quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Crônicas Crentes 05 – UM FLOCO DE NEVE EM FORMA DE GATO

 


Kelson Mota T Oliveira

“O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel.” (Pv 12:10)


   Já ouvi e li, algumas vezes, que somente a língua portuguesa tem um substantivo abstrato para a mistura de sentimentos relacionada à perda, falta, ausência, distância, nostalgia e amor. Este termo é a saudade, aquele sentimento complexo, difícil de definir, que fica depois que algo ou alguém se vai. Em outras línguas em geral esse sentimento, essa sensação, é traduzido simplesmente como a falta de alguém, quase um denotativo, esvaziado das nuances conotativas e das muitas camadas do termo em português. Como dizia a canção, a saudade é uma dor, mas não é dor de doer...

Outro dia, revisando algumas pastas antigas no computador, encontrei uma crônica de quinze anos atrás, nunca publicada, sobre um animalzinho que encontrei na universidade e que se tornou parte da história da família. Fui tomado de assalto por uma saudade doce, alegre e ao mesmo tempo doída.

Em 2010 morávamos em Porto Alegre, em bonito apartamento, andar alto, boa localização, bairro Floresta. Minhas filhas estavam então com cinco e sete anos, respectivamente, naquela idade em que as crianças sonham em ter um bichinho de estimação. Até poderíamos ter, mas criar animais em espaço limitado como o de um apartamento sempre foi para mim uma judiação. Mitca e Naomi viviam sonhando com o dia em que voltaríamos para Manaus, à nossa casa, e teríamos um bichinho. Uma queria um gatinho (desejo compartilhado por todos), outra um cachorrinho (compartilhado pela mãe), às vezes suspiravam juntas por um hamster (com alegre aprovação do pai) e a Naomi sempre perguntava por que não podíamos ter um hipopótamo ou crocodilo só seu (para desespero de pai e mãe, com uma careta de desaprovação de todos os demais). Mas uma coisa unia a todos quando o assunto era bichinho de estimação: Yuki. E é com saudade que relembro de sua estada conosco.

            Foi no final de 2001, nos corredores do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal do Amazonas, em uma tarde particularmente quente, que a vi a primeira vez. Estava voltando de uma reunião, cansado e estressado e passava pela frente do bloco da Geologia, no antigo Mini-campus, quando um miado fraquinho e um tanto desesperado chamou minha atenção. Sondando encontrei um gatinho, bem novinho, talvez com pouco mais de duas semanas de vida. Cheguei perto, chamei e para meu espanto veio cambaleante em minha direção, cheirou minha mão e se aninhou em meus dedos. Era uma fêmea, branquinha, olhos azuis bem fortes, com as pontas das orelhas, o nariz e as patas de um rosa fraquinho. Estava suja e com muita fome. Sem pensar muito a tomei, sob olhares dos alunos que passavam, e a levei para o gabinete em meu laboratório. Meus alunos de pós-graduação acharam estranho que eu, que até então numa tinha demonstrado qualquer predileção pelo reino animal, trouxesse um filhote de gato para o laboratório. Chamei os alunos e dei instruções claras para que a cuidassem até que voltasse. Deixei-a em minha mesa, atrás do meu laptop e fui dar minha aula na graduação.

            Na aula só pensava em duas coisas: na carinha linda da gatinha, que fazia meu interior pulsar de alegria e, na “carinha” que a esposa faria ao me ver chegar com um gato em casa, que fazia gelar meu coração, pois sabia de seu desagrado até então para com os felinos. Como bom marido (enrascado) pensei em várias desculpas (todas esfarrapadas), e robustos argumentos (nenhum convincente). Dizer que simplesmente me apaixonei pela gatinha era temerário, e argumentar que a bichinha esta faminta poderia me deixar sem jantar. Decidi improvisar na hora e fosse o que Deus quisesse.

            Ao buscar a esposa no trabalho disse-lhe, ao entrar na Palio Weekend, a primeira coisa que me veio à mente, com o melhor sorriso que pude ensaiar:

            - Não estamos sós no carro...

            - Como assim? Quem mais está aqui? – E olhando em volta nada viu

            - Olhe direito, é uma coisa bem fofinha.

            Com o cenho já franzido, olhando em vários lugares, de repente viu uma coisinha branca dormindo tranquilamente entre os dois assentos dianteiros. O tempo fechou!

            Chegamos em casa brigados. A esposa chateada, com certa justiça, por não ter sido consultada (na época nem tínhamos ainda celular) e eu aborrecido por não conseguir convencê-la da minha alegria em encontrar aquela gatinha. Por fim a discussão terminou com a solene promessa que eu cuidaria da gatinha, limparia seus excrementos e trataria de evitar que arranhasse os móveis e, principalmente, que se alisasse nas pernas da dona de casa. A gata seria de minha inteira responsabilidade e não dela. Temi que isso se tornasse um transtorno familiar e uma fonte de constantes desentendimentos, e cogitei em doá-la. Em toda a discussão a gatinha permaneceu qual um rolinho de massa de pão, deitada em uma caminha improvisada, prestando atenção na conversa. O pequeno animal tinha seus próprios planos para nós.

            Por ser branquinha como um floco de neve chamei-a de Yuki (neve em japonês). Tinha um bom apetite e no segundo dia já se aventurava cambaleante pela casa. Percebendo que a esposa a evitava de todos os modos tratou de conquistá-la de uma forma inusitada. Toda vez que ia lavar louça, Yuki vinha de mansinho e deitava nos seus pés. Como era bem filhotinha cabia completamente em cima dos pés da esposa, que ficava paralisada da cintura para baixo, sem coragem de chutá-la. Quando íamos assistir TV, Yuki procurava os pés da esposa para se aninhar. Quando ela não permitia ser cama para a gatinha, esta se aninhava na sua sandália e dormia próximo a seus pés. Sempre no dela, nunca na minha. Em quatro dias de marcação cerrada a odienta dos gatos já tinha capitulado a tanta meiguice e as duas eram unha e carne. Éramos, então, uma família de três.

            Com o passar dos dias Yuki desenvolveu um senso moleque de brincar conosco. Escondia-se atrás dos móveis e portas e ficava esperando nossa passagem. Quando passávamos pulava em nossos calcanhares, abraçava e não soltava. Por vezes era arrastada em nossas passadas, mas não largava. Sempre queria nos surpreender. Outras vezes corria de lado em nossa frente, de uma forma bem estranha para um gato, e morríamos de rir. Gostava de brincar de morder meu braço, sem machucar, e cheirar meu cabelo e axilas quando estava sentado no sofá. E sempre buscava nossos sapatos e sandálias para dormir, especialmente quando estávamos assistindo TV ou em alguma atividade parada.

            Quando Yuki já estava com quatro meses de idade notamos que o número de insetos em casa havia diminuído sensivelmente. Não sabíamos a causa, até que certa tarde, quando estávamos no quarto, Yuki nos mostrou, pulando na cama, toda orgulhosa a razão. Em sua boca havia uma grande barata, a qual trazia para nos mostrar. Tivemos uma forte reação de asco e a enxotamos dali. Nos dias seguintes a cena se repetiu várias vezes, às vezes era uma barata, outras um besouro, uma libélula, mariposas, um passarinho e uma vez até mesmo um grande morcego. O que nos estranhava era que sempre os trazia como se fossem oferendas.

            Pesquisamos sobre sua raça e em um artigo e descobrimos que era do tipo caçadora, e que por vezes esses felinos gostavam de mostrar o resultado de seu trabalho como que para obter aprovação pelos esforços e ajudar no sustento da família. Foi difícil convencê-la que não tínhamos interesse em ver o resultado final de seus préstimos, mas estávamos gratos pela limpeza.

Ela cresceu, ganhou uma linda coleira vermelha com um pingente de coração, no qual gravamos o seu nome. Vivemos muitas situações com Yuki, além das costumeiras traquinagens domésticas: sofreu dois atropelamentos de carro (que nos deixou algumas noites acordados), algumas fugas de casa (para curtir a vida boêmia) e um sumiço de durou uma semana (o que nos levou a espalhar cartazes pelo conjunto, quase invadir uma casa e muitas orações). Em 2003, já uma gata adulta, senhora de seu espaço e alvo inconteste dos afetos do lar, viria a experimentar algo inusitado: concorrência.

Em junho de 2003 nascia nossa primeira filha, Mitca, e o foco das atenções se desviou para uma nova criaturinha no lar. Sua reação nos primeiros dias foi de arredio e estranhamento. Como a Yuki gostava de brincar de lutinha e era apegada a nós dois, alguns amigos que frequentavam a casa expressaram preocupação de um possível ataque do felino, movido por ciúmes. Ouvimos duas ou três histórias ominosas de ataques de bebês por gatos, com muitos arranhões, mordidas e até como foco de alergias. Como resultado ficamos ressabiados, cheio de suspeitas, por um serzinho que nunca demonstrou inclinação para a violência. Com o decorrer das semanas expusemos Mitca à presença da Yuki sempre com nossa supervisão. Às vezes ela se aproximava e cheirava, outras vezes deitava pertinho, mas não era brincalhona, havia um claro tom de circunspecção e formalidade quando ambas estavam juntas. Quando Mimi aprendeu a sentar, Yuki decidiu que era hora de se aproximar, e por vezes a encontrávamos deitada quietinha nas pernas da Mitca, mesmo sendo alvo de arrancadas de pelo, puxadas de rabo e abraços apertados. Nunca mordeu ou arranhou. Era comum encontrarmos a Yuki deitada ao lado no berço da Mitca, qual uma esfinge, na hora da soneca da tarde, e lá ficava até sua dona ser retirada para mamar. A fiel gatinha não podia entrar no berço, pois este era coberto por um pesado mosquiteiro, mas se pudesse tenho certeza que dormiria todas as tardes abraçada no alvo de seus afetos felinos. Uma tarde, ao chegar da universidade, me deparei na porta do quarto com uma cena que gelou o coração: Mimi estava dormindo tranquilamente no berço e a Yuki estava sobre o mosquiteiro em um ataque feroz em direção à sua cabecinha, a poucos centímetros de seu rosto. Larguei a bolsa e corri em seu socorro. Em minha mente vinha imagens das conversas anteriores sobre como os gatos eram traiçoeiros e ciumentos, também imagens do que faria com a Yuki se a Mitca fosse ferida. Com brutalidade arranquei a gatinha de cima do mosquiteiro e quando ia lança-la longe, se agarrou no mosquiteiro mordendo com força. Com esforço, e sem qualquer cuidado, a separei do tecido e, para minha surpresa, percebi que estava com uma grande barata cascuda na boca. Lançou-me um olhar de feroz como que dizendo “estou fazendo o meu trabalho, me largue. Ninguém ameaça a bebê!”, e, sem largar a barata se desvencilhou de minhas mãos e levou o nojento ortóptero para fora de casa. Senti-me mal por fazer um julgamento precipitado daquele floquinho de neve.

Yuki ficou grudada com a Mitca até que esta aprendeu a andar, como seu brinquedo e guardiã. Em junho de 2004, uma semana após Mimi já andar com segurança, a gatinha simplesmente sumiu, como se tivesse cumprido sua missão. Procuramos em todos os lugares, imprimimos cartazes, perguntamos pela vizinhança, e após dois meses desistimos das buscas. Ela se foi, em seu lugar ficou uma saudade doída. “A saudade é uma dor, mas não é dor de doer, corta o coração da gente, faz a gente sofrer. Por quê?”*

                                                             ****

 As Escrituras nos ensinam a cuidar bem a vida de nossos animais “O justo atenta para a vida dos seus animais” (Pv 12:10), não porque eles sejam seres iluminados como alguns erroneamente insistem em propagar, ou um tipo de filho, como alardeiam os tristes pais de pets, mas tão somente porque não pode haver no coração humano espaço para a crueldade para com os animais. Se o Senhor cuida e alimenta até dos corvos, que eram considerados animais cerimonialmente impuros, não podemos fazer menos por aqueles que nos são de estimação. Eles aparecem em nossas vidas sem pedir licença, mudam nossos afetos, quebram um pouco da dureza de nossos corações e partem quando é chegada a hora, muitas vezes sem haver preparo ou despedidas. Fica a saudade e uma pergunta.

Há um céu para os animais? Verei outra vez aquela gatinha amada? Como seria bom revê-la e acariciar sua cabecinha mais uma vez... A Bíblia não nos dá nenhuma direção quanto ao destino eterno dos animais que amamos. A impressão é que suas curtas vidas não vão além do tempo desta terra, e nenhuma réstia sobrevive à eternidade. Mas ouso sonhar que algo destas criaturinhas sobrevive à morte, permanece e vai além desta vida. Em 1 Co 13, as Escrituras ensinam que os dons dados por Deus passarão, mas três deles permanecerão, e o maior deles é amor. Toda alegria, todo carinho, todo amor, desfrutados na companhia daquele pequeno animalzinho de alguma forma permanecerão, e serão sempre uma lembrança querida e saudosa que o Pai Celestial deu o privilégio de reter em minha mente e em meu coração. O amor é o que levaremos desta vida: o amor pelo Pai Eterno, demonstrado e derramado no amor pelos nossos queridos, pelo nosso próximo em necessidade, pelos nossos inimigos e até pelos nossos animais. Uma pequena parte da Yuki será levada para a eternidade, um memorial de gratidão na presença do Senhor. Esse é um pensamento deveras consolador. A saudade é uma dor, mas também um presente do Criador.

Ao Senhor meu louvor, pelo pequeno floco de neve em forma de gato que Ele pôs em minha vida.

NEle e somente nEle...

 

Kelson

 

Ps: esta crônica foi originalmente redigida em 06/07/2010 e redescoberta, revisada e finalizada somente em 02/2026

 * Música “Quase morri de amor”, de autoria de Everson Dias e Paulo Maia


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