
“O
justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é
cruel.” (Pv 12:10)
Outro dia, revisando
algumas pastas antigas no computador, encontrei uma crônica de quinze anos
atrás, nunca publicada, sobre um animalzinho que encontrei na universidade e
que se tornou parte da história da família. Fui tomado de assalto por uma
saudade doce, alegre e ao mesmo tempo doída.
Em 2010
morávamos em Porto Alegre, em bonito apartamento, andar alto, boa localização,
bairro Floresta. Minhas filhas estavam então com cinco e sete anos,
respectivamente, naquela idade em que as crianças sonham em ter um bichinho de
estimação. Até poderíamos ter, mas criar animais em espaço limitado como o de
um apartamento sempre foi para mim uma judiação. Mitca e Naomi viviam sonhando
com o dia em que voltaríamos para Manaus, à nossa casa, e teríamos um bichinho.
Uma queria um gatinho (desejo compartilhado por todos), outra um cachorrinho
(compartilhado pela mãe), às vezes suspiravam juntas por um hamster (com alegre
aprovação do pai) e a Naomi sempre perguntava por que não podíamos ter um
hipopótamo ou crocodilo só seu (para desespero de pai e mãe, com uma careta de desaprovação
de todos os demais). Mas uma coisa unia a todos quando o assunto era bichinho de
estimação: Yuki. E é com saudade que relembro de sua estada conosco.
Foi
no final de 2001, nos corredores do Instituto de Ciências Exatas da Universidade
Federal do Amazonas, em uma tarde particularmente quente, que a vi a primeira
vez. Estava voltando de uma reunião, cansado e estressado e passava pela frente
do bloco da Geologia, no antigo Mini-campus, quando um miado fraquinho e um
tanto desesperado chamou minha atenção. Sondando encontrei um gatinho, bem
novinho, talvez com pouco mais de duas semanas de vida. Cheguei perto, chamei e
para meu espanto veio cambaleante em minha direção, cheirou minha mão e se
aninhou em meus dedos. Era uma fêmea, branquinha, olhos azuis bem fortes, com
as pontas das orelhas, o nariz e as patas de um rosa fraquinho. Estava suja e
com muita fome. Sem pensar muito a tomei, sob olhares dos alunos que passavam,
e a levei para o gabinete em meu laboratório. Meus alunos de pós-graduação
acharam estranho que eu, que até então numa tinha demonstrado qualquer
predileção pelo reino animal, trouxesse um filhote de gato para o laboratório. Chamei
os alunos e dei instruções claras para que a cuidassem até que voltasse.
Deixei-a em minha mesa, atrás do meu laptop e fui dar minha aula na graduação.
Na
aula só pensava em duas coisas: na carinha linda da gatinha, que fazia meu
interior pulsar de alegria e, na “carinha” que a esposa faria ao me ver chegar
com um gato em casa, que fazia gelar meu coração, pois sabia de seu desagrado até
então para com os felinos. Como bom marido (enrascado) pensei em várias
desculpas (todas esfarrapadas), e robustos argumentos (nenhum convincente).
Dizer que simplesmente me apaixonei pela gatinha era temerário, e argumentar que
a bichinha esta faminta poderia me deixar sem jantar. Decidi improvisar na hora
e fosse o que Deus quisesse.
Ao
buscar a esposa no trabalho disse-lhe, ao entrar na Palio Weekend, a primeira
coisa que me veio à mente, com o melhor sorriso que pude ensaiar:
-
Não estamos sós no carro...
-
Como assim? Quem mais está aqui? – E olhando em volta nada viu
-
Olhe direito, é uma coisa bem fofinha.
Com
o cenho já franzido, olhando em vários lugares, de repente viu uma coisinha
branca dormindo tranquilamente entre os dois assentos dianteiros. O tempo
fechou!
Chegamos
em casa brigados. A esposa chateada, com certa justiça, por não ter sido
consultada (na época nem tínhamos ainda celular) e eu aborrecido por não
conseguir convencê-la da minha alegria em encontrar aquela gatinha. Por fim a
discussão terminou com a solene promessa que eu cuidaria da gatinha, limparia
seus excrementos e trataria de evitar que arranhasse os móveis e,
principalmente, que se alisasse nas pernas da dona de casa. A gata seria de minha
inteira responsabilidade e não dela. Temi que isso se tornasse um transtorno
familiar e uma fonte de constantes desentendimentos, e cogitei em doá-la. Em
toda a discussão a gatinha permaneceu qual um rolinho de massa de pão, deitada
em uma caminha improvisada, prestando atenção na conversa. O pequeno animal tinha
seus próprios planos para nós.
Por
ser branquinha como um floco de neve chamei-a de Yuki (neve em japonês). Tinha
um bom apetite e no segundo dia já se aventurava cambaleante pela casa.
Percebendo que a esposa a evitava de todos os modos tratou de conquistá-la de
uma forma inusitada. Toda vez que ia lavar louça, Yuki vinha de mansinho e
deitava nos seus pés. Como era bem filhotinha cabia completamente em cima dos
pés da esposa, que ficava paralisada da cintura para baixo, sem coragem de
chutá-la. Quando íamos assistir TV, Yuki procurava os pés da esposa para se
aninhar. Quando ela não permitia ser cama para a gatinha, esta se aninhava na sua
sandália e dormia próximo a seus pés. Sempre no dela, nunca na minha. Em quatro
dias de marcação cerrada a odienta dos gatos já tinha capitulado a tanta
meiguice e as duas eram unha e carne. Éramos, então, uma família de três.
Com
o passar dos dias Yuki desenvolveu um senso moleque de brincar conosco.
Escondia-se atrás dos móveis e portas e ficava esperando nossa passagem. Quando
passávamos pulava em nossos calcanhares, abraçava e não soltava. Por vezes era
arrastada em nossas passadas, mas não largava. Sempre queria nos surpreender.
Outras vezes corria de lado em nossa frente, de uma forma bem estranha para um
gato, e morríamos de rir. Gostava de brincar de morder meu braço, sem machucar,
e cheirar meu cabelo e axilas quando estava sentado no sofá. E sempre buscava
nossos sapatos e sandálias para dormir, especialmente quando estávamos
assistindo TV ou em alguma atividade parada.
Quando
Yuki já estava com quatro meses de idade notamos que o número de insetos em
casa havia diminuído sensivelmente. Não sabíamos a causa, até que certa tarde,
quando estávamos no quarto, Yuki nos mostrou, pulando na cama, toda orgulhosa a
razão. Em sua boca havia uma grande barata, a qual trazia para nos mostrar.
Tivemos uma forte reação de asco e a enxotamos dali. Nos dias seguintes a cena
se repetiu várias vezes, às vezes era uma barata, outras um besouro, uma
libélula, mariposas, um passarinho e uma vez até mesmo um grande morcego. O que
nos estranhava era que sempre os trazia como se fossem oferendas.
Pesquisamos
sobre sua raça e em um artigo e descobrimos que era do tipo caçadora, e que por
vezes esses felinos gostavam de mostrar o resultado de seu trabalho como que
para obter aprovação pelos esforços e ajudar no sustento da família. Foi
difícil convencê-la que não tínhamos interesse em ver o resultado final de seus
préstimos, mas estávamos gratos pela limpeza.
Ela cresceu,
ganhou uma linda coleira vermelha com um pingente de coração, no qual gravamos o
seu nome. Vivemos muitas situações com Yuki, além das costumeiras traquinagens
domésticas: sofreu dois atropelamentos de carro (que nos deixou algumas noites
acordados), algumas fugas de casa (para curtir a vida boêmia) e um sumiço de
durou uma semana (o que nos levou a espalhar cartazes pelo conjunto, quase
invadir uma casa e muitas orações). Em 2003, já uma gata adulta, senhora de seu
espaço e alvo inconteste dos afetos do lar, viria a experimentar algo
inusitado: concorrência.
Em junho de
2003 nascia nossa primeira filha, Mitca, e o foco das atenções se desviou para
uma nova criaturinha no lar. Sua reação nos primeiros dias foi de arredio e
estranhamento. Como a Yuki gostava de brincar de lutinha e era apegada a nós
dois, alguns amigos que frequentavam a casa expressaram preocupação de um
possível ataque do felino, movido por ciúmes. Ouvimos duas ou três histórias
ominosas de ataques de bebês por gatos, com muitos arranhões, mordidas e até como
foco de alergias. Como resultado ficamos ressabiados, cheio de suspeitas, por
um serzinho que nunca demonstrou inclinação para a violência. Com o decorrer
das semanas expusemos Mitca à presença da Yuki sempre com nossa supervisão. Às
vezes ela se aproximava e cheirava, outras vezes deitava pertinho, mas não era
brincalhona, havia um claro tom de circunspecção e formalidade quando ambas estavam
juntas. Quando Mimi aprendeu a sentar, Yuki decidiu que era hora de se
aproximar, e por vezes a encontrávamos deitada quietinha nas pernas da Mitca,
mesmo sendo alvo de arrancadas de pelo, puxadas de rabo e abraços apertados.
Nunca mordeu ou arranhou. Era comum encontrarmos a Yuki deitada ao lado no
berço da Mitca, qual uma esfinge, na hora da soneca da tarde, e lá ficava até
sua dona ser retirada para mamar. A fiel gatinha não podia entrar no berço,
pois este era coberto por um pesado mosquiteiro, mas se pudesse tenho certeza
que dormiria todas as tardes abraçada no alvo de seus afetos felinos. Uma
tarde, ao chegar da universidade, me deparei na porta do quarto com uma cena
que gelou o coração: Mimi estava dormindo tranquilamente no berço e a Yuki
estava sobre o mosquiteiro em um ataque feroz em direção à sua cabecinha, a
poucos centímetros de seu rosto. Larguei a bolsa e corri em seu socorro. Em
minha mente vinha imagens das conversas anteriores sobre como os gatos eram
traiçoeiros e ciumentos, também imagens do que faria com a Yuki se a Mitca
fosse ferida. Com brutalidade arranquei a gatinha de cima do mosquiteiro e
quando ia lança-la longe, se agarrou no mosquiteiro mordendo com força. Com
esforço, e sem qualquer cuidado, a separei do tecido e, para minha surpresa,
percebi que estava com uma grande barata cascuda na boca. Lançou-me um olhar de
feroz como que dizendo “estou fazendo o
meu trabalho, me largue. Ninguém ameaça a bebê!”, e, sem largar a barata se
desvencilhou de minhas mãos e levou o nojento ortóptero para fora de casa.
Senti-me mal por fazer um julgamento precipitado daquele floquinho de neve.
Yuki ficou
grudada com a Mitca até que esta aprendeu a andar, como seu brinquedo e
guardiã. Em junho de 2004, uma semana após Mimi já andar com segurança, a
gatinha simplesmente sumiu, como se tivesse cumprido sua missão. Procuramos em
todos os lugares, imprimimos cartazes, perguntamos pela vizinhança, e após dois
meses desistimos das buscas. Ela se foi, em seu lugar ficou uma saudade doída.
“A saudade é uma dor, mas não é dor de
doer, corta o coração da gente, faz a gente sofrer. Por quê?”*
****
Há um céu para
os animais? Verei outra vez aquela gatinha amada? Como seria bom revê-la e
acariciar sua cabecinha mais uma vez... A Bíblia não nos dá nenhuma direção
quanto ao destino eterno dos animais que amamos. A impressão é que suas curtas
vidas não vão além do tempo desta terra, e nenhuma réstia sobrevive à eternidade.
Mas ouso sonhar que algo destas criaturinhas sobrevive à morte, permanece e vai
além desta vida. Em 1 Co 13, as Escrituras ensinam que os dons dados por Deus
passarão, mas três deles permanecerão, e o maior deles é amor. Toda alegria, todo
carinho, todo amor, desfrutados na companhia daquele pequeno animalzinho de
alguma forma permanecerão, e serão sempre uma lembrança querida e saudosa que o
Pai Celestial deu o privilégio de reter em minha mente e em meu coração. O amor
é o que levaremos desta vida: o amor pelo Pai Eterno, demonstrado e derramado no
amor pelos nossos queridos, pelo nosso próximo em necessidade, pelos nossos
inimigos e até pelos nossos animais. Uma pequena parte da Yuki será levada para
a eternidade, um memorial de gratidão na presença do Senhor. Esse é um pensamento
deveras consolador. A saudade é uma dor, mas também um presente do Criador.
Ao Senhor meu
louvor, pelo pequeno floco de neve em forma de gato que Ele pôs em minha vida.
NEle e somente
nEle...
Kelson
Ps: esta
crônica foi originalmente redigida em 06/07/2010 e redescoberta, revisada e
finalizada somente em 02/2026
3 comentários:
Que crônica emocionante, Dr. Kelson!
Identifiquei-me bastante, pois tive alguns animais que também marcaram minha vida, minha infância...
Quem sabe o Senhor Jesus não nos surpreenderá colocando alguns deles diante de nós? Não podemos afirmar que sim, mas também não temos base para dizer que não. As criaturas são dele e ele faz o que quiser delas!
Por ora, fica a saudade!
Eu sei bem como é esse jeito de correr estranho dos gatos. Na hora em que brincam assim, levantam as costas e se movem de lado... parecendo macacos.
O meu gatinho Bilbo brincava de esconde-esconde comigo. Cada vez que a gente colocava a cabeça para olhar, ele estava mais perto, como se estivesse a nos caçar. rsrsrs
Me diverti lendo... grande abraço!
LÚCIA.
Belo e sensível registro, meu irmão Kelson. Essa crônica nos lembra que os Animais não são eternos, mas Deus usa até eles para nos ensinar amor, cuidado, responsabilidade e gratidão — e isso glorifica o Criador, não a criatura. E que o cuidado com os animais, como ensina Provérbios 12.10, não nasce de sentimentalismo, mas de um coração moldado pela graça, incapaz de conviver com a crueldade. Gostei especialmente do cuidado em reconhecer os limites da revelação bíblica quanto ao destino eterno dos animais, sem especulações, e em destacar que o que permanece não é a criatura, mas o amor que Deus produz em nós — amor que, como ensina 1 Coríntios 13, procede do Senhor e a Ele retorna.
Que nossas memórias, afetos e gratidão sejam sempre conduzidos à doxologia: ao Senhor seja o louvor, por tudo o que Ele usa, até as pequenas coisas, para nos tornar mais parecidos com Cristo diante dEle.
Texto muito espirituoso e bonito, professor. Eu e minha esposa, Ilana, temos uma cadelinha preta, um vira lata misturada com labrador, chamada Elô, que é uma fofa também nas nossas vidas. Como não temos, e não conseguimos ter, filhos (não foi por falta de tentativa, Deus simplesmente "fechou a madre" da minha esposa), ela virou a "filha" da casa. Não aceitamos esta ladainha de "pai de pet", mas ela chega perto disso apenas por nossa circunstância específica. :)
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