
Qualquer cientista
honesto, munido dos instrumentos apropriados e de posse de literatura
científica séria, ao examinar minuciosamente as bases físicas que constituem
nosso universo, experimentará uma crescente percepção de que as coisas são excessivamente
ajustadas, demasiadamente perfeitas e extremamente concatenadas. Da interação
do menor fóton com um campo magnético, passando pelo equilíbrio perfeito das forças
fundamentais, pela maravilhosa periodicidade dos elementos químicos até à
sofisticação impressionante do ser unicelular mais simples, o ajuste é de tal
monta que esgota completamente todos os recursos probabilísticos do universo
para eventos deixados ao simples acaso. Nenhuma singularidade cósmica destituída
de direção ou propósito poderia originar este
incrível e singular cosmos em que vivemos. Não há sorte o bastante para tal,
mesmo considerando a vastidão quase infinita do universo. Se matematicamente o
acaso não pode ter gerado este universo, a alternativa mais simples e racional aponta
para um Deus todo-poderoso que o criou. Todavia, e se houvesse uma
multiplicidade infinita de outros universos, coexistindo simultaneamente,
gerados ao acaso? Nesse cenário um tanto bizarro, não seríamos os sortudos que teriam
ganhado na loteria cósmica; nosso universo seria apenas um entre muitos
possíveis. E é aqui que entra o conceito de mundos paralelos.
O termo multiverso tem
recebido maior atenção da mídia nos últimos anos e refere-se à hipótese da
existência de infinitos universos além deste. É um termo caro para alguns
cosmólogos e ateus que o veem como solução definitiva para enterrar conceitos
inquietantes como a existência de Deus, design inteligente e ajuste fino do
universo. A linha de raciocínio é simples: se há infinitos universos, as
probabilidades para que qualquer tipo de universo venha a existir são também
infinitas, logo, é plausível que haja vários universos que apresentem todas as
condições para a existência da vida, entre eles o nosso. Deus estaria fora da
jogada, pois em um multiverso as condições para geração da vida seriam apenas questão de probabilidade. A ideia, à primeira
vista, é simples e elegante, porém, levanta algumas questões. A primeira,
obviamente, é se há um multiverso com embasamento científico. A segunda, que
nos interessa, é se Deus criou um universo ou um
multiverso. Comecemos com a primeira.
A ideia de um multiverso
é conhecida nos círculos acadêmicos como teoria de muitos mundos ou
interpretação de muitos mundos (IMM) e advoga a existência de múltiplos
universos que coexistem paralela e independentemente uns dos outros. Foi
proposta, em 1957, por Hugh Everett III, em sua tese de doutorado em física, na
Universidade de Princeton. O impulso inicial para essa teoria surgiu de uma
característica dos sistemas quânticos denominada colapso da função de onda.
Mas, exatamente o que vem a ser isso?
A teoria quântica, na
interpretação tradicional de Copenhague, postula que as partículas quânticas,
como elétrons e fótons, não têm propriedades definidas, como posição ou
momento, até que sejam medidas ou observadas. Essas partículas podem ser
descritas por uma função de onda que descreve o seu estado quântico e contém
informações sobre a probabilidade de encontrar tais partículas em diferentes
estados. Antes da medição, a função de onda pode apresentar uma sobreposição de
diferentes estados simultaneamente. Assim, uma partícula quântica pode
apresentar diferentes estados sobrepostos, cada qual com uma função de onda
particular que o descreve – e até a partícula sofrer uma observação ou uma
medida, todos os estados são possíveis de ocorrer. O colapso da função de onda
ocorre no momento da medição, quando a partícula é observada. Nesse momento, a
superposição de estados é substituída por um único estado definido, o qual adquire
uma nuance clássica, e não mais quântica (na física clássica, somente um evento pode ser observado para um mesmo
fenômeno, em um determinado momento). É a famosa história do gato de
Schröedinger: enquanto a caixa não é aberta e observado o seu interior, o gato
está em uma sobreposição de estados – morto e vivo, simultaneamente. Ao se
abrir a caixa, há o colapso da função, e o gato apresentará apenas um estado: morto ou vivo. O problema que perturbava Everett era
o sumiço dos demais estados, para os quais não
haveria um motivo ou um operador matemático que os levassem à inexistência ou
ao cancelamento. Na falta de uma interpretação matemática maior, Everett, então,
propôs que todas as demais configurações da partícula passariam a existir em múltiplos
mundos ou realidades paralelas. Se, neste universo, um fóton, ao passar por uma
fenda, desviar-se para a esquerda, então, deverá existir um outro universo em o
fóton se desviará para a direita. Assim, para resolver uma tecnicalidade que
sequer é um consenso em mecânica quântica, Everett aventou em sua tese a
existência de infinitos universos. Em termos mais simples: quando um evento
quântico admite várias possibilidades de ocorrer, a IMM defende que todas essas
possibilidades realmente acontecem, mas em universos separados.
Apesar de estar na
moda, especialmente em filmes de super-heróis, a interpretação de muitos mundos
não é, nem de longe, um consenso na comunidade científica. Mesmo Hugh Everett abandonou
sua tese após concluí-la e passou a maior parte de sua carreira fora do campo
da física teórica. Morreu em 1982 e não chegou a ver o aumento do interesse por
sua teoria, especialmente por parte de expoentes da ficção científica e por
seguimentos naturalistas. Sua sugestão bizarra apresenta grandes entraves a ser
vencidos. Primeiro, porque é impossível testar experimentalmente a existência
de outros universos, uma vez que estados quânticos diferentes não interferem
entre si. Segundo, porque a ideia de que cada universo existente é fruto de uma
linha divergente de outro universo elevaria ao absurdo a multiplicidade de universos
ramificados a cada femtossegundo, a partir de um único universo. No lugar de
aumentar as probabilidades de haver universos com condições de gerar vida, a
multiplicidade de probabilidades ínfimas, quando elevadas ao infinito,
resultariam em valores infinitesimais para universos viáveis. Terceiro, no
colapso da função de onda não há nenhum indicador físico de criação ou
ramificação de outra realidade. Por fim, há as graves questões filosóficas que
se levantariam devido a uma multirrealidade multifacetada e o desafio quase
intransponível de integrar a IMM com outras teorias físicas. Resumo da ópera: a
existência de um multiverso é ainda menos factível que a geração espontânea ao
acaso de um único universo finamente ajustado.
Mas o que é impossível matematicamente
seria possível divinamente? Será possível que Deus tenha criado um multiverso,
conforme a proposta de Hugh Everett III, no lugar de apenas um universo? Sendo
justo, para um Ser capaz de criar um universo tão belo, perfeito e ajustado
como o nosso, criar dois, três, quatro, infinitos outros universos não seria
problema. De fato, para um Deus onipotente e onisciente, a capacidade de criar
um multiverso certamente estaria dentro do escopo das possibilidades divinas.
Poder não lhe falta. A questão não é se Ele poderia criar um multiverso, mas se
Ele de fato criou. A resposta é, simplesmente, não! Abaixo, listo três razões
para tanto, uma de ordem mais científica e duas de cunho mais teológico.
A. Um Deus onisciente leva necessariamente
a um universo clássico
Se cada universo é originário de uma
ramificação anterior, devido ao colapso de estados quânticos, necessariamente,
há um universo primordial. Se Deus é o criador, então, esse universo primordial
está sob sua observação e intervenção. Como a mecânica quântica, firmemente
defendida por Everett, assevera de forma categórica que o simples ato
consciente de observar um estado quântico leva ao colapso da função de onda que
descreve o sistema, o resultado é indiscutível: apenas um estado individual é prevalecente.
Assim, esse universo primordial não se ramificaria, pois a “caixa do gato”
estaria sempre aberta para o Senhor Deus. Não teríamos um multiverso de
ramificações quânticas, e, sim, um universo de escolhas clássicas. Nas palavras
de Eduardo Nishitani, “a realidade pode
ser muitas possibilidades sobrepostas, mas apenas uma colapsa pelo olhar do
Observador Onisciente, que é o Senhor Deus.” Se Deus não joga dados, afirmo
que Ele também não aposta em universos possíveis.
B. A existência de um multiverso é incompatível com a santidade de Deus
A criação de um multiverso, ainda que pudesse
refletir a sabedoria e a onipotência de Deus ao criar um sistema complexo e
interconectado que permitisse a coexistência de diversas realidades, é
incompatível com sua Santidade. Se há infinitos universos, milhões e milhões deles
finamente ajustados para manter a vida, e vida moral, é plausível supor que em
todos eles, ou em sua maioria, a realidade do pecado tenha se instaurado. Nesse
caso, multiplicaríamos por infinito o problema da realidade do mal na presença
de um Deus Santo. Aquele que é tão puro de olhos que não pode ver o mal, nem
contemplar a opressão (Hb 1:13), criaria uma estrutura que tornaria a presença
do mal virtualmente infinita? Se em um único universo a presença do mal e do
pecado tornou necessário o derramamento do precioso sangue do Filho de Deus
para a redenção (1Pe 1:19-20), por lógica, redimir um multiverso implicaria um
preço além. O que pode ser maior que o ultraje infinito sofrido pelo Verbo
Eterno na cruz para remir uma única raça? A impossibilidade de resposta a essa
questão implica a impossibilidade de existência de um multiverso.
C. A
redenção obtida na cruz foi um evento cósmico único
A resposta anterior pode induzir alguns a
pensar “Sim, não há nada superior e mais
precioso que a morte de Cristo Jesus na cruz; mas Ele poderia ter se
sacrificado em cada universo”. Embora seja um raciocínio interessante, entra
em confronto direto com a revelação das Escrituras, quando afirma que “Cristo
morreu, uma única vez, pelos pecados,
o justo pelos injustos” (1 Pe 3:18) e que Ele “entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hb 9:12). Portanto, o
sacrifício de Jesus foi um evento cósmico único, e não um fenômeno sujeito às
ramificações de um multiverso quântico. Não há outros Cristos em universos paralelos,
nem outras formas diferentes de redenção. A própria encarnação do Verbo é um
evento singular, bem como a redenção obtida na cruz. A criação geme e suporta
angústias pelo pecado que foi perpetrado neste mundo (Rm 8:19-23), não em
outros mundos ou outras realidades. A singularidade da redenção eterna aponta
necessariamente para um universo singular.
Se esses argumentos não
são suficientes, há ainda um último, do tipo reductio ad absurdum. Consideremos,
por um momento, que de fato há infinitos universos paralelos e que tudo o que é
possível de ocorrer seja apenas uma questão de probabilidades, não sendo
necessário Deus como um Designer Inteligente ou a Causa Primordial. Se é
possível haver, por puro acaso, universos finamente ajustados à vida, contra
todas as leis da química, física e biologia, então, são possíveis todas as outras
coisas. Certamente, nesse caso, haverá um universo em que um velhinho barbudo,
que dirige um trenó com renas voadoras, carregando um saco infindável de
presentes, seja capaz de visitar todas as crianças boazinhas em uma única noite.
Também haverá um universo onde super-heróis existem, ou fadas, ou dragões, ou
jubisks, ou cores falantes, ou universos que jazem em trevas gravitacionais
eternas. Haverá, até mesmo, um universo que foi criado por um Deus Todo-Poderoso
(é possível, as chances são infinitas, lembram?), e, nesse caso, esse Deus, por
sua onisciência, ao observar o multiverso, desde o seu início levará ao colapso
a função de onda primordial, resultando em um universo clássico. Por absurdo,
se houver um multiverso, ele terá uma origem clássica e terá um Deus como seu
criador e sustentador.
Por mais cativante e
fascinante que seja a ideia de um multiverso, sua utilidade prática se limita a
fornecer elementos para narrativas de ficção científica. Ao contemplar a
perfeição do cosmos, somos chamados a reconhecer a sabedoria e o poder do
Senhor Deus manifestos em um único, vasto e singular universo, concebido com
amor e propósito. Não precisamos de outros.
A Ele toda a glória!
👉Originalmente publicado em 11/12/2023, sob o mesmo título, no portal Voltemos ao Evangelho, com edição e revisão original: Vinícius Lima. Clique aqui e acesse a coluna e o artigo original.
3 comentários:
Excelente texto! Mesmo com minhas limitações, pude contemplar a beleza e a perfeição do Designer Inteligente- Deus como sustentador do Universo clássico.
Surpreendente! Instiga muitas reflexões.
Artigo maravilhoso, Dr. Kelson! Se usarmos a racionalidade científica e inteligência, inevitavelmente chegaremos à conclusão de um único Universo criado e finamente ajustado pelo Criador. Mesmo quem não crê na Bíblia tem as evidências dessa criação! Quem crê pode maravilhar-se com a ciência e deleitar-se na Palavra. Como brincava o professor Adauto Lourenço: na eternidade, o Senhor vai deixar uma fileira à frente para que os cientistas possam ver mais de perto o Senhor explicar as maravilhas científicas de sua Criação... Dr. Kelson estará lá! Espero que tenha uma fileira para curiosos também (no caso, para mim)...
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