segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Morte da Verdade e o Futuro da Civilização - Ciência, Fé e a Crise do Relativismo Contemporâneo

 

 

  Reginaldo Cresencio

Palestra na manhã de, 03 de julho de 2026,

No 7º Congresso TDI Brasil,

Universidade Mackenzie - SP.

(Versão em PDF)

 É uma grande honra participar deste 7º Encontro do TDI Brasil diante de uma seleta plateia, para refletirmos sobre uma das questões mais fundamentais da história da filosofia, da ciência e da própria civilização humana: a questão da verdade. Gostaria de começar nossa reflexão com uma imagem simples. Imaginem uma figura desenhada no chão. De um lado, uma pessoa olha para ela e afirma categoricamente:

— “Isso é claramente um número seis.”

Do lado oposto, outra pessoa observa o mesmo símbolo e responde com igual convicção:

— “Não. Isso é obviamente um número nove.”

Ambos estão sinceramente convencidos. Ambos observam exatamente o mesmo símbolo. Ambos acreditam possuir razão. Agora eu lhes pergunto: qual deles está falando a verdade? Talvez alguns digam: “depende do ponto de vista”. E, honestamente, talvez poucas frases consigam resumir tão bem o espírito intelectual do nosso tempo quanto essa.

Curiosamente, vivemos numa época que alcançou extraordinário avanço tecnológico e científico, mas que simultaneamente enfrenta uma profunda crise epistemológica. Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca produzimos tantos dados. Nunca desenvolvemos sistemas tão sofisticados de processamento cognitivo. E, ainda assim, talvez nunca tenhamos vivido tamanha confusão acerca do que é real, verdadeiro ou confiável.

Entramos numa época em que deepfakes desafiam nossa percepção; algoritmos moldam nossa interpretação do mundo; inteligência artificial produz simulações cada vez mais convincentes; e a própria distinção entre realidade e fabricação começa lentamente a se tornar nebulosa. Paradoxalmente, quanto mais avançamos tecnologicamente, mais urgentemente precisamos recuperar critérios objetivos de verdade. Porque sem verdade objetiva sequer conseguiremos distinguir entre informação e manipulação; descoberta e fabricação; ciência e propaganda. Mas aqui precisamos fazer uma distinção filosófica extremamente importante.

Uma coisa é reconhecer as limitações interpretativas do ser humano. Outra completamente diferente é concluir que, por causa dessas limitações, a realidade objetiva deixou de existir. A primeira afirmação pertence ao campo da epistemologia. A segunda é uma afirmação ontológica muito mais radical. E confundir essas duas coisas talvez tenha sido um dos erros mais profundos da cultura contemporânea. Porque o fato de interpretações divergirem não significa necessariamente que a verdade deixou de existir.



             Perspectiva limitada não equivale à inexistência do real. E isso é crucial. Uma época em que praticamente tudo foi transformado em perspectiva: a moralidade; identidade; significado; verdade; e até mesmo a própria realidade.

A ideia de verdade objetiva passou a ser vista com desconfiança. Uma civilização onde expressões como “essa é apenas a sua verdade”; “cada um possui sua própria verdade”; “verdade é uma construção social”;  “tudo depende do seu ponto de vista”, etc, tornaram-se praticamente axiomas culturais; deixaram de ser apenas slogans acadêmicos e passaram a moldar profundamente nossa cultura. De fato, vivemos uma crise epistemológica profunda.

O problema é que, quando uma sociedade deixa de acreditar na possibilidade da verdade objetiva, ela não destrói apenas a religião. Ela começa lentamente a destruir também: a moral; a justiça; o diálogo racional; a confiança pública; e até a própria ciência.

A grande pergunta do nosso tempo talvez não seja: “Qual é a verdade?” Mas algo ainda mais fundamental: “A verdade existe?”. Essa pergunta é civilizacional. Porque toda sociedade depende da pressuposição de que existe algo real a ser conhecido. Toda ciência pressupõe isso. Todo tribunal pressupõe isso, toda investigação, toda filosofia, toda comunicação pressupõe isso. Até mesmo quem nega a verdade objetiva normalmente espera que sua negação seja objetivamente verdadeira. E aqui começamos a perceber que talvez o relativismo contemporâneo possua um problema estrutural interno.

 

1. O QUE É VERDADE?

A pergunta: “A verdade existe?” É tão importante, porque talvez o futuro da ciência, da racionalidade e da própria civilização dependa da resposta que dermos a essa pergunta. Antes de perguntarmos se a verdade existe, precisamos perguntar: o que queremos dizer com “verdade”? Historicamente, uma das definições mais influentes da tradição filosófica clássica vem de Aristóteles e posteriormente desenvolvida por Tomás de Aquino:

Veritas est adequatio intellectus et rei[1]

(A verdade é a adequação do intelecto à realidade)

Ou seja: uma afirmação é verdadeira quando corresponde ao que de fato é. Essa é a chamada teoria correspondentista[2] da verdade.

Quando afirmo que a água entra em ebulição sob determinadas condições físicas”, essa afirmação é verdadeira não porque eu gosto dela, nem porque ela me conforta, mas porque corresponde à realidade observável. A verdade, portanto, não depende: de preferência; de emoção; de consenso; de maioria; de ideologia ou aprovação cultural. Ela depende da realidade. E isso meus caros, é fundamental. Porque a própria atividade científica só faz sentido se existir uma realidade independente da mente humana.

           Se não houver realidade objetiva, não existe descoberta científica. Existe apenas construção psicológica ou narrativa social. Mas nenhum cientista realmente trabalha assim. Um pesquisador não entra num laboratório pensando: “vamos descobrir nossa verdade subjetiva sobre química orgânica”.  Ele parte da convicção de que existe uma estrutura objetiva da realidade a ser compreendida. Ele entra no laboratório porque acredita; consciente ou inconscientemente que, existe uma estrutura objetiva da realidade esperando para ser descoberta. A ciência inteira repousa sobre essa pressuposição.

Mas aqui precisamos fazer outra distinção importante. A existência da verdade objetiva não implica onisciência humana. A ciência frequentemente trabalha com aproximações, refinamentos e revisões metodológicas. E corrigir interpretações não significa abandonar a ideia de realidade. Pelo contrário, a possibilidade de correção científica só existe porque pressupomos que há algo real em direção ao qual nossas teorias podem se aproximar progressivamente.

 

2. A REVOLTA CONTEMPORÂNEA CONTRA A VERDADE

 Mas então surge a pergunta: como chegamos ao atual cenário de relativização radical? Precisamos compreender brevemente o percurso intelectual da modernidade tardia.

A modernidade depositou profunda confiança na razão humana. Acreditava no progresso; na objetividade; na ciência; e na capacidade racional do homem. Contudo, as tragédias do século XX produziram um profundo desencanto: guerras mundiais; totalitarismos; genocídios; e recentemente a instrumentalização ideológica da ciência. A partir daí, cresce aquilo que chamamos de pós-modernidade. Autores como: Michel Foucault[3], Jacques Derrida e Jean-François Lyotard, passam a questionar profundamente a neutralidade; os discursos universais; as metanarrativas; as estruturas de poder. E é importante reconhecer que algumas dessas críticas possuíam elementos legítimos. De fato, as instituições podem manipular; os discursos podem oprimir; a ciência pode ser usada ideologicamente e seres humanos possuem vieses. Mas o problema começa quando a crítica à distorção da verdade evolui para a negação da própria verdade. E então entramos num território perigosíssimo.

Porque, se toda verdade é apenas construção de poder, então a própria afirmação: “toda verdade é construção de poder” também deveria ser apenas construção de poder. O relativismo começa então a colapsar sob o peso de sua própria lógica.

 

3. O PROBLEMA FILOSÓFICO DO RELATIVISMO

Aqui encontramos um dos pontos mais importantes desta reflexão. O relativismo radical é autorrefutante. Pensemos na frase atribuída ao conhecido filósofo Friedrich Nietzsche “Não há fatos, apenas interpretações.[4]” e façamos uma pergunta simples: essa afirmação é absolutamente verdadeira? Se for, então existe ao menos uma verdade absoluta. Se não for, então não temos motivo para acreditar nela.

O mesmo ocorre com afirmações como “toda verdade é relativa”, “não existe conhecimento objetivo” e “tudo é interpretação”. Essas frases tentam funcionar universalmente enquanto negam a possibilidade de universalidade. Isso gera uma contradição inevitável.

O filósofo cristão Alvin Plantinga[5] argumenta algo semelhante ao sustentar que, sob determinadas formas de naturalismo evolucionista, a probabilidade de confiabilidade de nossas faculdades cognitivas torna-se epistemicamente problemática, produzindo uma espécie de autoderrota racional do próprio sistema. E aqui percebemos algo importante: O relativismo parece intelectualmente sofisticado, até que tentamos viver consistentemente segundo ele. Porque ninguém realmente vive como relativista absoluto. Ninguém entra num avião esperando que a engenharia seja “socialmente construída”. Ninguém aceita um diagnóstico médico puramente subjetivo. Ninguém deseja que o cirurgião diga: “essa é apenas minha narrativa sobre anatomia”. Na prática, todos continuamos dependendo desesperadamente da existência da verdade objetiva.

 

4. A CIÊNCIA PRESSUPÕE UMA REALIDADE INTELIGÍVEL

E aqui chegamos talvez ao ponto central de tudo o que já foi dito.A ciência não prova a inteligibilidade do universo. Ela pressupõe essa inteligibilidade. Isso é extraordinário. A ciência depende de fundamentos filosóficos anteriores à própria investigação científica. Por exemplo, a ciência pressupõe:

·       que existe um mundo externo real;

·       que as leis da natureza possuem estabilidade;

·       que há coerência racional no cosmos;

·       que a lógica é válida;

·       que relações causais existem;

·       e que a mente humana consegue acessar parcialmente a realidade.

Mas a pergunta é: por quê? Por que o universo é inteligível? Por que a matemática descreve a realidade física com tamanha precisão? Por que estruturas abstratas concebidas na mente humana correspondem tão profundamente ao funcionamento do cosmos?

Albert Einstein disse certa vez “O mais incompreensível do universo é que ele seja compreensível[6]”. Essa frase é filosoficamente devastadora, porque revela um mistério profundo: a racionalidade do cosmos.

A ciência não nasce do caos epistemológico. Ela nasce da convicção de que existe ordem a ser descoberta. O cientista entra no laboratório porque acredita, ainda que implicitamente, que existe coerência, regularidade, inteligibilidade e estrutura. A ciência não cria inteligibilidade. Ela a encontra. E talvez isso nos obrigue a considerar uma hipótese metafísica mais profunda: talvez a inteligibilidade do cosmos não seja um acidente irracional. Talvez ela aponte para uma Fonte racional. Para um Designer Inteligente.

 

5. CRISTIANISMO E O NASCIMENTO DA CIÊNCIA

 Existe uma narrativa popular moderna de que ciência e cristianismo são inimigos históricos. Mas historicamente isso é extremamente simplista. A ciência moderna nasceu majoritariamente em solo teísta. Grandes nomes da revolução científica eram profundamente influenciados por pressupostos cristãos: Isaac Newton; Johannes Kepler; Robert Boyle; Michael Faraday. Eles acreditavam que o universo era racional, a natureza possuía ordem e as leis naturais refletiam uma mente ordenadora. Kepler compreendia a investigação científica como participação racional na ordem criada por Deus, ideia frequentemente resumida pela expressão “pensando os pensamentos de Deus depois dEle”[7]. Essa visão nasce diretamente da ideia cristã do Logos[8]. O Evangelho de João afirma: “No princípio era o Logos”.

No mundo grego, Logos não significava apenas “palavra”. Significava: razão, ordem, inteligibilidade e estrutura racional do cosmos. O cristianismo afirmava algo revolucionário, o universo não é caos irracional. Ele possui coerência porque procede de uma Inteligência racional. Isso fornece um fundamento metafísico extraordinariamente fértil para a ciência.

   

6. A MORTE DA VERDADE E O FUTURO DA CIVILIZAÇÃO

 Agora precisamos considerar as consequências culturais. O que acontece quando uma civilização abandona a verdade objetiva? A primeira consequência é ética. Sem verdade objetiva: a moralidade torna-se mera preferência; a justiça torna-se puro poder; a identidade torna-se fluidez absoluta; e a linguagem perde estabilidade. Então o debate racional começa a morrer. Porque o diálogo só existe quando acreditamos que existe algo verdadeiro a ser buscado conjuntamente. Caso contrário, resta apenas disputa de narrativas.

Talvez seja exatamente neste ponto que esta discussão deixa de ser apenas um debate filosófico e passa a tocar profundamente a vida de milhares de famílias cristãs. Como pastor, tenho acompanhado de perto uma preocupação crescente entre pais sinceros que amam seus filhos e investiram anos ensinando-lhes as Escrituras. O receio não é simplesmente vê-los ingressarem em uma boa universidade, afinal  a universidade deveria ser um dos lugares privilegiados da busca pelo conhecimento e pela verdade. A verdadeira preocupação é outra: será que eles permanecerão firmes na fé quando suas convicções forem submetidas ao intenso escrutínio intelectual do ambiente acadêmico?

Infelizmente, essa preocupação não é infundada. Há um número significativo de jovens que, justamente no período de transição para a universidade, afastam-se da igreja e, em muitos casos, abandonam completamente a fé cristã. Evidentemente, as razões são múltiplas e variam de pessoa para pessoa. Entretanto, não podemos ignorar que muitos deles chegam à universidade preparados para resolver problemas complexos de matemática, física, biologia ou engenharia, mas completamente despreparados para responder a uma pergunta muito mais fundamental: a verdade existe?

Pela primeira vez, muitos são confrontados diariamente por discursos que afirmam que toda verdade é uma construção social, que toda moralidade é apenas uma convenção histórica, que toda religião constitui apenas uma narrativa cultural e que não existe qualquer fundamento objetivo para distinguir entre verdade e erro. O problema é que essas afirmações costumam ser apresentadas como conclusões científicas, quando, na realidade, repousam sobre pressupostos filosóficos que também precisam ser analisados, questionados e debatidos.

Talvez um dos maiores desafios da igreja contemporânea seja justamente este: formar jovens que não apenas saibam no que creem, mas também compreendam por que é racional crer. Precisamos preparar uma geração que ame a Deus não apenas com o coração, mas também com toda a mente; jovens capazes de entrar na universidade sem medo das perguntas, porque aprenderam que a fé cristã jamais precisou fugir da investigação honesta. Pelo contrário. Desde o nascimento da ciência moderna, foi justamente a convicção de que existe uma ordem racional criada por Deus que motivou inúmeros cientistas a investigar o universo.

É exatamente por isso que encontros como este, promovidos pelo TDI Brasil, possuem uma relevância que vai muito além da academia. Eles contribuem para formar uma geração intelectualmente preparada para compreender que fé e razão não são adversárias. Quando a verdade é entendida como objetiva e a realidade como inteligível, ciência, filosofia e teologia deixam de disputar espaço e passam a cooperar na mesma busca pela compreensão da realidade.

Senão falarmos sobre a verdade outros falarão aos nossos filhos sobre a mentira, e continuaremos a ver crescer no meio dos nossos jovens a polarização, o tribalismo, a manipulação emocional, a propaganda e a engenharia ideológica. É assustador como George Orwell explorou magistralmente essas questões em seu livro 1984, ao compreender com profundidade algo que a filosofia da linguagem contemporânea também reconhece: alterar sistematicamente o vocabulário de uma cultura altera progressivamente sua estrutura de percepção do real [9]. E quando a verdade morre, sobra apenas poder. Essa talvez seja uma das maiores ameaças contemporâneas. Não apenas o erro. Mas a perda da própria categoria de verdade.

 

7. A PERSPECTIVA CRISTÃ DA VERDADE

 O cristianismo historicamente não destruiu a razão. Ele ajudou a fundamentá-la. A cosmovisão cristã afirma a realidade objetiva, a racionalidade, coerência do universo, valor da lógica e dignidade intelectual do ser humano. Porque o homem é visto como criado à imagem de Deus. Ou seja, um ser racional vivendo num cosmos racional. E então chegamos à afirmação de Cristo:

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Percebam, Cristo não trata a verdade como mera construção psicológica. Nem como ferramenta política. A verdade possui dimensão ontológica. Ela corresponde ao real. E o próprio Cristo vai ainda mais longe ao afirmar: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Aqui, verdade não é apenas proposição. É também revelação do próprio fundamento do ser.

  

CONCLUSÃO - A GRANDE QUESTÃO DO NOSSO TEMPO

 Caminhando para o encerramento, gostaria de retornar à imagem com a qual iniciamos nossa reflexão. Aquela figura desenhada no chão. Duas pessoas olhando para o mesmo símbolo. Uma afirmando “é um seis”, e  outra “é um nove”. Durante toda a palestra, deixei a pergunta em aberto: quem estava certo?  Talvez alguns tenham pensado: “ambos estavam certos”. Ou, “a verdade depende da perspectiva”. Mas agora permitam-me revelar algo importante. O símbolo nunca foi um número. Na realidade, tratava-se de um caramujo estilizado desenhado por uma criança para ser mostrada a um coleguinha. E isso muda completamente a discussão. Porque as interpretações eram sinceras, mas a sinceridade não transformava automaticamente interpretação em verdade. As perspectivas eram limitadas, mas a limitação epistemológica não equivale à inexistência ontológica. O símbolo possuía um significado real independentemente da leitura dos observadores. E talvez esse seja precisamente um dos maiores problemas da cultura contemporânea. Confundimos: limitação epistemológica, com inexistência ontológica; interpretação parcial, com ausência de verdade. Mas o fato de seres humanos interpretarem imperfeitamente a realidade não significa que a realidade deixou de existir. Pelo contrário, a própria possibilidade de erro pressupõe a existência de uma verdade objetiva da qual nos afastamos.

E aqui chegamos ao ponto central desta palestra: Negar a verdade objetiva não destrói apenas a religião. Destrói também: a ciência, a filosofia, a moral, o direito, o diálogo racional; e eventualmente a própria possibilidade de civilização. Porque toda investigação científica pressupõe que existe um universo inteligível. Toda busca filosófica pressupõe que existe algo verdadeiro a ser encontrado. Toda justiça pressupõe distinção entre fato e ficção. Sem verdade objetiva, resta apenas: vontade, poder, narrativa e manipulação.

Se fracassarmos em transmitir às próximas gerações a confiança de que a verdade existe e pode ser conhecida, não perderemos apenas um debate acadêmico. Perderemos homens e mulheres que, ao ingressarem nas universidades, deixarão de enxergar qualquer fundamento racional para a própria fé. A crise da verdade não permanecerá confinada às salas de filosofia; ela alcançará as famílias, as igrejas e, por fim, a própria civilização.

E talvez o maior desafio intelectual do século XXI não seja construir máquinas mais poderosas, tornar a economia mais estável; mas justamente recuperar a coragem de afirmar novamente algo que durante séculos foi considerado evidente: que existe uma realidade objetiva. Que ela pode ser conhecida, ainda que parcialmente. E que tanto a ciência quanto a fé cristã só existem porque a verdade não é uma ilusão psicológica, mas um aspecto real da própria estrutura do ser. E talvez seja exatamente por isso que Cristo afirmou:

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

(João 8:32)

 

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 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

·  AQUINO, Tomás de. Questões disputadas sobre a verdade. Tradução Luiz Jean Lauand. São Paulo: Paulus, 2005.

·  ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002.

·  EINSTEIN, Albert. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute, v. 221, n. 3, p. 349-382, 1936.

·  FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

·  KEPLER, Johannes. Harmonies of the World, 1619.

·  KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Tradução Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

·  KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2013.

·  LEWIS, C. S. A abolição do homem. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

·  LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

· LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Tradução Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

·  MCGRATH, Alister. Ciência e religião: Fundamentos para o diálogo. São Paulo: Thomas Nelson, 2020.

·  NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

·  ORWELL, George. 1984. Tradução Wilson Velloso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.

·  PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. New York: Oxford University Press, 2011.

·  POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. Tradução Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2007.

·  SANTO AGOSTINHO. De libero arbitrio. Tradução Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995.

·  SCRUTON, Roger. A Cultura Moderna. Edições 70, 2021.

 

 

 NOTAS DE RODAPÉ 


[1] TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de veritate. q.1, a.1. Tradução inglesa em: AQUINAS, Thomas. Truth. Translated by Robert W. Mulligan. Chicago: Henry Regnery Company, 1952.

A Questão 1, Artigo 1 da obra Quaestiones disputatae de veritate, de Tomás de Aquino, aborda a famosa questão "O que é a verdade?". Nela, o autor investiga a relação transcendental entre o ser e o verdadeiro.

 [2] ARISTÓTELES. Metafísica. Livro IV, 1011b26: “Dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro.”

[3] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização e tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 12-14.

Foucault analisou criticamente as relações entre saber e poder.

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos Póstumos. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Essa proposição é atribuída a Nietzsche a partir de seus fragmentos póstumos

 [5] PLANTINGA, Alvin. Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism. New York: Oxford University Press, 2011, p. 307-350.

[6] EINSTEIN, Albert. Physics and Reality. Journal of the Franklin Institute, v. 221, n. 3, 1936.

 [7] A expressão é tradicionalmente associada à compreensão teísta de Johannes Kepler acerca da racionalidade do cosmos e da vocação científica. Ver: KEPLER, Johannes. Harmonices Mundi (1619); KOYRÉ, Alexandre. Do mundo fechado ao universo infinito. Tradução Donaldson M. Garschagen. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

 [8] BÍBLIA SAGRADA. João 1.1. O termo grego Logos possui amplo campo semântico, incluindo razão, palavra, princípio racional e inteligibilidade.

[9] O conceito está especialmente presente em 1984 principalmente nas seções sobre: Novilíngua; duplipensar (doublethink); controle histórico; reformulação semântica.

 



Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente texto.Em uma época em que muitos tratam a verdade como algo relativo, recordar que ela é objetiva e tem seu fundamento em Cristo é um convite à humildade intelectual e à esperança.
Parabéns, Pr.Reginaldo!
Márcia Costa