
“como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.” (Rm 3:10-18)
Onde estava eu exatamente em 28 de agosto de 1984? Difícil lembrar. Mas como aquele dia era uma terça-feira, provavelmente eu deveria estar, pela parte da tarde, estudando no Instituto de Educação do Amazonas (IEA), na sala da oitava-05, como chamávamos nossa turma (oitava série do 1º grau, turma cinco). Pela manhã eu deveria estar na casa de minha avó paterna, já há muito falecida.
Tinha quinze anos então, e estava passando por um momento de grandes decisões com o 2º grau se aproximando (hoje, o ensino médio). Lembro que minha paixonite aguda daquele ano era a Gildete, com seus grandes olhos de jabuticaba e voz levemente arrastada – uma graça. Lembro que devorava com avidez todos os livros de Agatha Christie que caísse em minhas mãos e estava começando a tomar gosto por filosofia e psicologia. Também lembro que Michael Jackson (ainda negro) e Madonna estavam no auge e Cindy Lauper começava a despontar nas paradas de sucesso. Lembro também de ter de decidir entre fazer os cursos técnicos em química, magistério e contabilidade (decidi-me por química antes mesmo de terminar o ano de 1984 e cá estou nesse ramo ainda hoje, pela graça de Deus).
Toda uma vida se descortinava a minha frente. Viria o 2º grau na ETFAM (atualmente IFAM), depois quatro anos de faculdade, mudança para São Paulo, mestrado, doutorado, casamento, mudança para o Amazonas, carreira, duas filhas, mudança para o Rio Grande do Sul, novamente mudança para Manaus. Tudo pontuado por alegrias, tristezas, decepções, surpresas, problemas de saúde, dificuldades, acertos, vitórias e grandes transformações políticas no cenário mundial. Tive anos bons, anos ruins, anos de perplexidade, anos de dor e anos de pasmaceira. Vivi a vida em todas as suas oportunidades apresentadas, com liberdade, com acertos e erros. Sim, lembro de tudo isso, mas...
Por que a curiosidade em torno da data 28 de agosto de 1984? O que houve de especial neste dia? Para mim foi um dia qualquer. Para o mundo também nada de notável ocorreu. Contudo, para Elisabeth Fritzl, residente na cidade de Amstetten, nas proximidades de Viena (Áustria), foi o último dia em que veria o sol pelos próximos vinte e quatro anos.
Para quem não sabe, neste triste dia, Josef Fritzl, um engenheiro eletricista, encarcerou sua própria filha Elisabeth – então com quase dezoito anos – em um tipo de bunker miserável no porão de sua casa e desde então abusou da mesma sistematicamente ao longo de um quarto de século. No decorrer do tempo, a filha viria a ter sete filhos (!!) do próprio pai, um dos quais morto, três adotados pelo pai, usando de farsa e fraude, como crianças abandonadas e outros três vivendo trancafiados com a mãe, sem nunca terem visto o sol, o céu e as estrelas. O lugar onde fora trancafiada era mofado, com ratos, teto baixo, sem janelas, e no verão tornava-se uma sauna. Somente no dia 27 de abril de 2008 seu cativeiro fora encerrado. Nesse ano de 2025, em abril, faz 17 anos que Elisabeth e seus filhos conheceram a liberdade.
Confesso que quando li sobre o caso pela primeira vez não pude acreditar que tão atroz desumanidade pudesse ter sido cometida. Na época em que Elisabeth fora encarcerada eu tinha apenas quinze anos e sem qualquer idéia do que a vida me reservava. Conforme fui lendo os relatos fui tomado por um forte sentimento de asco e indignação pelas ações daquele pai e profunda tristeza pela vida miserável que aquela mocinha levou em um quarto de século em que esteve aprisionada. Como isso pôde acontecer? Como ninguém percebeu? Como um homem conseguiu enganar a todos, especialmente em um país tido por desenvolvido e de grande cultura? Me arrepiava pensar que desde o início de minha oitava série aquela garota estivera presa e condenada a uma vida de humilhação, privação e abuso. Isso, sem pensar na vida miserável que seus filhos também tiveram.
Sempre que se fala da maldade humana, alguns episódios hediondos de nossa história são lembrados, como o holocausto judeu, a revolução cultural chinesa, o comércio de escravos, o genocídio armênio, a fome imposta em Holodomor, o massacre de Nanquim, entre tanto outros. Mais comum em nossas plagas, mas não menos hediondo, se encontra a corrupção e o desvio de verbas públicas que seriam usadas para o combate a doenças, à fome e à pobreza. E, em todos os casos, a flagrante falta de sensibilidade em face ao horror da miséria humana. Sem dúvida, situações completamente pavorosas, que denigrem o conceito de ser humano apontam para a desumanidade, irracionalidade e crueldade associadas a atos e propósitos engendrados pela mente humana.
Porém, como definir as ações deste pai? Monstruosidade? Desumanidade? Depravação? Crueldade? Irracionalidade? Nenhum adjetivo é suficiente. Nem mesmo se esquivando em desculpas de advogados que alegaram que seria mentalmente insano é possível se convencer facilmente. O Sr. Fritzl, hoje conhecido como o Monstro de Amstetten, era tido como gente boa, alegre companheiro de pescaria por seus amigos mais chegados e considerado um sujeito equilibrado por seus vizinhos. Nada que se encaixasse nas definições usuais do extenso rol de maldades. Suas ações estão além da classificação usual e demonstram que a maldade humana sempre pode alcançar novos e aterrorizantes patamares.
Como um pai - um PAI! - faz isso com sua própria filha? Uma coisa horrível é trancar alguém, à força, em cárcere privado. Muito pior que isso é aprisionar sua própria filha (e mais três filhos-netos dessa abjeta relação) por um quarto de século, em um ambiente pequeno, apertado e fechado, longe de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, ao alcance de uma vistoria qualquer. É totalmente desumano e desesperador. Coisa pavorosa e irracional é estuprar alguém. Muitos graus acima disso, é o praticá-lo seguidamente, ao longo dos anos, em sua própria filha e na presença de outros filhos. É cruel, asqueroso, doentio e completamente monstruoso. Coisa indigna e passível de total reprovação é a traição matrimonial, especialmente com filhos bastardos, mas o que dizer quando os filhos bastardos são os próprios netos – não um ou dois, mas sete?! Não há como descrever apropriadamente essa “coisa”. Nem mesmo nos enredos mais esdrúxulos e cruéis dos filmes de terror, há tanta maldade e indignidade.
Sou protestante e creio profundamente na realidade da depravação do coração humano como consequência do pecado. Sei que “não há temor de Deus diante dos olhos” (Rm 3.10) de nenhum homem entregue a si mesmo, e que é “continuamente mau todo desígnio do coração do homem” (Gn 6.5), mas confesso: não estava preparado para esse episódio.
Quando as Escrituras dizem que não há nenhum justo, não está se referindo a alguns homens ou a grupos humanos específicos. Está dizendo que não há NENHUM justo mesmo. Em outras palavras: nosso coração é mau e desesperadamente corrupto (Jr 17.9) e ninguém se salva. Sendo assim, nossos pecados, nossas maldades, nossas corrupções, como raça e individualmente, são um retrato do estado do coração humano longe Deus. Cada nova maldade que o ser humano comete não mostra um novo nível de maldade alcançado, mas o quão maligno é o coração humano e, pelo jeito, sem limites para o quanto pode conceber de maldade.
Meus queridos amigos, faço parte da raça humana, assim como vocês, e me assombra saber disso. Nossa inclinação para o mal aponta para uma doença grave em nossos corações, a qual não podemos curar, nem mesmo aplicando uma grossa camada de verniz de cultura. O mal é interno, inerente ao nosso estado decaído. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo. O segundo passo é reconhecer que essa cura, que não está (e nunca estará) em nosso poder, se encontra somente nAquele que levou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores, que foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. O castigo merecido de nossas maldades e monstruosidades, estava sobre Ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53). E, por fim, se entregar de forma sincera a Jesus Cristo, pois somente nEle esse coração mau, de pedra, corrupto, maligno, impuro, pervertido, pode ser transformado em um coração novo, de carne, temente a Deus. Não há outra solução.
Hoje faz exatamente 17 anos que Elisabeth e seus filhos foram libertados daquela pavorosa morte em vida. Onde estava eu (e você) exatamente em 28 de agosto de 1984? Não sei dizer precisamente, mas sei onde não gostaria de estar: na Áustria, sendo parte da família Fritzl.
Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós, pois vamos precisar dela nos anos que virão.
9 comentários:
Ainda não era nascida nesse ano mas já vi vários documentários sobre esse caso e até hoje fico imaginando como era e oque se passou na cabeça dessa então na época jovem garota ,e como ele foi capaz de fazer isso com sua filha e conviver em cima aonde ela estava como se nada tivesse acontecendo em baixo de seus pés ,muito triste me dar arrepios só de imaginar oque essa moça é seus filhos passaram .
Este caso é realmente um dos mais chocantes e perturbadores da história de monstruosidades. É um lembrete sombrio do que alguns seres humanos são capazes de fazer, e isso é desolador.
Perturbador
Parabéns pela palavra exposta! Que Deus continue lhe usando e abençoando sempre 🙏
A bíblia fala de uma raça de "perversos" e creio que esses são os psicopatas, não se arrependem , não sentem qualquer remorso, são insanos e fazem parecer "bons" pra alcançar o que desejam! Somos depravados e Cristo veio pra nos tirar da escravidão do pecado! Mas esses seres perversos relatados na palavra não têm perdão e queimarão no fogo eterno!
A vida, o maior presente de Deus à humanidade, e a liberdade de escolher fazer o bom uso dela, são constantemente retirados por infelizes criaturas que teimam em pensar que nossa existência é somente terrena. Esquecem-se que o que Deus faz, é eterno e não termina com a morte.
Sabemos para onde vamos, o tão esperado céu 🙏🏼.
Não! Vossas mentes tramam CONTINUAMENTE iniquidades e, com vossas próprias mãos distribuís injustiça. (Salmos 58).
Eu tinha 8 anos. E ela foi liberta qdo eu tinha 32.... não posso mensurar a profundidade dos traumas causados por esse crime hediondo.
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