
“Sou peregrino na terra” (Sl 119.19)
Você viaja
muito? Se definiria como um viajante? Já se sentiu um forasteiro em sua própria
terra? Se sim para estas questões então a melhor palavra que o descreva seja
peregrino, do latim peregrinus,
aquele que atravessa campos, que está à procura de uma terra onde se sinta finalmente
em casa, junto aos seus. Todavia, fazer parte de uma terra não está necessariamente
ligado ao nascimento ou ao tempo de permanência em determinado lugar. Um
peregrino pode ter nascido em uma região e sentir-se alheio à cultura ao seu
redor, o que o leva a cruzar campos, cidades, países, até encontrar seu lugar
de descanso. Muitos cristãos relatam esse sentimento com este mundo, sentindo
saudades do Céu, o qual ainda não estiveram (mas estarão).
Nascido e
criado no Amazonas, tive a oportunidade morar por quase sete anos no interior
de São Paulo, um ano na capital paulista e cerca de meia década em Porto Alegre
– dois estados com culturas, sotaques, clima e temperos diferentes da minha terrinha.
Nada demais, lugares diferentes implicam em costumes diferentes, jeitos
diferentes e pensamentos novos. Conexão é palavra de ordem na adaptação a um novo
cenário. Como peregrino é possível viver muito tempo em um lugar e não se identificar,
como também é possível, caso volte a visitar sua terra natal, perder a conexão
com suas raízes. Às vezes é necessário algo que promova a readaptação. No meu
caso foi um lagarto.
Em meados de
2011 aportamos em definitivo em Manaus, querida terra de verão eterno, após uma
longa estada no Rio Grande do Sul. Como sou manauara da gema (ou melhor, do
cipó), achei que a readaptação seria imediata. Era chegar e dizer ditosamente à
minha alma: estou em meu Amazonas. Come,
bebe e regala-te com os tambaquis, tucumãs e cupuaçus. Estás entre os teus!
Mas não foi o que aconteceu. O tambaqui assado na brasa parecia vindo da
cozinha de um hotel, o x-caboquinho se mostrava artificial e a saudosa farinha
do Uarini parecia sem sabor. Até as canções do rádio soavam estrangeiras aos
ouvidos, e Porto de Lenha, quase um
hino manauara, remetia a algo há muito esquecido. No lugar da ditosa afirmação,
instalou-se uma estranha inquietação:
estou de fato no Amazonas? Parece que está faltando algo. É claro que eu
estava no Amazonas, e a questão, um tanto boba, não fazia sentido, porém algo
me escapava e não sabia o quê.
Devo adiantar
que a questão não era de cunho geográfico, pois nesse caso a resposta não
apresentava dificuldades, especialmente se tomamos como base apenas dados
geopolíticos. Saber que me encontrava no Estado do Amazonas, em Manaus, quase
sob a linha do equador, latitude tal, etc. era factual, mas nada dizia a
respeito de me sentir desconectado da região. Faltava uma identificação cabal,
algo que remetesse a alguma característica intrínseca da região, e que, pelo
visto, esquecera ou perdera. Esse algo é o que nos identifica quase
existencialmente com o lugar onde estamos.
A primeira vez
que ouvi um relato desse tipo de desconexão foi quando um grande amigo e colega
de profissão, o prof. dr. Haroldo Guerreiro, relatou-me um episódio inusitado.
Certa vez, voltando de São Paulo para Manaus, cansado, adormecera profundamente
durante o voo. Ao acordar foi assaltado com forte sensação de estar no avião
errado e ter perdido alguma improvável conexão. Sem graça e sem saber a quem
perguntar, só sossegou quando ouviu de dois garotinhos na poltrona à sua frente
o pequeno diálogo:
- Tu é leso, é?
- Sou não, tu que é!!
- Sai fora, doido!
- Te manca, perebento!
A desconexão demorou
apenas alguns segundos, logo percebera que estava em Manaus, ainda que em pleno
voo sobre a floresta amazônica. Já podia voltar a dormir. Estava entre os seus.
Nos primeiros
dias de nossa chegada, apesar da falta de costume com o calor sufocante, de
alguma forma ainda parecia que estávamos apenas de passagem, ou de férias, e
que logo voltaríamos para o Rio Grande do Sul – ainda não tinha caído a ficha!
A identificação fundamental com a terra não fora encontrada. A procurava nos
lugares, nas comidas, nos rostos cablocos, e nada. Esta veio somente uma semana
depois!
Saliento que a
desconexão não se devia a qualquer sentimento de rejeição ou má recepção. Ao
chegar de Porto Alegre fomos alegremente recebidos na casa de um casal querido,
Erivelto e Mirciloni, que se esforçaram para nos fazer sentir à vontade,
enquanto nossa mudança ainda estava a caminho. Ficamos acampados em uma
confortável e equipada edícula da casa, cujo acesso se dava por uma escada
seguida de uma estreita e charmosa varandinha. Certa manhã eu e minha filha
mais velha, Mitca (à época com oito aninhos), ficamos dormindo até mais tarde,
enquanto a esposa e a caçulinha Naomi tinham descido para o desjejum. Por volta
das nove da manhã, acordo com a mulher gritando lá de baixo:
- Kel! Acorda!
Acorda Kel! Acorda!
Meio
sonolento, bocejando, cambaleio da cama em direção a porta e, ao abrir e responder
“que foi?”, dou de cara com uma enorme
iguana verde, portando uma ameaçadora crista dorsal cheia de grandes espinhos, quase
aos meus pés, na varanda. Só tive tempo de fechar a porta de
supetão – já totalmente alerta e com o coração disparado –, e ouvir a
digníssima responder:
- Tem um lagarto
enorme aí na varanda! Não saia!
Da janela do
quarto, sobressaltado, uma veia pulsando na fronte, tentando manter o controle,
respondi com toda a ironia que pude imprimir na voz:
- Obrigado!!
A próxima
meia-hora foi gasta em tentar afastar, inutilmente, o réptil da varanda. Pela
porta entreaberta, joguei todos os sapatos e sandálias na criatura, sem
qualquer resultado. Parecia querer me desafiar, pois a cada objeto jogado, se
aproximava cada vez mais da porta. Em um rasgo de coragem infinita tentei empurrá-lo
com um rodo escada abaixo, somente para vê-lo disparar em minha direção (do
qual fugi com covardia igualmente infinita), grudar na porta e me acuar miseravelmente
dentro do quarto. Pensei em enxotá-lo a golpes de rodo, porém havia uma grande
possibilidade do animal se esquivar e correr para dentro do quarto, onde estava
a Mitca – que a essas alturas já estava acordada, assustada, em cima da cama,
choramingando de medo, só de pensar na possibilidade de ter um lagartão rastejando
pelo quarto.
Sem saída,
procurei algo que o fizesse correr da varanda. No desespero tive a “brilhante”
ideia de tentar borrifar meu spray desodorante (aroma musk) em seus olhos pela
fresta da porta entreaberta. Tinha a certeza que daria certo, afinal um
doutorado em química deve valer de alguma coisa nessas horas de aperto. Dei um longo
e forte jato, com um sorriso serelepe, já antevendo minha vitória. Para minha
decepção ele não só não fugiu como fechou os olhos e pareceu definitivamente
satisfeito com o borrifo. Quase pude ouvi-lo sarcasticamente dizer “não tinha de lavanda ou floratta?”. “O
Sorriso do Lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro, não foi nada comparado a expressão
de marota satisfação que o réptil me dirigiu. Desisti e fui para cama abraçar
minha filha. Em minha mente a figura de uma iguana de expressão marota ria
abertamente, esperando apenas a oportunidade de pular na cama e tripudiar da
minha miséria
Após vinte longos
minutos, ouvi passos na varanda. Ao espiar pela porta entreaberta, vi o
jardineiro do condomínio calmamente se aproximar da iguana e empurrar com
cuidado uma vassoura em sua direção. Tranquilamente o lagarto subiu nas cerdas
e se deixou levar para baixo em flagrante pose de superioridade, para em
seguida ser solto ao pé de uma árvore. Naquele momento, naquele exato momento em
que a iguana subiu a árvore e me lançou um olhar matreiro, soube que estava de
fato no Amazonas e que nenhum réptil estava mais perfumado que aquela iguana em todo o planeta. Estava finalmente na terra natal de minhas peregrinações. A busca
havia cessado, a conexão fora feita, estava entre os meus.
Sim, às vezes
é necessário algo que promova a readaptação. Você até pode sair e esquecer o
Amazonas, mas cedo ou tarde o Amazonas mandará um lagarto atrás de você para
lembrar-lhe de suas raízes. Como disse o salmista “sou peregrino na terra”.
Nada diz com
tanta perfeição “bem-vindo a Manaus” como um réptil em sua porta.
nEle, e
somente nEle...
Kelson
6 comentários:
Texto brilhante! Mistura humor e profundidade de forma muito natural!
A cena é divertida, mas ao mesmo tempo carrega um significado lindo sobre pertencimento e raízes. No fim, o “lagarto” deixa de ser só um susto e vira quase uma lembrança providencial de quem somos e de onde viemos.
👆 Saiu como anônimo mas foi @denisebenatte 😉
Obrigado, Denise!
Ri do lagarto perfumado. Kkkk. Só aqui mesmo! Em uma ocasião, com minha família em um balneário no Rio Preto da Eva, tivemos a companhia, por alguns minutos, de uma preguiça, que veio, calmamente descendo o rio, subiu no banco, acentou-se estudando com tranquilidade como subiria até o galho pretendido, e, então, praticou seu plano. Tenho as fotos para provar a façanha.
Que situação divertida hahaha, gosto de ler suas histórias.
Muito engraçado, Dr. Kelson! Suas crônicas sempre me alegram, e sempre admiro seu talento para escrever. Aprendo bastante! Abraço, Lúcia.
Postar um comentário