Conheci Ricardo em
2014, no já histórico 1º Congresso de Design Inteligente, sendo ele mesmo um
dos fundadores da Sociedade Brasileira de Design Inteligente. Sua palestra
sobre mimetismo e camuflagem foi empolgante, deslumbrante e cheia de insights.
Disse a mim mesmo ao fim da palestra: preciso
conhecer esse homem. Já naquela época ele não era um desconhecido nas
searas do diálogo de fé e ciência e muitos ali o tratavam com familiaridade pelo
primeiro nome (fora palestrante por muitos anos nos congressos da Visão
Nacional Para a Consciência Cristã). Em algum momento fomos apresentados e
antes que eu falasse algo sobre seu seminário desatou a tecer comentários
elogiosos sobre minha palestra, e estava empolgado e alegre com tudo o que
estava acontecendo no congresso. Fiquei calado, e um tanto envergonhado, sem
entender como alguém tão experiente, com uma palestra muito mais interessante e
visual que a minha, pudesse estar tão animado e grato com uma apresentação árida
que constava, em grande medida, de tabelas e gráficos sobre probabilidades
termodinâmicas. Senti-me estranhamente acolhido.
Nos reencontramos anos
depois no 2º TDI-Brasil e para minha surpresa ele ainda lembrava de mim e uma
boa amizade se formou. Nos anos posteriores estivemos juntos palestrando em
vários congressos, encontros e seminários, e batalhando pela difusão da teoria
do design inteligente no Brasil. Por iniciativa, pedido e incentivo dele, em
2021, escrevi o projeto da 1ª Turma de Especialização Lato Sensu em Teoria do Design Inteligente, o qual foi aprovado e
reconhecido pelo MEC – algo sem precedente no mundo! Um legado inestimável ao
aprofundamento do diálogo entre fé e boa ciência que tributo exclusivamente a
ele.
Na segunda metade de
2024 fui diagnosticado com um tumor de tamanho razoável no estômago, um câncer
estromal, cujo prognóstico inicial envolvia a retirada completa do estômago e
parte do fígado. Em um telefonema ao Ricardo contei-lhe de minha situação, sabedor
que ele mesmo vinha travando sua luta pessoal contra o câncer. Imaginava que a
conversa fosse girar sobre tratamento, resiliência, dores, e que ele pudesse me
dar algum conselho sobre como enfrentar essa batalha. Mas Ricardo fez algumas poucas
perguntas sobre o tumor, e desviou o rumo da conversa para o estado do meu
coração em relação à penosa situação familiar em que me encontrava. Queria
saber sobre minhas filhas, como estava as lutas na universidade e como estava
lidando com a solidão e sentimento de abandono. De algum modo ele tinha a
correta percepção que meu sofrimento real não se limitava ao tumor. Foi um
refrigério poder desabafar sobre o que de fato doía. Marcamos de nos encontrar
em fevereiro do ano seguinte na Consciência Cristã, para palestrarmos juntos
mais uma vez e, quem sabe, nos animarmos mutuamente. E assim aconteceu.
Em fevereiro de 2025,
durante o carnaval, nos encontramos em Campina Grande, na Paraíba. Minha
cirurgia estava marcada para duas semanas após o evento e os rumos só o Senhor
Deus sabia, o que me deixava inquieto e um tanto soturno. Ricardo, por outro
lado, experimentava uma recidiva feroz do câncer e confidenciou-me que o
prognóstico não era bom e não havia garantias que chegaria vivo ao meio do ano.
Uma curiosa simetria, dois palestrantes de fé e ciência acometidos do mesmo
mal, porém em polos diferentes. Eu, triste e cansado da vida com um câncer que,
à primeira vista, era operável; ele tranquilo e em paz com um câncer em fase de
metástase e prognóstico terminal. Por três dias palestramos para uma pequena
multidão, e ao fim nos despedimos com um claro tom de definição. Poderia ser
que eu fosse chamado à presença do Senhor nas semanas seguintes, em uma mesa de
cirurgia, poderia ser que ele fosse chamado a qualquer momento por uma falência
de órgãos. Nem uma coisa, nem outra, e três meses depois no encontramos em
outro congresso, dessa vez da Comunhão Universitária Evangélica (COMUNIE), em
Fortaleza, sua terra. Ele, bem mais magro e algo cansado, com dores que iam e
vinham, e eu, por outro lado, mais saudável, devido a uma cirurgia
miraculosamente bem-sucedida. Ainda assim, Ricardo palestrou com empolgação,
como se nada estivesse acontecendo. Sempre amável com todos, sempre solícito,
sempre com uma boa resposta, sempre animado com a obra do Senhor. Ao lado de
sua amada esposa, Ana Carmem, me levou a um tour gastronômico na cidade e
relatou-me a gravidade do seu quadro e tempo limitado que lhe restava, não com
tristeza ou angústia, mas com a serenidade que só a paz de Cristo Jesus concede.
Pude contar as novidades e as novas alegrias que vinham surgindo em minha vida,
e juntos, nós três, nos alegramos com a bondade do Senhor. Ao fim do encontro,
nos despedimos. Temi não vê-lo mais, e apesar do claro desgaste físico,
novamente, pela graça de Deus, nos encontramos em São Paulo, em julho, para
palestrarmos no 6º Congresso da Sociedade Brasileira de Design Inteligente. Foi
um congresso memorável. Jantamos juntos, conversamos, batemos fotos, trocamos
impressões sobre a possibilidade de ele estar mais uma vez na Consciência
Cristã 2026, o apresentei à minha caçula, Naomi. Ao fim do congresso minha
filha perguntou “Papis, o senhor acha que
vai vê-lo mais uma vez?”. Minha resposta foi um brevíssimo e doído não,
pois sabia que só o veria outra vez na glória. O abracei no último dia com uma
oração simples no coração: Senhor, aquele
a quem amas está doente e com dor. Até quando? Em nome de Jesus, amém. O
Senhor respondeu esta oração e de muitos outros dos seus muitos servos, em
dezembro, tirando as dores de Ricardo e o tomando para si.
A iminência da morte
frequentemente conduz o indivíduo longe dos caminhos de Deus à paralisia e
suspensão de suas atividades, ao arrependimento introspectivo sobre escolhas
passadas ou à busca apressada por prazeres e experiências não vividas, um tipo
de hedonismo tardio. Não procedeu assim,
Ricardo. Em seus últimos meses, mesmo tomado por fortes dores, optou por se
fazer presente. Deu palestras, participou de debates, falou em podcasts, deu entrevistas,
escreveu reflexões, ministrou pregações, procedeu a aconselhamentos, se cercou
dos amigos, falou ao coração de seus familiares, usou de tempo precioso em
companhia de sua esposa e seus dois filhos, que generosamente o apoiaram em
suas atividades terminais. Todos nós queríamos um pouquinho dele, e ele se
permitiu dar-se até ao limite do humanamente possível.
Como resumir a vida de
Ricardo? Documentou descobertas arqueológicas no nordeste brasileiro, ensinou
biologia a gerações de alunos, fundou o prestigiado Instituto Kenosis e o
impressionante Laboratório de Estudo e Tratamento da Mente, do Cérebro e do
Comportamento, participou da criação da TDI-Brasil, era uma voz respeitada no
diálogo fé e ciência. Especialista, mestre, doutor, educador, terapeuta,
conselheiro, cristão... Quando instados a dar uma definição resumida da vida de
uma pessoa, costumamos fazê-lo observando suas realizações profissionais, seu
círculo de amizades, o alcance de sua influência, o legado que deixa. Ricardo
Marques reuniu em sua vida grandes realizações, muitíssimos amigos e
admiradores, foi uma referência para incontáveis pessoas e certamente deixou um
legado, tanto na esfera intelectual quanto cristã e familiar, que inegavelmente
não será esquecido tão cedo. Mas quando penso em Ricardo não consigo defini-lo
nesses termos. Como biólogo que era, talvez ele sorrisse de minha definição: Ricardo Marques era humano! De uma
humanidade sincera, serena, cheia de compaixão, como raras vezes vi nessa vida.
E certamente ele responderia, com toda simpatia, com aquele sorriso tranquilo e
olhar meio que divisando o infinito “que
isso meu irmão, você é que é humano, um exemplo de humanidade”.
Em homenagem a ti, irmão amado, deixo as
últimas palavras no leito de morte de outro doutor, o irmão Wakely, que
certamente teria tua plena concordância.
Nos veremos lá, naquele Dia, na glória, para cantarmos juntos a canção eterna na poderosa Presença do Cordeiro de Deus!
👉 Publicado também em 15/12/2025, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão de Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.




