segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

RICARDO MARQUES - PROFUNDAMENTE HUMANO

 


Kelson Mota T. Oliveira
“Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória.” (Sl 73:24)


 Dia doze de dezembro faleceu, após dois anos de intensa luta contra um câncer, o professor Ricardo Benevides Marques. Uma pessoa singular em muitos aspectos. Pai amoroso, esposo dedicado, cristão piedoso, amigo leal, biólogo animado, paleontólogo zeloso, terapeuta excelente, professor empolgado, neurocientista questionador, neuroteólogo sério, debatedor inteligente, criacionista cuidadoso. Era também nas horas vagas palestrante, escritor, pregador, empreendedor, tocador de violão, contador de histórias, ombro amigo e sonhador. Conhecia mil e uma pessoas e era conhecido por dezenas de milhares de outras. Diversos adjetivos, muitas habilidades, várias competências, difícil defini-lo em poucos termos. Um verdadeiro e genuíno polímata, na correta acepção do termo. A meu ver sua maior característica, aquilo que o definia, era sua humanidade, a capacidade que tinha em rapidamente demonstrar empatia nas falhas dos irmãos, sempre oferecendo uma alternativa compreensível aos erros e acertos e nos lembrando de nossa condição humana limitada e pecadora, sem condescender com o erro. Era tímido quando tentávamos elogia-lo ou honra-lo. Quando louvado por ministrar uma excelente palestra era do seu feitio responder algo do gênero “Obrigado meu irmão, mas quem é expert em dar palestra aqui é você e não eu” e lançava um sorriso amigo. Seu primeiro impulso era sempre apreciar, estimar e realçar as qualidades do próximo, uma característica oposta aos catedráticos e luminares do saber que, no âmbito da academia, buscam em primeiro lugar o enaltecimento de suas conquistas e virtudes em detrimento das dos demais.

Conheci Ricardo em 2014, no já histórico 1º Congresso de Design Inteligente, sendo ele mesmo um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Design Inteligente. Sua palestra sobre mimetismo e camuflagem foi empolgante, deslumbrante e cheia de insights. Disse a mim mesmo ao fim da palestra: preciso conhecer esse homem. Já naquela época ele não era um desconhecido nas searas do diálogo de fé e ciência e muitos ali o tratavam com familiaridade pelo primeiro nome (fora palestrante por muitos anos nos congressos da Visão Nacional Para a Consciência Cristã). Em algum momento fomos apresentados e antes que eu falasse algo sobre seu seminário desatou a tecer comentários elogiosos sobre minha palestra, e estava empolgado e alegre com tudo o que estava acontecendo no congresso. Fiquei calado, e um tanto envergonhado, sem entender como alguém tão experiente, com uma palestra muito mais interessante e visual que a minha, pudesse estar tão animado e grato com uma apresentação árida que constava, em grande medida, de tabelas e gráficos sobre probabilidades termodinâmicas. Senti-me estranhamente acolhido.

Nos reencontramos anos depois no 2º TDI-Brasil e para minha surpresa ele ainda lembrava de mim e uma boa amizade se formou. Nos anos posteriores estivemos juntos palestrando em vários congressos, encontros e seminários, e batalhando pela difusão da teoria do design inteligente no Brasil. Por iniciativa, pedido e incentivo dele, em 2021, escrevi o projeto da 1ª Turma de Especialização Lato Sensu em Teoria do Design Inteligente, o qual foi aprovado e reconhecido pelo MEC – algo sem precedente no mundo! Um legado inestimável ao aprofundamento do diálogo entre fé e boa ciência que tributo exclusivamente a ele.

Na segunda metade de 2024 fui diagnosticado com um tumor de tamanho razoável no estômago, um câncer estromal, cujo prognóstico inicial envolvia a retirada completa do estômago e parte do fígado. Em um telefonema ao Ricardo contei-lhe de minha situação, sabedor que ele mesmo vinha travando sua luta pessoal contra o câncer. Imaginava que a conversa fosse girar sobre tratamento, resiliência, dores, e que ele pudesse me dar algum conselho sobre como enfrentar essa batalha. Mas Ricardo fez algumas poucas perguntas sobre o tumor, e desviou o rumo da conversa para o estado do meu coração em relação à penosa situação familiar em que me encontrava. Queria saber sobre minhas filhas, como estava as lutas na universidade e como estava lidando com a solidão e sentimento de abandono. De algum modo ele tinha a correta percepção que meu sofrimento real não se limitava ao tumor. Foi um refrigério poder desabafar sobre o que de fato doía. Marcamos de nos encontrar em fevereiro do ano seguinte na Consciência Cristã, para palestrarmos juntos mais uma vez e, quem sabe, nos animarmos mutuamente. E assim aconteceu.

Em fevereiro de 2025, durante o carnaval, nos encontramos em Campina Grande, na Paraíba. Minha cirurgia estava marcada para duas semanas após o evento e os rumos só o Senhor Deus sabia, o que me deixava inquieto e um tanto soturno. Ricardo, por outro lado, experimentava uma recidiva feroz do câncer e confidenciou-me que o prognóstico não era bom e não havia garantias que chegaria vivo ao meio do ano. Uma curiosa simetria, dois palestrantes de fé e ciência acometidos do mesmo mal, porém em polos diferentes. Eu, triste e cansado da vida com um câncer que, à primeira vista, era operável; ele tranquilo e em paz com um câncer em fase de metástase e prognóstico terminal. Por três dias palestramos para uma pequena multidão, e ao fim nos despedimos com um claro tom de definição. Poderia ser que eu fosse chamado à presença do Senhor nas semanas seguintes, em uma mesa de cirurgia, poderia ser que ele fosse chamado a qualquer momento por uma falência de órgãos. Nem uma coisa, nem outra, e três meses depois no encontramos em outro congresso, dessa vez da Comunhão Universitária Evangélica (COMUNIE), em Fortaleza, sua terra. Ele, bem mais magro e algo cansado, com dores que iam e vinham, e eu, por outro lado, mais saudável, devido a uma cirurgia miraculosamente bem-sucedida. Ainda assim, Ricardo palestrou com empolgação, como se nada estivesse acontecendo. Sempre amável com todos, sempre solícito, sempre com uma boa resposta, sempre animado com a obra do Senhor. Ao lado de sua amada esposa, Ana Carmem, me levou a um tour gastronômico na cidade e relatou-me a gravidade do seu quadro e tempo limitado que lhe restava, não com tristeza ou angústia, mas com a serenidade que só a paz de Cristo Jesus concede. Pude contar as novidades e as novas alegrias que vinham surgindo em minha vida, e juntos, nós três, nos alegramos com a bondade do Senhor. Ao fim do encontro, nos despedimos. Temi não vê-lo mais, e apesar do claro desgaste físico, novamente, pela graça de Deus, nos encontramos em São Paulo, em julho, para palestrarmos no 6º Congresso da Sociedade Brasileira de Design Inteligente. Foi um congresso memorável. Jantamos juntos, conversamos, batemos fotos, trocamos impressões sobre a possibilidade de ele estar mais uma vez na Consciência Cristã 2026, o apresentei à minha caçula, Naomi. Ao fim do congresso minha filha perguntou “Papis, o senhor acha que vai vê-lo mais uma vez?”. Minha resposta foi um brevíssimo e doído não, pois sabia que só o veria outra vez na glória. O abracei no último dia com uma oração simples no coração: Senhor, aquele a quem amas está doente e com dor. Até quando? Em nome de Jesus, amém. O Senhor respondeu esta oração e de muitos outros dos seus muitos servos, em dezembro, tirando as dores de Ricardo e o tomando para si.

A iminência da morte frequentemente conduz o indivíduo longe dos caminhos de Deus à paralisia e suspensão de suas atividades, ao arrependimento introspectivo sobre escolhas passadas ou à busca apressada por prazeres e experiências não vividas, um tipo de hedonismo tardio.  Não procedeu assim, Ricardo. Em seus últimos meses, mesmo tomado por fortes dores, optou por se fazer presente. Deu palestras, participou de debates, falou em podcasts, deu entrevistas, escreveu reflexões, ministrou pregações, procedeu a aconselhamentos, se cercou dos amigos, falou ao coração de seus familiares, usou de tempo precioso em companhia de sua esposa e seus dois filhos, que generosamente o apoiaram em suas atividades terminais. Todos nós queríamos um pouquinho dele, e ele se permitiu dar-se até ao limite do humanamente possível.

Como resumir a vida de Ricardo? Documentou descobertas arqueológicas no nordeste brasileiro, ensinou biologia a gerações de alunos, fundou o prestigiado Instituto Kenosis e o impressionante Laboratório de Estudo e Tratamento da Mente, do Cérebro e do Comportamento, participou da criação da TDI-Brasil, era uma voz respeitada no diálogo fé e ciência. Especialista, mestre, doutor, educador, terapeuta, conselheiro, cristão... Quando instados a dar uma definição resumida da vida de uma pessoa, costumamos fazê-lo observando suas realizações profissionais, seu círculo de amizades, o alcance de sua influência, o legado que deixa. Ricardo Marques reuniu em sua vida grandes realizações, muitíssimos amigos e admiradores, foi uma referência para incontáveis pessoas e certamente deixou um legado, tanto na esfera intelectual quanto cristã e familiar, que inegavelmente não será esquecido tão cedo. Mas quando penso em Ricardo não consigo defini-lo nesses termos. Como biólogo que era, talvez ele sorrisse de minha definição: Ricardo Marques era humano! De uma humanidade sincera, serena, cheia de compaixão, como raras vezes vi nessa vida. E certamente ele responderia, com toda simpatia, com aquele sorriso tranquilo e olhar meio que divisando o infinito “que isso meu irmão, você é que é humano, um exemplo de humanidade”.

 Em homenagem a ti, irmão amado, deixo as últimas palavras no leito de morte de outro doutor, o irmão Wakely, que certamente teria tua plena concordância.

 “Pela manhã, irão lhes perguntar: o irmão Wakely morreu? Morreu? Não! Digam que ele está melhor e vive para sempre. Eu conheço o velho barco. O Piloto me conhece muito bem. Ele me levará seguro ao porto. As brisas celestes já sopram no meu rosto. Não serei um estranho no Céu. Sou bem conhecido lá em cima. Como Bunyan, vejo uma enorme multidão com vestes brancas e anseio por estar com eles. É muito melhor partir e estar com Jesus. Quando forem a sepultura, não vão chorando. A morte não tem aguilhão. O túmulo não traz nenhum terror. A eternidade não possui escuridão. Cantem em meu funeral. Ouçam! Ouçam! Não estão escutando a canção? A vitória é nossa. Há grande regozijo no Céu. Abri-vos, portais dourados, e deixai meu carro passar”.

Nos veremos lá, naquele Dia, na glória, para cantarmos juntos a canção eterna na poderosa Presença do Cordeiro de Deus!



👉 Publicado também em 15/12/2025, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão de Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.


👉Acesse todo o conteúdo do blog completo e veja outros textos.  Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/

terça-feira, 11 de novembro de 2025

EU, OS DOIDOS E A LEI MURPHY

 


Kelson Mota T. de Oliveira

                                            "Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis este para fazer doidices diante de mim?" (1 Sm 21:15)


A vida, neste mundo decaído além de ser difícil, por vezes é cruelmente irônica. Há dias em que tudo dá errado. Há outros em que você, qual desastre ambulante, erra tudo, até a porta da sua sala. Há também aqueles dias em que as todas as coisas resultam totalmente certas, apenas para revelar, em toda sua glória, um erro fundamentalmente tosco ao fim do processo. Em todos os casos sempre de forma inesperada e desesperada. Como dizem alguns irmãos pentecostais “só Jesus na causa”. Nessas horas de aflitiva frustração, me vêm à mente a frase, parafraseada de uma observação do engenheiro aeroespacial americano Edward Murphy, “se algo pode dar errado, dará” – a famigerada Lei de Murphy. Em sua essência, essa “lei” advoga que se há alguma probabilidade de algo vir a falhar, certamente falhará em algum momento e, nesse caso, no pior momento de modo a causar o maior dano possível.

Obviamente que não há uma base física para essa lei – a qual nem mesmo pode ser chamada de lei –, mas sendo fiel a seu próprio postulado, mostra-se correta, quando deveria apresentar-se errada. Seu escopo transcende o senso comum e desafia as probabilidades. Se a geometria insiste em afirmar que uma reta é o menor caminho entre dois pontos, a lei de Murphy preconiza que um atalho é sempre a distância mais longa entre dois pontos. Se a teologia ensina que tudo é possível para o que tem fé e não tem medo de trabalhar duro, a lei de Murphy insiste que nada é impossível para quem não tem que fazer o trabalho. Se a medicina enfatiza que ciclismo é bom para saúde, a cínica lei afirma que não importa para onde você vai pedalar, será sempre morro acima e contra o vento. E se for ladeira abaixo, será sem freio, asfalto quente e você terá esquecido o capacete. Na percepção desta lei antinatural e contra-humana, mas totalmente pessoal e experimental, há sempre um quê de revanchismo, de golpe rasteiro, de murro nas costas.

Há pessoas que se sentem particularmente perseguidas pela lei de Murphy, e no recôndito da amargura e silêncio do coração juram, de pés juntos e mãos levantadas, que Deus e o universo conspiram contra seus flagrantes esforços para levar a cabo uma tarefa bem-sucedida. Quem de nós, em algum momento da vida, não terá experimentado algo desta síndrome de perseguição?

O exemplo mais corriqueiro da lei de Murphy é a observação amargurada da fila ao lado sempre andar mais rápido. E a aplicação mais simples é a relação tempo-necessidade, também conhecida como princípio da entrega. O desenrolar é simples: a entrega especial dos Correios alardeia que o prazo é de um a dois dias para chegar. Se a encomenda é um pacote promocional de banco te empurrando algum cartão de crédito (que você não quer), este será entregue na hora em que você estiver presente em casa, geralmente em seu momento de descanso. Entretanto, uma encomenda demorará mais de dez dias (úteis) no caso de você depender urgentemente da entrega (e nas três tentativas de entrega não haverá ninguém em casa para recebê-la, forçando-o a ir buscar na agência no horário de pico de uma sexta-feira, com uma fila quilométrica, na hora em que o ar-condicionado estiver quebrado). Uma variante deste exemplo reza que a probabilidade de uma fatia de pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete de sua casa, ou que um objeto é mais facilmente derrubável proporcionalmente ao seu valor. As versões mais cínicas indagam sobre a misteriosa atração de um prato de sopa por uma gravata limpa ou o motivo das coisas boas serem ilegais, imorais ou engordantes.

A aplicação da lei de Murphy que mais presencio diz respeito a meus alunos na universidade, em dia de prova:

- Professor, fui mal na prova. Tem como fazer uma substitutiva?

- Infelizmente não. O que aconteceu, não estudaste?

- Eu faltei exatamente a aula em que o senhor deu o assunto da primeira e da segunda questão.

- Não estudaste pelo livro?

- Eu estudei, mas foi um outro, que não tinha esse assunto.

- E as outras questões?

- Eu estudei e sabia tudo, mas na hora deu um branco e não consegui lembrar como resolvia. Estava nervoso, sabe como é...

- Por que nervoso?

- Justamente hoje o carro do meu pai deu problema e tive que vir de busão lotado. Cheguei em cima da hora e tive que vir correndo do ponto para cá, achando que já tinha perdido a hora. Entrei nervoso.

 Nessas horas, fico em silêncio, tentando discernir quanto há de verdade e de Murphy, por mais improvável que seja o depoimento.

 Nas bancas de avaliação a lei de Murphy é impiedosa. Em geral o obscuro artigo de uma desconhecida revista, no qual o aluno usou para compor parte de sua introdução, é exatamente o artigo que um dos membros da banca defenestrou em outro artigo com o intuito de mostrar a inutilidade do uso de certa metodologia. Murphy total. Já estive em banca em que um aluno de doutorado, por simples descuido, inverteu a condição inicial de um fluxograma crucial para sua tese e, por distração, defendeu brilhantemente sua apresentação baseado neste critério errado. Infelizmente um dos membros da banca enxergava mal e na arguição pediu para ler novamente o fluxograma, conforme estava na tese escrita, e não segundo a apresentação. O erro foi descoberto, o aluno humilhado em praça pública, e a brilhante arguição errada teve que ser novamente reapresentada, de forma trôpega e insegura. Após a defesa, ele nos confidenciou:

- Sabia que algo estava errado, pois na tese, com o critério correto não conseguia dissertar tão bem quanto defendi com o critério errado.

Enfim, coisas da lei de Murphy.

Há sempre uma variante da lei de Murphy sob medida para você. No meu caso são os, ãahh, como direi... doidos. Ou nesses tempos politicamente corretos, os mentalmente necessitados ou intelectualmente desassistidos. Não importa onde eu esteja, sempre alguma pessoa se aproximará para puxar conversa e, invariavelmente, será alguém mentalmente perturbado ou confuso. Seja em uma estação rodoviária, em um consultório médico, na fila do supermercado, na padaria, durante o culto, ou mesmo em um coffee-break após uma palestra, alguém sempre se aproximará e buscará travar um diálogo, do tipo:

- Oi, tudo bem?

- Eer..., hã, tudo – e já começo a suar, imaginando o que virá a seguir.

- Você gosta de manga? Já comeu manga com chocolate?

- Não, não comi...

- Como não? Você tem cara de quem gosta de manga com chocolate...

E por aí vai...

Exagero? Que nada, eis algumas situações reais:

***

Outro dia no supermercado, escolhendo um pote de manteiga, um simpático senhor ao lado me interpela:

- Ei, você já viu essa outra marca? Está baratíssima.

- É... é mesmo – dou um sorriso e levo a mão para pegar a marca que já tinha escolhido.

- Ei, amigo, você não vai levar essa manteiga?

- Não. Vou levar essa outra aqui, ó – e faço cara de quem já vai embora.

- Mas essa é mais cara! Leve essa! – me responde em tom ofendido e raivoso.

- Obrigado, vou levar essa outra. É uma novidade e quero experimentar – respondo com cuidado.

- Você é quem sabe! Você é quem sabe!! – responde meio alto, quase gritando, e sai pisando duro, fazendo cara feia. Algumas pessoas me olham como se eu tivesse culpa no cartório.

***

Certa feita, fui dar uma palestra em uma igreja em Sapucaia/RS, sobre fé e ciência. Mal comecei a falar, entra em cena um morador de rua e senta-se no primeiro banco. Nada de mais. Cinco minutos depois levantou a mão e perguntou uma bobagem qualquer. Respondi. Mais cinco minutos, outra mão levantada e outra pergunta qualquer. Logo vi que a história terminaria mal. Seguida à resposta, deitou no chão, à frente de todos, e como um bebê, ficou a brincar com as pernas e emitir ruídos de bebê. A palestra só continuou depois de sua saída aos berros do recinto, conduzido com mansidão pelos presbíteros. Tinha que ser comigo...

 ***

Em outra ocasião, em Porto Alegre, presente a um culto, o pregador (completamente fora de si) falou a maiores bobagens que já vi sair de um púlpito, a ponto de defender que Neemias foi o personagem mais misógino e cruel do Antigo Testamento e que seu livro deveria ser retirado da Bíblia. Ao terminar o discurso (porque pregação não era), em dedo em riste, escolheu a mim (logo a mim, entre tantos. Por que eu?) e convidou-me a tecer comentários sobre os pontos positivos de sua “brilhante exposição”. À minha educada recusa, respondeu que não sairia dali até que ouvisse minhas conclusões. Silêncio no templo, todos esperando meus comentários. E assim, com clima pesado, a contragosto, lá vou eu, de pé, no meio da igreja, enumerar todas as loucuras que o infeliz pronunciou e mostrar o porquê de serem loucuras. Quase terminou em confusão.

                                                                ***

1995, em Sampa, na estação de metrô da Sé, horário de pico. Entre milhares de pessoas observo um cidadão cortar caminho e parar exatamente na minha frente.

- Você já conhece a Deus?

- Sim – respondo com certa apreensão.

- Sabe seu nome? – os olhos estranhamente fixos nos meus.

- Sim – e começo a torcer para que o metrô chegue logo.

- Qual é? – e chega perto.

- No original hebraico ou em português? – tento confundi-lo para ganhar tempo. O metrô já se faz ouvir ao longe.

- Tanto faz. Qual é? – e se aproxima cada vez mais.

- Ãahh...Senhor? – arrisco.

- É Jeová!!! Jeová!!! Você não conhece a Jeová. Ele só ouve quem sabe o nome dele, quem o conhece! Você não conhece o nome dele, logo Ele não te conhece! Jeová, Jeová!

Entro rapidamente no metrô na esperança de não ser seguido. Tinha que ser justo comigo?

                                                               ***

Em outra ocasião, visitando o Pr. Reginaldo Cresêncio, em São Carlos/SP – testemunha viva dos efeitos desta variante da lei de Murphy em minha vida – e com pouquíssimo tempo para por o papo em dia, nos sentamos em uma cafeteria quase de frente para a praça XV. Mal as bebidas são postas na mesa, alguém se aproxima e senta em uma das cadeiras:

- Posso falar um pouquinho com vocês? – Sorriso largo e olhos vidrados. Rapidamente sei que a conversa não será rápida e o papo coisa de doido. Saio na frente e respondo sem dar chance ao meu amigo pastor, sempre cioso em ouvir os outros:

- Olha, não leva a mal, tenho pouquíssimo tempo com meu amigo e não dá para conversar agora.

- É rapidinho. – e me ignorando completamente, dirige sua atenção ao meu amigo – O senhor é pastor, não é mesmo? – O sorriso largo e olhos vidrados.

- Sou sim. O que gostaria de falar? – e lhe lanço um desesperado olhar que diz “ei, esse cara é um dos doidos que atraio, não percebeu? Cai fora!”

E nos próximos 25 minutos (só tínhamos 30), o homem tentará nos convencer que a seita religiosa que professa (e que nada tinha a ver com nossa realidade), sofreu divisão por causa da discordância com um dos ensinamentos de seu líder (como??), mas que ele está na metade correta (e daí...??), e que isso nos fazia irmãos em Cristo (não entendi exatamente como ele chegou a essa conclusão). Como a conversa (monólogo) não tinha fim, já aborrecido, intervi:

- Você concorda então que seu líder estava errado? Sim ou não? – e não deixo margem para elucubrações mentais.

- Ãaaah... sim.

- Então você rejeita seus ensinamentos, e abraça a Bíblia como única verdade. Sim ou não? – Sustento um olhar implacável.

- Ãaahh... não. Ele tem muita coisa boa. Você já leu o livro... – e antes que comece um novo monólogo, interrompo:

- Então, não somos irmãos. Dá licença, tenho apenas cinco minutinhos para terminar a conversa com meu irmão aqui.

- Então, vamos continuar depois a conversa, não é mesmo? – e me lança novo sorriso largo, acompanhado de olhos vidrados e esbugalhados.

Com um olhar cansado desisto da conversa. Só me resta tomar o restinho de minha bebida e refletir sobre todos os meus pecados.

                                                                ***

  Se somos provados por Deus, testados pelo mundo, atribulados pelas circunstâncias ou tentados pelo diabo, isso não é prova cabal que haja algum tipo de lei mesquinha que conspira contra nós. A percepção da lei de Murphy é, na grande maioria das vezes, fruto de uma concepção exagerada de nossa própria importância, aliada à nossa recusa interior em descansar na soberana providência do Senhor Deus, mesmo nas situações mais corriqueiras. Quanto menos peso damos a essas pequenas situações que testam nossa paciência e abalam nossos nervos, tanto menor serão seus efeitos em nossos corações. Mas confesso que se o Senhor puder me enviar menos ãah, como direi.. doidos, poderei ficar menos tenso toda vez que adentro em um ambiente novo. Nessas horas lembro das palavras de perplexidade do rei de Gate a seu servos: Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis este para fazer doidices diante de mim?

Nunca se sabe quando um vai aparecer...


Um imperturbável e sereno abraço a todos.


NEle e somente NEle...



👉Originalmente publicado em 14/08/2015, sob o título "Crônicas Quentes 22 – Os Doidos e a Lei Murphy". Republicado em em 17/06/2024, sob o mesmo título, no Jornal de Apoio Missionário Batista. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo neste Jornal.




👉Acesse todo o conteúdo do blog completo e veja outros textos. 


 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

POR QUE AFINAL EXISTE UM UNIVERSO? POR QUE EXISTE ALGO EM VEZ DE NADA?

 


Kelson Mota T. Oliveira

“pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28a)    

    No século 17 o matemático e filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, conhecido por desenvolver o cálculo infinitesimal, a contagem binária (entre outras tantas contribuições em física, engenharia, matemática, teologia e filosofia), pôs em evidência uma questão fundamental acerca do universo, que desafiava – e ainda desafia e ultrapassa – os limites da ciência: por que existe algo em vez de nada? À primeira vista parece uma pergunta desnecessária, uma vez que vivemos em um universo material que de fato existe e sequer podemos imaginar o que venha a ser o nada. Alguns diriam, é conversa para boi dormir, outros, pura perda de tempo. Mas indagar sobre a existência do universo não tem nada de bobo ou óbvio, e se configura em um enigma intransponível para as mentes materialistas. Uma versão mais moderna da pergunta de Leibnitz, que talvez nos traga uma melhor dimensão da envergadura do problema, é: há algo que explique a necessidade de existência do universo? E a resposta é simplesmente, não! Nenhuma lei física, nenhuma força fundamental, nenhuma imposição material, nenhum postulado científico, nenhum axioma filosófico, explica, decifra, explicita, resolve ou esclarece a necessidade de existência do universo. O universo existe, óbvio, mas sua existência não é fundamentalmente necessária. Poderia simplesmente não existir e, no entanto, existe. Essa é a dificuldade da questão proposta pelo matemático alemão.

    O universo, não sendo necessário, está na categoria das coisas contingentes, pois não há uma necessidade inerente para que exista. Convém esclarecer o termo, algo dito contingente é algo que existe, mas sua existência não é obrigatória e poderia simplesmente nunca ter existido. Depende de uma causa externa para existir. Uma vez que existimos em um universo onde o princípio da causalidade é um dos seus fundamentos, tudo o que existe dentro, incluindo o próprio universo, é contingente. Por outro lado, se algo não é contingente, então está na classe das coisas necessárias. Todas as coisas contingentes, em última instância, são oriundas de uma causa, ou “coisa” necessária. Uma “coisa” necessária é algo que existe por si mesmo e não poderia deixar de existir; não depende de nada externo, que não é causado, sem começo ou fim, que é absoluto. Nessa classe há apenas uma “coisa”, dentro do conhecimento humano, que se enquadra como algo necessário: Deus. Somente Deus, a Causa não causada, o Absoluto, existe por sua própria virtude. Alguns filósofos discutem se regras e abstrações matemáticas, poderiam ser tidas como coisas necessárias, uma vez que uma simples soma daria sempre um valor necessariamente consistente, (2+2 sempre será necessariamente igual a quatro, sem precisar de uma causa). Uma vez que todas as coisas contingentes vieram de uma causa necessária, é difícil imaginar que regras matemáticas, por seus próprios axiomas, causaram o universo e todas as coisas que existem dentro. Imagino que nenhum cientista honesto tomaria a matemática como a causa necessária da existência. Sendo assim sobra apenas Deus como única alternativa lógica para a questão de Leibnitz: o universo existe porque foi criado, causado, projetado, construído por Deus. Mas essa alternativa sequer é considerada pelos naturalistas e ateus de plantão. Como assim?

    Ora, uma vez que o universo é contingente e dado que o princípio da causalidade não pode ser negado, e se não há Deus na jogada, o que necessariamente causou sua existência? Só sobram ilações naturalistas sem lastro de evidências de um universo contingente sem uma causa necessária: flutuações quânticas (um palpite de mesa de bar), um universo cíclico sem início e fim (um dogma sussurrado com medo de ser confundido com religião oriental), um multiverso bolhoso e inflacionário (um conto psicodélico de ficção científica) e, por fim a cereja do bolo materialista, um universo que causou a si mesmo pelas suas próprias leis (uma aberração física e epistemológica). Em relação a esse último, como já escrevi em outro artigo, as leis da natureza não são responsáveis por produzir um determinado evento, pois não são a origem ou causa dos fenômenos. Elas simplesmente descrevem um padrão, o comportamento ao qual cada evento deve se conformar. A crença na autocontingência do universo é simplesmente uma fábula sem sentido, um tipo de pensamento mágico. John Lennox, famoso matemático de Cambridge, em seu livro (para lá de excelente) “Porque a ciência não consegue enterrar a Deus”, cita uma frase do físico naturalista Paul Davies, acerca de leis matemáticas terem causado a si mesmo e ao universo:

“Não é necessário invocar nada sobrenatural nas origens do Universo ou da vida. Jamais gostei da ideia de uma intervenção divina: para mim é muito mais inspirador crer que um conjunto de leis matemáticas possa ser tão engenhoso a ponto de fazer que todas as coisas existam”

    Lennox, de forma muito acertada, responde:

“É estranho que um cientista consagrado como Davies esteja disposto a decidir como as coisas começaram baseando-se naquilo de que ele gosta ou não gosta. Isso não é melhor do que alguém que diz: “Eu gosto de pensar que há fadas no fundo do meu jardim”. Além disso, ele está aqui atribuindo inteligência (se não personalidade) a um conjunto de leis matemáticas – e acreditando que elas poderiam ser inteligentes baseando-se no fato de que ele acha isso inspirador! Isso é pensamento fantasioso ou o quê?”

    Se não há uma causa necessária, nossas melhores explicações não passam de opinião rasteira e suposições frágeis, e nossas crenças se reduzem a um tipo de pensamento esperançoso vazio, que acolhe o absurdo na vã expectativa que signifique algo e se torne razoável.

    Vivemos em um imensurável universo espaço-temporal, baseado em matéria e energia, com informação embarcada em seres vivos complexos, sob leis físicas altamente ordenadas e espantosamente inteligíveis e no qual habitam seres morais inteligentes, capazes de questionar a necessidade da existência do próprio universo em que vivem. Somente uma Causa necessária, muito além de todas essas caraterísticas, é capaz de explicar a contingência do universo. Aristóteles, Tomás de Aquino e Leibniz chegaram à mesma conclusão de que deve haver um Ser necessário para explicar o conjunto dos entes contingentes, e esse Ser é o Senhor Deus, Aquele que É o que É, que não se define em nada contingente, apenas em seu Eterno Ser (Ex 3:14).

    O universo existe de forma contingente porque o SENHOR Deus o trouxe à existência. ELE é a causa necessária. E, no entanto, o SENHOR não foi movido por nenhuma necessidade a criar o universo. E nesse ponto voltamos à pergunta de Leibnitz, por que então existe o universo? Por que existe algo em vez de nada? E com uma pergunta agravante: se Deus não tinha qualquer necessidade de criar o universo, por que então Ele o criou? A resposta é óbvia: porque Ele quis criar. Criou não apenas devido aos seus atributos de grandeza como infinitude, imutabilidade, eternidade, onipotência, onisciência, entre outros, mas também pelos seus atributos de bondade como amor, pureza, misericórdia, benevolência, entre outros. O SENHOR Deus pelo seu eterno poder e bondade, criou o universo para si (Cl 1.16-17), um universo belo e bom. “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Gn 1.31a). Um cosmo onde suas misericórdias estão entremeadas na própria tessitura da realidade, da menor subpartícula até ao maior aglomerado de galáxias, da menor bactéria ao maior cetáceo, da pedra inanimada ao ser humano, como escreve o salmista, “O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145:9). O SENHOR graciosamente escolheu criar o universo, em lugar do nada. Por suas ternas misericórdias, mesmo quando o homem caiu no Éden, quando a humanidade se voltou para a mais completa devassidão nos tempos de Noé, quando seu povo no deserto rapidamente O trocou por um abjeto bezerro de ouro sob a sombra de Moisés, e até na maldita cruz, quando seu Filho, nosso Senhor, foi vergonhosamente morto, o Senhor resolveu recomeçar conosco em lugar de nos obliterar. Ele É assim, seu primeiro movimento é sempre na direção de criar, recomeçar, acolher, perdoar, salvar, renovar. Que Deus sumamente necessário às nossas almas!

    O universo é fruto de um ato livre, gracioso e amoroso do SENHOR Deus, não de forças externas, eventos cíclicos ou flutuações suspeitas. Sua bondade revela que tudo existe simplesmente porque Ele quis! Se o SENHOR Deus fosse tão somente poder, o universo seria fruto de forças cegas, sem exibir propósito e significado além da mera existência, mas Ele também é bondade e amor, e o resultado é um universo maravilhoso que existe para declarar a glória do seu Criador e proclamar as obras de suas mãos. Somos todos contingentes, e Ele, o SENHOR, é o único Necessário, e existimos nEle e por causa dEle, como frisou de forma magistral o apóstolo Paulo aos atenienses, “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28a)

A Ele toda glória, hoje e para sempre!


👉Originalmente publicado em 15/10/2025, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão original: Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.



👉Acesse todo o conteúdo do blog completo e veja outros textos. 



sábado, 11 de outubro de 2025

DEUS CRIOU UM UNIVERSO OU UM MULTIVERSO?



Kelson Mota T. Oliveira

               “O SENHOR fez a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria e com a sua inteligência estendeu os céus.” (Jr 10:12)

      
    Recentemente, trocando mensagens com o talentoso autor de ficção científica e físico Eduardo Yoshikazu Nishitani, fui indagado sobre a viabilidade de existir um multiverso e como isso se encaixaria em uma cosmovisão cristã. Sua reflexão sobre o tema despertou a suspeita de que outros cristãos pudessem ter dúvidas semelhantes, principalmente devido à quantidade crescente de filmes e séries, cuja a premissa é a existência de universos paralelos. O assunto é empolgante e intrigante, e, para alguns, a prova maior de que não é necessário um Deus para que o universo exista. Comecemos por essa provocação.

Qualquer cientista honesto, munido dos instrumentos apropriados e de posse de literatura científica séria, ao examinar minuciosamente as bases físicas que constituem nosso universo, experimentará uma crescente percepção de que as coisas são excessivamente ajustadas, demasiadamente perfeitas e extremamente concatenadas. Da interação do menor fóton com um campo magnético, passando pelo equilíbrio perfeito das forças fundamentais, pela maravilhosa periodicidade dos elementos químicos até à sofisticação impressionante do ser unicelular mais simples, o ajuste é de tal monta que esgota completamente todos os recursos probabilísticos do universo para eventos deixados ao simples acaso. Nenhuma singularidade cósmica destituída de direção ou propósito poderia originar este incrível e singular cosmos em que vivemos. Não há sorte o bastante para tal, mesmo considerando a vastidão quase infinita do universo. Se matematicamente o acaso não pode ter gerado este universo, a alternativa mais simples e racional aponta para um Deus todo-poderoso que o criou. Todavia, e se houvesse uma multiplicidade infinita de outros universos, coexistindo simultaneamente, gerados ao acaso? Nesse cenário um tanto bizarro, não seríamos os sortudos que teriam ganhado na loteria cósmica; nosso universo seria apenas um entre muitos possíveis. E é aqui que entra o conceito de mundos paralelos.

O termo multiverso tem recebido maior atenção da mídia nos últimos anos e refere-se à hipótese da existência de infinitos universos além deste. É um termo caro para alguns cosmólogos e ateus que o veem como solução definitiva para enterrar conceitos inquietantes como a existência de Deus, design inteligente e ajuste fino do universo. A linha de raciocínio é simples: se há infinitos universos, as probabilidades para que qualquer tipo de universo venha a existir são também infinitas, logo, é plausível que haja vários universos que apresentem todas as condições para a existência da vida, entre eles o nosso. Deus estaria fora da jogada, pois em um multiverso as condições para geração da vida seriam apenas questão de probabilidade. A ideia, à primeira vista, é simples e elegante, porém, levanta algumas questões. A primeira, obviamente, é se há um multiverso com embasamento científico. A segunda, que nos interessa, é se Deus criou um universo ou um multiverso. Comecemos com a primeira. 

A ideia de um multiverso é conhecida nos círculos acadêmicos como teoria de muitos mundos ou interpretação de muitos mundos (IMM) e advoga a existência de múltiplos universos que coexistem paralela e independentemente uns dos outros. Foi proposta, em 1957, por Hugh Everett III, em sua tese de doutorado em física, na Universidade de Princeton. O impulso inicial para essa teoria surgiu de uma característica dos sistemas quânticos denominada colapso da função de onda. Mas, exatamente o que vem a ser isso?

A teoria quântica, na interpretação tradicional de Copenhague, postula que as partículas quânticas, como elétrons e fótons, não têm propriedades definidas, como posição ou momento, até que sejam medidas ou observadas. Essas partículas podem ser descritas por uma função de onda que descreve o seu estado quântico e contém informações sobre a probabilidade de encontrar tais partículas em diferentes estados. Antes da medição, a função de onda pode apresentar uma sobreposição de diferentes estados simultaneamente. Assim, uma partícula quântica pode apresentar diferentes estados sobrepostos, cada qual com uma função de onda particular que o descreve – e até a partícula sofrer uma observação ou uma medida, todos os estados são possíveis de ocorrer. O colapso da função de onda ocorre no momento da medição, quando a partícula é observada. Nesse momento, a superposição de estados é substituída por um único estado definido, o qual adquire uma nuance clássica, e não mais quântica (na física clássica, somente um evento pode ser observado para um mesmo fenômeno, em um determinado momento). É a famosa história do gato de Schröedinger: enquanto a caixa não é aberta e observado o seu interior, o gato está em uma sobreposição de estados – morto e vivo, simultaneamente. Ao se abrir a caixa, há o colapso da função, e o gato apresentará apenas um estado: morto ou vivo. O problema que perturbava Everett era o sumiço dos demais estados, para os quais não haveria um motivo ou um operador matemático que os levassem à inexistência ou ao cancelamento. Na falta de uma interpretação matemática maior, Everett, então, propôs que todas as demais configurações da partícula passariam a existir em múltiplos mundos ou realidades paralelas. Se, neste universo, um fóton, ao passar por uma fenda, desviar-se para a esquerda, então, deverá existir um outro universo em o fóton se desviará para a direita. Assim, para resolver uma tecnicalidade que sequer é um consenso em mecânica quântica, Everett aventou em sua tese a existência de infinitos universos. Em termos mais simples: quando um evento quântico admite várias possibilidades de ocorrer, a IMM defende que todas essas possibilidades realmente acontecem, mas em universos separados.

Apesar de estar na moda, especialmente em filmes de super-heróis, a interpretação de muitos mundos não é, nem de longe, um consenso na comunidade científica. Mesmo Hugh Everett abandonou sua tese após concluí-la e passou a maior parte de sua carreira fora do campo da física teórica. Morreu em 1982 e não chegou a ver o aumento do interesse por sua teoria, especialmente por parte de expoentes da ficção científica e por seguimentos naturalistas. Sua sugestão bizarra apresenta grandes entraves a ser vencidos. Primeiro, porque é impossível testar experimentalmente a existência de outros universos, uma vez que estados quânticos diferentes não interferem entre si. Segundo, porque a ideia de que cada universo existente é fruto de uma linha divergente de outro universo elevaria ao absurdo a multiplicidade de universos ramificados a cada femtossegundo, a partir de um único universo. No lugar de aumentar as probabilidades de haver universos com condições de gerar vida, a multiplicidade de probabilidades ínfimas, quando elevadas ao infinito, resultariam em valores infinitesimais para universos viáveis. Terceiro, no colapso da função de onda não há nenhum indicador físico de criação ou ramificação de outra realidade. Por fim, há as graves questões filosóficas que se levantariam devido a uma multirrealidade multifacetada e o desafio quase intransponível de integrar a IMM com outras teorias físicas. Resumo da ópera: a existência de um multiverso é ainda menos factível que a geração espontânea ao acaso de um único universo finamente ajustado.

Mas o que é impossível matematicamente seria possível divinamente? Será possível que Deus tenha criado um multiverso, conforme a proposta de Hugh Everett III, no lugar de apenas um universo? Sendo justo, para um Ser capaz de criar um universo tão belo, perfeito e ajustado como o nosso, criar dois, três, quatro, infinitos outros universos não seria problema. De fato, para um Deus onipotente e onisciente, a capacidade de criar um multiverso certamente estaria dentro do escopo das possibilidades divinas. Poder não lhe falta. A questão não é se Ele poderia criar um multiverso, mas se Ele de fato criou. A resposta é, simplesmente, não! Abaixo, listo três razões para tanto, uma de ordem mais científica e duas de cunho mais teológico.

 

A. Um Deus onisciente leva necessariamente a um universo clássico

 Se cada universo é originário de uma ramificação anterior, devido ao colapso de estados quânticos, necessariamente, há um universo primordial. Se Deus é o criador, então, esse universo primordial está sob sua observação e intervenção. Como a mecânica quântica, firmemente defendida por Everett, assevera de forma categórica que o simples ato consciente de observar um estado quântico leva ao colapso da função de onda que descreve o sistema, o resultado é indiscutível: apenas um estado individual é prevalecente. Assim, esse universo primordial não se ramificaria, pois a “caixa do gato” estaria sempre aberta para o Senhor Deus. Não teríamos um multiverso de ramificações quânticas, e, sim, um universo de escolhas clássicas. Nas palavras de Eduardo Nishitani, “a realidade pode ser muitas possibilidades sobrepostas, mas apenas uma colapsa pelo olhar do Observador Onisciente, que é o Senhor Deus.” Se Deus não joga dados, afirmo que Ele também não aposta em universos possíveis.

 B. A existência de um multiverso é incompatível com a santidade de Deus

A criação de um multiverso, ainda que pudesse refletir a sabedoria e a onipotência de Deus ao criar um sistema complexo e interconectado que permitisse a coexistência de diversas realidades, é incompatível com sua Santidade. Se há infinitos universos, milhões e milhões deles finamente ajustados para manter a vida, e vida moral, é plausível supor que em todos eles, ou em sua maioria, a realidade do pecado tenha se instaurado. Nesse caso, multiplicaríamos por infinito o problema da realidade do mal na presença de um Deus Santo. Aquele que é tão puro de olhos que não pode ver o mal, nem contemplar a opressão (Hb 1:13), criaria uma estrutura que tornaria a presença do mal virtualmente infinita? Se em um único universo a presença do mal e do pecado tornou necessário o derramamento do precioso sangue do Filho de Deus para a redenção (1Pe 1:19-20), por lógica, redimir um multiverso implicaria um preço além. O que pode ser maior que o ultraje infinito sofrido pelo Verbo Eterno na cruz para remir uma única raça? A impossibilidade de resposta a essa questão implica a impossibilidade de existência de um multiverso.

C. A redenção obtida na cruz foi um evento cósmico único

A resposta anterior pode induzir alguns a pensar “Sim, não há nada superior e mais precioso que a morte de Cristo Jesus na cruz; mas Ele poderia ter se sacrificado em cada universo”. Embora seja um raciocínio interessante, entra em confronto direto com a revelação das Escrituras, quando afirma que “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos” (1 Pe 3:18) e que Ele “entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hb 9:12). Portanto, o sacrifício de Jesus foi um evento cósmico único, e não um fenômeno sujeito às ramificações de um multiverso quântico. Não há outros Cristos em universos paralelos, nem outras formas diferentes de redenção. A própria encarnação do Verbo é um evento singular, bem como a redenção obtida na cruz. A criação geme e suporta angústias pelo pecado que foi perpetrado neste mundo (Rm 8:19-23), não em outros mundos ou outras realidades. A singularidade da redenção eterna aponta necessariamente para um universo singular.

 

Se esses argumentos não são suficientes, há ainda um último, do tipo reductio ad absurdum. Consideremos, por um momento, que de fato há infinitos universos paralelos e que tudo o que é possível de ocorrer seja apenas uma questão de probabilidades, não sendo necessário Deus como um Designer Inteligente ou a Causa Primordial. Se é possível haver, por puro acaso, universos finamente ajustados à vida, contra todas as leis da química, física e biologia, então, são possíveis todas as outras coisas. Certamente, nesse caso, haverá um universo em que um velhinho barbudo, que dirige um trenó com renas voadoras, carregando um saco infindável de presentes, seja capaz de visitar todas as crianças boazinhas em uma única noite. Também haverá um universo onde super-heróis existem, ou fadas, ou dragões, ou jubisks, ou cores falantes, ou universos que jazem em trevas gravitacionais eternas. Haverá, até mesmo, um universo que foi criado por um Deus Todo-Poderoso (é possível, as chances são infinitas, lembram?), e, nesse caso, esse Deus, por sua onisciência, ao observar o multiverso, desde o seu início levará ao colapso a função de onda primordial, resultando em um universo clássico. Por absurdo, se houver um multiverso, ele terá uma origem clássica e terá um Deus como seu criador e sustentador.

Por mais cativante e fascinante que seja a ideia de um multiverso, sua utilidade prática se limita a fornecer elementos para narrativas de ficção científica. Ao contemplar a perfeição do cosmos, somos chamados a reconhecer a sabedoria e o poder do Senhor Deus manifestos em um único, vasto e singular universo, concebido com amor e propósito. Não precisamos de outros.

A Ele toda a glória!


👉Originalmente publicado em 11/12/2023, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão original: Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.


👌Correção e revisão atual (14/10/2025): Edison Mendes de Rosa


👉Acesse todo o conteúdo do blog completo e veja outros textos. 

 






quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Crônicas Crentes 04 - UMA ETERNIDADE EM UM GRÃO DE PIPOCA

 



10.09.2025

Se minha vida fosse um campo, com muita relva, árvores e pequenos animais saltitando, aqui e acolá, e estivesse sob meus exclusivos cuidados em meio às dores e labores dessa vida, não teria encontrado para ti um lugar para te estabeleceres.

Se minha vida fosse como o céu azul, com nuvens de todos os formatos, da mais branca e fofa até a mais roxa e marrenta, pronta a derramar suas águas, não imaginaria um dia avistar, em sua amplidão, uma que lembrasse o formato de teu rosto, a cor de tua pele e a suavidade de teu sorriso.

Se minha vida fosse um livro, com textos em estilos variados, sobre todos os momentos que vivi, tu serias apenas um pequeno poema inacabado, quase esquecido, nem mesmo serias uma crônica completa, entre tantas já escritas. Quem pensaria que um novo capítulo viria a ser escrito e que serias a protagonista e não eu?

Se minha vida fosse um sistema de equações diferenciais não lineares, com muitas variáveis acopladas, restrições rígidas e ausência de soluções explícitas, certamente não teria encontrado uma solução mais inusitada, porém elegante e consistente quanto tens te mostrado aos meus problemas.

Se minha vida fosse como um oceano, uma galáxia, um fractal, um jardim, serias nela, sempre e de forma surpreendente, uma pérola preciosa, uma brilhante estrela, um redemoinho coruscante, o mais belo lírio. Se minha vida fosse...

Mas minha vida não é um campo, um céu azul, um livro ou mesmo um sistema de equações. É apenas o que é, um dia após o outro, sempre dependente da graça de Deus. E em um desses dias, após tantos outros dias, tu apareceste, sem que eu tivesse qualquer lugar preparado para ti, ou previsto teu sorriso nas nuvens, ou lembrado do antigo poema nunca terminado, ou sequer vislumbrado em ti alguma solução para tantos dilemas.

Apareceste sem aviso, sem preparação, como uma ventania no fim da estação de seca que prenuncia as chuvas que virão após longo estio. Assim estava minha vida, uma terra estorricada, abandonada, castigada pela ausência de chuvas, sem verde, sem cor. Como foi boa a sua chegada. Voltei a sorrir – até sozinho! –, a sonhar – até acordado! –, a desejar – ainda havia desejos? –, a amar...

Quatro meses (dizem que são bodas de pipoca)! Tão pouco comparado a tantos anos que já vivemos e pela vida que construímos alhures, e paradoxalmente tão longo. A impressão é que estamos juntos há mais tempo, talvez todo o tempo de nossas vidas, apenas separados por um breve período, para realizar um trabalho, uma missão, e depois, cansados, voltar para o aconchego do lar. Conversas, jantares, bambuzais, vídeo-chamadas pela manhã, ligações antes de dormir, idas a hospitais, mãos dadas na igreja, saudade que nunca acaba. Uma eternidade em um grão de pipoca. Continuamos a rir, como antes, a se abrir sem temer a rejeição, a se preocupar, a nos encantar com os detalhes um do outro. Mesmo com o hiato do passar dos anos há continuidade, há cumplicidade, há companheirismo, há rugas de preocupação. Ainda amo seu sorriso (às vezes gaiato), seu olhar (por vezes maroto, por vezes profundo), seus abraços (sempre acolhedores), seu cuidado, seus beijos (sempre doces)... Sim, te amo!

Não sei o que o Senhor nos reserva, mas estou grato a Ele por ter te reencontrado ainda nessa vida, nesse momento de nossas vidas. Há tanto ainda a viver nos dias que virão. Que seja os melhores anos de nossas vidas.

Minha amada Mônica, minha flor do campo, feliz bodas de pipoca!

TAMm

 

Seu...

 

Kelson

 

ps: agora tens uma crônica para chamar de sua!


👉Acesse o blog completo e veja outros textos. Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/



segunda-feira, 18 de agosto de 2025

VASTIDÃO DO COSMOS, VIDA EXTRATERRESTRE E A INFINITUDE DE DEUS




Kelson Mota T. Oliveira


 “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; ” (Rm 1:20 )

 

        É ideia recorrente nos meios tidos como esclarecidos que há vida inteligente fora da terra e que, portanto, não estamos sozinhos no cosmos. Uma das principais razões aventadas é que o espaço é um lugar infinito, sendo razoável a existência de vida alhures. Quando se levanta a objeção que talvez haja vida somente na Terra, uma vez que as Escrituras não dão a entender que o Senhor criou outros seres em outros planetas, é comum ouvir a velha e manjada resposta: se um Deus criou todo o universo e só fez a vida na terra, para que toda essa vastidão? Se é assim, foi um baita desperdício de espaço. Alguns em tom de zombaria completam: o homem não precisa de todo esse espaço se só há vida na terra. Esse Deus não foi muito esperto. Independente se há ou não vida em outros planetas (essa é uma pergunta para outra ocasião), o problema com este tipo de posicionamento é que está fundamentado em duas noções erradas: primeiro se confunde imensidão com probabilidade e, segundo, que o tamanho do universo demanda uma utilidade em escala humana. Explico.

        No primeiro caso se imagina que se o universo é infinito, também são infinitas as possibilidades de qualquer coisa ocorrer, como no caso do aparecimento de vida aqui, ou nas vizinhanças de Proxima Centauri ou de Betelgeuse. De fato, o universo é em extremo vasto, talvez infinito (a ciência ainda não fechou essa questão), mas tamanho não é certeza de realidades possíveis. O quintal de casa, que mede 15x10m e provavelmente tenha uns 2,5 m de profundidade de solo cultivável, é virtualmente infinito para vírus nanométricos que porventura possam habitar no gramado ou solo, nem por isso significa que deverá existir algum vírus capaz de se comunicar em japonês ou forte o suficiente para levantar a minha casa. O máximo que surgiu no quintal ao acaso, para nossa surpresa, foi uma melancia (provavelmente de uma semente cuspida em uma tarde de calor). Semelhantemente, um vasto oceano, por maior que seja seu volume em termos de quantidade de moléculas de água, não me permite defender a premissa que, devido sua imensidão, há uma probabilidade não zero de existir uma molécula de água que seja formada por xenônio no lugar de oxigênio. Nunca aparecerá esta molécula. Simplesmente amplidão não é garantia que toda e qualquer coisa poderá existir em algum lugar. Quem pensa assim desconhece as bases mais elementares de probabilidade.

        No segundo caso há a falsa correlação entre tamanho e utilidade (notem que não estou me referindo a propósito e sim a utilidade). O raciocínio é simples e rasteiro: se o universo é imenso, logo é obrigatório haver vida em muitos lugares do cosmo; se não houver não há sentido prático na imensidão do espaço. Quem melhor defendeu essa falsa correlação foi Carl Sagan em seu romance de ficção científica “Contato” (1985). Em determinado momento da trama, a personagem, Ellie Arroway, uma cientista atéia (um avatar do próprio Segan), ao discutir a possibilidade da existência de vida apenas na Terra, provoca os céticos e os cristãos ao afirmar: “O universo é um lugar bem grande. Se existir somente nós, parece um terrível desperdício de espaço!”. De lá para cá, muitos utilizaram essa frase como prova “auto evidente” da existência de extraterrestes e, ao mesmo tempo, da inexistência de Deus. Cabe notar que essa concepção não está ligada ao conceito de propósito do universo, pois indicaria um sentido subjacente à vida (e com isso a possibilidade da existência de um Deus), mas uma percepção humana de utilidade (se tem água, logo tem algum ser que possa beber; se é grande então haverá muita gente para caber dentro, etc). A frase de Segan não é uma evidência científica, sequer é uma afirmação da ciência, apenas uma opinião pessoal (aliás, muitas declarações de cientistas não são científicas e jamais passariam pelo crivo da ciência). Voltando à ilustração do quintal de minha casa, este é uma faixa de grama de 15x10m (atualmente um pouco descuidada), com uma pequena jabuticabeira na lateral direita, perto do muro, o que cria uma bela vista da varanda gourmet da casa. É pergunta recorrente entre os que nos visitam à primeira vez: por que você não constrói uma piscina, ou uma pequena quadra de vôlei ou uma edícula? Tanto espaço sem uso…”. E meneiam sutilmente a cabeça lamentando o desperdício daquele espaço. O que é isso? É tendência humana em demandar utilidade para qualquer coisa que se mostre um desperdício em relação às suas aspirações pessoais. De forma semelhante, Segan, assim como tantos outros ateus, varre para baixo do tapete do absurdo existencial qualquer possibilidade de um sentido maior no esquema das coisas apenas se algo lhes parece sem um uso imediato. “Que utilidade teria tanto espaço, se há vida em um único lugar?” é um arremedo de silogismo falacioso utilitarista, cuja premissa, em lugar de conduzir a uma conclusão lógica, entroniza uma opinião rasteira. Não lembro de alguém já ter perguntado: qual o propósito de não teres construído algo nesse belo gramado?

        Mas sejamos justos com os céticos, estima-se que o universo visível tenha um diâmetro em torno de 93 bilhões de anos‑luz  - 883 quatrilhões de quilômetros! Um vasto quintal onde existe desde as partículas subatômicas até imensas estruturas como galáxias e aglomerados de galáxias. Nesse contexto é legítimo pensar que a existência de apenas uma só espécie racional seria, no mínimo, extravagante. Contudo, à luz da fé em um Deus que criou todas as coisas com inteligência, sabedoria e poder, a amplidão do espaço não revela descuido, mas grandeza; não denuncia vazio, mas advoga propósito. A contemplação da imensidão do universo revela tanto nossa pequenez quanto a grandeza do Criador. “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres, e o filho do homem, que o visites?” (Sl 8.3-4) é o pensamento e o sentimento do Rei Davi. Se ontem Davi estremecia só em contemplar a magnificência do céu estrelado em relação à finitude humana, como não estremecer ainda mais hoje que sabemos que entre um próton (10-15m) e o superaglomerado Laniaekea (≈10²⁴ m) há quase quarenta ordens de magnitude? Como não ficar perplexo ante o fato que dentro de nosso sol, em termos de volume, cabe tranquilamente um milhão trezentos e vinte um mil planetas Terra? O Sol é grande e brilhante? É, e o apóstolo Paulo dois mil anos atrás já afirmava ousadamente que até entre estrela e estrela há diferença de esplendor (1 Co 15.41). Se isso já nos traria espanto na época dos apóstolos, o que dizer de hoje uma vez que sabemos que cabem, em termos de volume, no interior na estrela VY Canis Majoris, entre 3 e 8 bilhões de Sóis (!!)? O universo é um oceano estrelas, mas nessa comparação as estrelas não compõem a água, são apenas como pequenos agrupamentos aqui e ali de plânctons. O oceano é de vazios, com bolhas nucleares e pequeninas ilhas de matéria dispersas, regulado delicadamente por forças em um ajuste ultrafino além de toda escala de compreensão científica. A física descreve essas forças, mas não as cria. Nossa ciência as mede, mas não explica o porquê de as constantes de força terem os valores que têm. O acaso não é, e nunca será, suficiente para explicar essa orquestra universal. Como li outro dia em para-choque de caminhão, e que se aplica perfeitamente à existência do cosmos, “nunca foi sorte, sempre foi Deus”.

        Sim, o universo é grande, amplo, talvez até infinito em termos dimensionais, mas para que tanto espaço? O Senhor precisava criá-lo deste tamanho para fazer habitar apenas a raça humana? Perguntas legítimas, mas a resposta acertada só pode ser dada mediante a pergunta correta. A pergunta nunca foi “para quê”, ou sua similar “qual a utilidade de”, e sim “para quem”. Sagan estava errado quando disse que seria um desperdício de espaço se houvesse apenas a raça humana. Em sua afirmação, ele conseguiu errar as duas perguntas básicas: primeiro ao conceber que existência pressupõe utilidade em escala de valores humanos e, segundo, por achar que esse universo existe para o homem e suas contrapartes extraterrestres. O universo não foi criado para o homem ou para qualquer outra criatura, terrestre, angelical ou alienígena, o universo foi criado exclusivamente para o Senhor Deus, por meio do seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. “Tudo foi criado por meio dEle e para Ele.  Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Cl 1.16b-17). Quando imaginamos que universo deva ter alguma utilidade pensamos sempre em termos de benefício próprio, algo que seja útil para nós, mas este não foi o motivo e nem o principal propósito. O universo não foi criado para a glória do homem, mas para a Glória do Senhor e temos o privilégio, dado e mantido por Ele, de habitarmos nesse lugar imensamente maravilhoso. Que é o homem para que o estimes a esse ponto, e o Filho do Homem que o visites?

        O universo criado espelha em reduzida escala alguns atributos incomunicáveis do seu Criador. A infinitude é um deles. Mas como compreender um Ser infinito quando nós mesmos somos finitos e habitamos um planetinha minúsculo comparado a outras grandes estruturas cósmicas, que por sua vez são pequenas comparadas à imensidão do cosmos? Como amar algo que não se pode abarcar nem ao menos com a mente? E é aqui, naquilo que parece inefável e inconcebível, que entra a beleza das coisas criadas pelo Altíssimo. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas (Rm 1.20a). Sim! Podemos ter um pequeno, porém verdadeiro e significativo, vislumbre da infinitude do Criador ao observar a imensidão do universo. Nesse oceano cósmico que parece sem fim, podemos reconhecer a Grandeza superlativa do Criador. O universo é grande do jeito que é para que seja claramente reconhecido, por meio de suas escalas superlativas, os atributos, o poder e a divindade do Senhor Deus. Quem rejeita essas verdades reveladas, negando o Criador, rejeita as evidências da ciência, cujo objeto de estudo são as coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; ” (Rm 1:20b).

        Termino, respondendo à pergunta nunca antes feita sobre meu quintal: não construí nada porque um gramado amplo, com uma pequena e charmosa jabuticabeira ao lado, é belo em si e me lembra que nem tudo necessita apresentar uma utilidade imediata às nossas demandas. Não precisa ter uma piscina ou uma quadra, ou churrasqueira, para validá-lo como um quintal. Em seu despojado vazio há propósito e beleza, e se surgir uma melancia, vez ou outra, também me alegrarei. O universo não demanda ETs para ser grande, ele é imenso porque Quem o fez é imensurável em sua infinitude.

        Àquele que mede as galáxias na concha da mão e, ainda assim, se inclina para ouvir nossa oração, sejam glória, honra e domínio para todo o sempre. 

Amém.


👉Originalmente publicado em 19/05/2025, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão de Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.

👉Acesse o blog completo e veja outros textos. Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/