terça-feira, 27 de maio de 2025

MORRA, BONNER, MORRA!

 

Kelson Mota T. Oliveira

“Cruel é o furor, e impetuosa, a ira, mas quem pode resistir à inveja?”(Pv 27:4 RA)

Caros amigos,


Assim como as estações se sucedem, desde que o mundo é mundo, é inevitável a passagem do tempo juntamente com seus efeitos deletérios. Infelizmente é um fato que nunca se apresenta só, vem sempre acompanhado de uma sutil e perturbadora sensação de inquietude e decadência, a qual rapidamente buscamos substituir por pensamentos mais leves e alegres – quando possível.

São vários os motivos que disparam essa sensação.  Pode ser uma olhadela honesta no espelho após uma noite mal dormida, ou então encontrar sem querer fotos esquecidas em um livro, usadas como marcadores, ou mesmo descobrir que seu restaurante, barbeiro ou banca de revistas, favorito fechou há alguns anos e ninguém te contou. A situação clássica ocorre ao encontrarmos um amigo de longa data, há muito sem ver, acompanhado de filhos já cursando o ensino médio ou mesmo universidade. Após uma breve e entrecortada conversa, cada segue seu caminho pensando exclusivamente em como o outro está envelhecido, gordo ou acabado, evitando lembrar que o mesmo vale para si, tentando deixar de lado a incômoda sensação que algo se esvai inexoravelmente por suas mãos e não pode ser reposto ou ter seu fluxo interrompido. No meu caso, o que disparou a sensação foi a imagem do apresentador William Bonner, em julho de 2014, ao assistir o telejornal, a qual me pegou de surpresa, tal qual um gol de virada feito nos últimos segundos da prorrogação de uma final da copa do mundo (considerando o momento histórico da malfadada copa do mundo em que vivia o Brasil à época). Irreversível em todos os seus efeitos.

Sei que o Bonner não é culpado, mas não pude conter o desejo de vê-lo reduzido a um amontoado infame e informe de partículas subatômicas, quase um miasma, seguido de dispará-las em direção ao buraco negro mais distante do universo para ser consumido lentamente até o fim dos tempos. Quem pode resistir à inveja, especialmente quando misturada a ciúmes? Talvez o leitor, a essa altura do campeonato, esteja se perguntando o que o apresentador fez para merecer tão inglória sina, dado o histórico de pai dedicado, marido sortudo (à época) e bom camarada que o jornalista ostentava até então. Poderia resumir a história respondendo que o simples fato dele existir seria motivo obvio e suficiente, e daria por encerrado a questão, mas certamente não satisfaria alguns e não mostraria a real dimensão da infâmia sofrida pela mera existência do apresentador. Tentarei explicar.

Como pai de duas filhas, à época uma recém-entrada nos onze anos e outra com nove, sempre fui alvo da total atenção de ambas. Para elas sempre fui o homem mais bonito e o pai mais charmoso entre todos os demais. Às vezes, quando elas ouviam que tal e tal celebridade era bonito, não raro se voltavam para mim e diziam:

- Eu acho o papai mais bonito!

E claro, me derretia todo por dentro, não por estar convencido de minha beleza ou charme, mas de saber que eu era o alvo inconteste de suas afeições e atenções. Corroborava com isso o fato de ainda viverem naquele estado em que as garotinhas acham todos os garotos feios e chatos e todos os homens adultos mais feios e mais chatos ainda, com uma única exceção: seu amado papai! Somente EU reinava soberano, como um príncipe encantado, em meio a hordas de ogros e brutamontes que pululavam dos brejos. Foi assim até àquela desventurada e desditosa semana de julho, poucos dias antes de meu aniversário (que viria a ocorrer no mesmo dia que o Brasil perdeu de 7x1 para... bem, vocês sabem)...

À procura de noticias sobre a seleção brasileira, vestidos à caráter, sintonizamos no raramente assistido Jornal Nacional. Entre uma notícia e outra observo (por que fui fazer essa observação?):

- Puxa, o William Bonner, pouco envelheceu. O cabelo está um pouco grisalho, mas de resto mudou muito pouco.

- Eu acho ele um homem bem bonito – retruca alguém com simplicidade.

Levei alguns segundos para processar a informação. Em seguida, fiquei paralisado ao som da voz. Não fazia sentido. Em que lugar de toda a criação aquele homem poderia ser tido como bonito para aquela pessoa? Logo ela? As palavras não poderiam ter sido ditas por aquela voz. Algo deveria estar muito errado na matriz – uma reconfiguração de última hora, talvez?

Encaro estupefato a criaturinha, que notara meu olhar de completa surpresa.

- Verdade papai, eu acho ele bonito.

- Mas Mimi!! Logo o Bonner? Um homem velho!!

- Mas é um homem bonito, papai – retruca com sinceridade.

Naomi, do alto de seus nove aninhos, ainda tentou me animar dizendo:

- Eu acho o papai mais bonito – e me dá um abraço. O que alivia um pouco a surpresa e a sensação que espreita meu coração.

- Também acho o papai bonito, mas acho esse apresentador também bem bonito.

Olho com um misto de ciúme, inveja e pontadas de sadismo para Bonner. Lembro das sábias palavras de Luis Fernando Veríssimo sobre a luta desigual que nós, homens comuns, travamos com algumas celebridades masculinas – “só nos resta a calúnia” (quem pode resistir à inveja?) – e disparo: 

- Ele tá velho, Mimi. Olha só, tá cheio de rugas nos olhos. O cabelo está esquisito e certamente tem mau hálito. Sem falar que a Fátima Bernardes até mudou de programa. Já não aguentava seu cecê.

- Que exagero papai – responde rindo Mitca, acompanhada aos risos soltos da digníssima – que pelo jeito devia concordar com a filha em gênero, número e grau.

Quedei-me emudecido, sob o peso das eras, como se tivesse levado traiçoeiramente uma súbita joelhada na terceira vértebra lombar, à semelhança de Neymar no jogo contra a Colômbia, estando incapaz de me erguer. A sensação que o tempo seguia inexoravelmente seu rumo mostrou-se nítida e concreta, e não havia nada que pudesse fazer. Perdi de 7x1 para o Bonner.

***

Minha filhinha mais velha estava crescendo. Mostrando-se mais madura e criteriosa, deixando de lado os gostos infantis. Por um lado, me alegrei, pois é natural que fosse assim. Por outro, me lembrou da brevidade da vida, das rugas e das limitações que a idade nos traz.

Espero que, no devido tempo, ela venha a encontrar aquele que considerará o homem mais bonito de todos e lhe entregue o seu coração, e quero poder ver este dia e me alegrar com o já amado casal. Mas, tinha que ser logo o William Bonner, o primeiro a ombrear comigo? Não poderia ser alguém um pouquinho mais feio, menos falante e com dentes menos perfeitos? Quando me lembro da situação, só me vem à mente as palavras imortais de ex-prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, em uma situação vexatória, a qual adapto livremente:

- Morra, Bonner, morra! Morra, morra!

Um enciumado abraço a todos,

nEle...

 

👉Texto publicado originalmente em 08/07/2014, sob o título “Crônicas Quentes 16 – Morra, Bonner, Morra!” 

👉Acesse o blog completo e veja outros textos. Clique aqui: https://pontosepontes.blogspot.com/

6 comentários:

Edson Jr disse...

7x1 😂😂

Anônimo disse...

1. Ele é mais charmoso
2. Os dentes são lindos
3. Articulado (esse eu daria empate)
4. Ele é rico
5. Elegante (tem um porte sofisticado)
6. Não sei se tem cc, mas se tiver deve ser perfumado 🤣🤣🤣🤣
7. O branco do olho deve ser mais brilhante 😁😁😁
X
1. Ex ateu. "A Minha graça te basta"

Pra seu consolo 7x1 pareceu ser mto relativo nesse caso. 😉

Anônimo disse...

Kkkkkkkkkk essa história foi demais, família divertida a sua, que Deus abençoe.

Anônimo disse...

🤣🤣🤣🤣

Anônimo disse...

😂😂😂

xxxxxxx disse...

🤠