ele ajudou a fundamentá-la. A cosmovisão cristã afirma a realidade objetiva, a racionalidade, coerência do universo, valor da lógica e dignidade intelectual do ser humano. Porque o homem é visto como criado à imagem de Deus. Ou seja, um ser racional vivendo num cosmos racional. E então chegamos à afirmação de Cristo:

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Percebam, Cristo não trata a verdade como mera construção psicológica. Nem como ferramenta política. A verdade possui dimensão ontológica. Ela corresponde ao real. E o próprio Cristo vai ainda mais longe ao afirmar: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Aqui, verdade não é apenas proposição. É também revelação do próprio fundamento do ser.

  

CONCLUSÃO - A GRANDE QUESTÃO DO NOSSO TEMPO

 Caminhando para o encerramento, gostaria de retornar à imagem com a qual iniciamos nossa reflexão. Aquela figura desenhada no chão. Duas pessoas olhando para o mesmo símbolo. Uma afirmando “é um seis”, e  outra “é um nove”. Durante toda a palestra, deixei a pergunta em aberto: quem estava certo?  Talvez alguns tenham pensado: “ambos estavam certos”. Ou, “a verdade depende da perspectiva”. Mas agora permitam-me revelar algo importante. O símbolo nunca foi um número. Na realidade, tratava-se de um caramujo estilizado desenhado por uma criança para ser mostrada a um coleguinha. E isso muda completamente a discussão. Porque as interpretações eram sinceras, mas a sinceridade não transformava automaticamente interpretação em verdade. As perspectivas eram limitadas, mas a limitação epistemológica não equivale à inexistência ontológica. O símbolo possuía um significado real independentemente da leitura dos observadores. E talvez esse seja precisamente um dos maiores problemas da cultura contemporânea. Confundimos: limitação epistemológica, com inexistência ontológica; interpretação parcial, com ausência de verdade. Mas o fato de seres humanos interpretarem imperfeitamente a realidade não significa que a realidade deixou de existir. Pelo contrário, a própria possibilidade de erro pressupõe a existência de uma verdade objetiva da qual nos afastamos.

E aqui chegamos ao ponto central desta palestra: Negar a verdade objetiva não destrói apenas a religião. Destrói também: a ciência, a filosofia, a moral, o direito, o diálogo racional; e eventualmente a própria possibilidade de civilização. Porque toda investigação científica pressupõe que existe um universo inteligível. Toda busca filosófica pressupõe que existe algo verdadeiro a ser encontrado. Toda justiça pressupõe distinção entre fato e ficção. Sem verdade objetiva, resta apenas: vontade, poder, narrativa e manipulação.

Se fracassarmos em transmitir às próximas gerações a confiança de que a verdade existe e pode ser conhecida, não perderemos apenas um debate acadêmico. Perderemos homens e mulheres que, ao ingressarem nas universidades, deixarão de enxergar qualquer fundamento racional para a própria fé. A crise da verdade não permanecerá confinada às salas de filosofia; ela alcançará as famílias, as igrejas e, por fim, a própria civilização.

E talvez o maior desafio intelectual do século XXI não seja construir máquinas mais poderosas, tornar a economia mais estável; mas justamente recuperar a coragem de afirmar novamente algo que durante séculos foi considerado evidente: que existe uma realidade objetiva. Que ela pode ser conhecida, ainda que parcialmente. E que tanto a ciência quanto a fé cristã só existem porque a verdade não é uma ilusão psicológica, mas um aspecto real da própria estrutura do ser. E talvez seja exatamente por isso que Cristo afirmou:

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

(João 8:32)

 

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 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

·  AQUINO, Tomás de. Questões disputadas sobre a verdade. Tradução Luiz Jean Lauand. São Paulo: Paulus, 2005.

·  ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002.

·  EINSTEIN, Albert. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute, v. 221, n. 3, p. 349-382, 1936.

·  FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

·  KEPLER, Johannes. Harmonies of the World, 1619.

·  KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Tradução Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

·  KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2013.

·  LEWIS, C. S. A abolição do homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

·  LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

· LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Tradução Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

·  MCGRATH, Alister. Ciência e religião: Fundamentos para o diálogo. São Paulo: Thomas Nelson, 2020.

·  NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

·  ORWELL, George. 1984. Tradução Wilson Velloso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.

·  PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. New York: Oxford University Press, 2011.

·  POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2007.

·  SANTO AGOSTINHO. De libero arbitrio. Tradução Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995.

·  SCRUTON, Roger. A Cultura Moderna. Edições 70, 2021.

 

 

 NOTAS DE RODAPÉ 


[1] TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de veritate. q.1, a.1. Tradução inglesa em: AQUINAS, Thomas. Truth. Translated by Robert W. Mulligan. Chicago: Henry Regnery Company, 1952.

A Questão 1, Artigo 1 da obra Quaestiones disputatae de veritate, de Tomás de Aquino, aborda a famosa questão "O que é a verdade?". Nela, o autor investiga a relação transcendental entre o ser e o verdadeiro.

 [2] ARISTÓTELES. Metafísica. Livro IV, 1011b26: “Dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro.”

[3] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização e tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 12-14.

Foucault analisou criticamente as relações entre saber e poder.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos Póstumos. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Essa proposição é atribuída a Nietzsche a partir de seus fragmentos póstumos

 [5] PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. New York: Oxford University Press, 2011, p. 307-350.

[6] EINSTEIN, Albert. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute, v. 221, n. 3, 1936.

 [7] A expressão é tradicionalmente associada à compreensão teísta de Johannes Kepler acerca da racionalidade do cosmos e da vocação científica. Ver: KEPLER, Johannes. Harmonices Mundi (1619); KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Tradução Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

 [8] BÍBLIA SAGRADA. João 1.1. O termo grego Logos possui amplo campo semântico, incluindo razão, palavra, princípio racional e inteligibilidade.

[9] O conceito está especialmente presente em 1984 principalmente nas seções sobre: Novilíngua; duplipensar (doublethink); controle histórico; reformulação semântica.