quinta-feira, 17 de abril de 2025

A BREVE VIDA DE KORRF

 
Kelson Mota T. Oliveira

“Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão.”
(Sl 127:3)

   Nove da noite. Como sempre uma noite quente em Manaus, e naquele ano de 2012 não foi diferente. Na agenda diária, esta é a hora em que as meninas vão para cama, a fim de dormirem ao menos nove horas de sono tranquilo e restaurador para, depois, pela manhã, zarparem para escola.

Ao chegar esse horário, ambas já brincaram, fizeram as lições, jantaram, estudaram a Bíblia em família, negociaram alguma brincadeira a mais e oraram. Invariavelmente, já na cama, na penumbra, elas pedem que eu cante algumas músicas – um costume desde os primeiros dias de vida de ambas. Quando estou inspirado e com tempo de sobra, canto duas ou três, sempre seguido de pedidos de bis, os quais geralmente sou inclinado a aceitar. Por vezes, cansado, canto apenas uma, ou mesmo nenhuma, seguido de beijos, boa noite e o indefectível aahhh de insatisfação. Em algumas ocasiões, aceito algum pedido mais ousado e conto uma história, em geral de princesa, que me pedem para inventar na hora.

Outro dia, resolveram inovar.

***

- Papai, conta uma história? – indaga com olhinhos brilhantes, Mitca.

- Filha, já é tarde. Está na hora de dormir – e faço menção de distribuir os beijinhos de boa-noite.

- Mas, papai, o senhor nem cantou uma música – choraminga, Naomi.

- Garotas, hoje não estou muito inspirado para histórias de princesas – e dou um franco suspiro de tédio.

- Não precisa ser de princesa. Hoje queremos uma história diferente – retruca ainda animada, Mimi.

- É, Papis, conta uma história que o senhor nunca contou para ninguém. Diferente de todas – incentiva, Naná.

- Qualquer história? – falo pausadamente, arregalando os olhos e subindo a sobrancelha esquerda, com um sorriso soturno. Estou animado com a possibilidade de contar algo totalmente diferente.

- Não pode ser história de terror! – exclama uma.

- Nem pode ser história de susto, Papai! – emenda outra.

- Ok, ok! Fora isso pode ser qualquer história? – pergunto com um pequeno sorriso nos lábios.

- Pode! – respondem ambas, ressabiadas, porém animadas.

- Certo, então contarei sobre a breve vida de Korrf.

- Quem é Korrf, Papai? – pergunta Naomi de supetão.

- Calma, calma. Ainda nem comecei a contar a história. Foi assim...   

***

Desde que teve consciência de si mesmo Korrf, sempre foi desse jeito, um tanto balofo, molenga e até mesmo gelatinoso. Sobre seu nascimento nunca soube nada a respeito, mas desconfiava que nascera na hora mais fria daquela manhã, em um momento abafado, provavelmente, às quatro horas da madrugada. Sua lembrança mais antiga estava sempre associada à sensação de frio e recolhimento.

- Mas como ele sabia disso, se tinha acabado de nascer? Ele nasceu como?  – pergunta Naomi, com uma ruguinha na testa.

Nasceu como nascem os cogumelos que brotam do solo, em pedaços de madeira apodrecida, sem que se perceba. Como por encanto. Aliás, ele nasceu só, nunca teve pai ou mãe, e nunca sentiu falta de nenhum deles, pois não sabia o que era ter pai ou mãe e, portanto, não podia sentir saudades do que nunca teve. Mas, sabia que não estava só, pois, ao seu redor havia muitos como ele, todos gelatinosos, todos solitários, aparecendo da noite para o dia como cogumelos no gramado.

- Se ele não teve pai ou mãe, quem deu seu nome? – questiona Mitca, com uma expressão séria.

Seu nome não foi dado como se dão os nomes aos bebês, os quais são escolhidos carinhosamente pelos pais. Não, seu nome foi imposto pelas circunstâncias. Seu nascimento foi precedido por um barulhento corrf, tão alto e sonoro que certamente deveria ser uma indicação dos céus. Nunca pensou em usar outro nome, e nem conseguiria. O nome Korrf representava tudo o que ele era. Em intervalos regulares de sua breve vida, o estrondoso som sempre se repetia, como uma dádiva do alto. Era um som que Korrf associava ao próprio ritmo natural de sua breve vida. E, às oito horas da manhã em que nascera, já estava grato pelo som familiar e pelo nome dado a si mesmo.

- Papai, como ele pode ter nascido naquele dia, sem pais, com um nome e ainda ter lembranças? Ele é um bicho?– cutucou mais uma vez, Mimi. Solenemente ignoro as perguntas lógicas.

- Onde ele morava? – quis saber, Naná, e respondo:

A casa de Korrf era muito estranha para nossos padrões. Não era feita de paredes retas, nem composta de tijolos ou madeira. Não tinha portas ou janelas. Todas as suas paredes eram formadas por elegantes curvas, unindo teto e chão, sem um assoalho definido. O material era, visto de perto, translúcido e macio ao toque, e um tanto elástico e quentinho, mas era uma casa ampla e muito bem ventilada. Se você pudesse olhar de longe, a forma da casa lembraria um saco com a boca amarrada. Do chão e das paredes pendiam pequenas e delicadas protusões.

- O que são protusões? – perguntou, Naomi.

São formas que se esticam a partir de uma superfície, que se movem para frente. Na casa de Korrf, eram semelhantes à pipoca estourada, macias ao toque, que se retorciam em formas fantásticas, em constante mudança.

- Ahh!! – e fez cara de quem entendera, sem entender realmente.

Korff amava passear por sua enorme residência e, por vezes, deslizar pelas paredes. Às dez da manhã, já a conhecia por completo, em detalhes. Por vezes, avistava outros semelhantes a si nas várias curvas formadas pelas protusões, mas nada perguntava ou conversava. Era-lhe delicioso estar vivo. Estava quase satisfeito demais com sua vida para compartilhá-la com outros.

- A casa dele não se parece em nada com uma casa. Muito estranho... – comenta Mitca, mais para si que para os demais. 

A única forma realmente estranha em sua casa era um buraco, na parte mais alta do teto, como se fosse um alçapão invertido, completamente inalcançável. Era de lá que vinha a brisa deliciosa que arejava e perfumava o ambiente e também um pouco de luz. Também era de lá que provinha o som que originara seu nome, e que fazia tremer e contorcer sua casa. Korrf não sabia o que havia além do alçapão, mas desejava, ardentemente, conhecer o mundo exterior, e esse desejo não lhe permitia estar totalmente satisfeito com sua vida.

Ao meio-dia, a vida de Korrf consistia em deslizar calmamente pelo jardim de protusões, admirando suas formas irregulares e se alimentar, a qualquer momento, que sentisse fome. E Korrf sempre estava com fome. 

- O que ele comia, Papai? – quis saber Naomi, vivamente interessada na história. 

Bem, creio ser preciso explicar algo sobre a alimentação de Korrf: para sua comodidade, a própria casa o alimentava. Nunca parou para pensar em como isso acontecia, mas sabia que do chão e das paredes brotavam seus alimentos. Ele não precisava comprá-los, cozinhá-los, cortá-los ou mesmo mastigá-los, bastava deslizar sobre o chão ou as paredes, para incorporá-lo. Muito prático e higiênico.

- Queria ter uma casa assim – comenta uma.

- Eu também. Não dá trabalho comer – responde outra. 

Certa ocasião, às duas da tarde daquele glorioso dia, quando já estava bem crescido, Korrf começou a pensar em uma maneira de alcançar o alçapão no teto. Começou a observar que, sempre ao ocorrer um estrondoso corrf – vindo sempre do alto – o alçapão se alargava bastante e uma grande corrente de ar era sugada de sua casa, a qual se comprimia para facilitar a expulsão do vento gerado. Talvez, se ele pudesse pular da parede no exato instante em que a ventania era sugada para fora, fosse possível ser levado junto. Parecia-lhe um plano arriscado, quase absurdo, mas se houvesse uma explosão de corrf muito forte, e ele estivesse bem posicionado, seria possível ter êxito em seu projeto.

Por duas longas horas, estudou, com cuidado, a melhor posição na parede mais próxima do alçapão, observou o tempo em que os corrfs ocorriam e sua frequência, e esperou o momento perfeito para se lançar na corrente de ar que o levaria ao alçapão, no teto. Gastou grande parte do tempo meditando sobre as maravilhas que lhe esperavam do outro lado e se alegrou com o objetivo traçado. Não esperou muito. Às cinco da tarde, uma forte contração, nas paredes da casa, indicara-lhe que um poderoso corrf estava a caminho. Esperou o alçapão se abrir e o ar ser sugado em uma forte corrente de vento e se atirou da parede. Estava animadíssimo, pois, finalmente, encontraria o sentido de sua vida e a vida além do misterioso alçapão. Foi sugado para fora e viu!

- E o que foi que ele encontrou, Papai? Diga o que ele viu! – implorou a mais nova.

- Ele encontrou tudo, filha. Viu absolutamente tudo.

- Como assim? – os olhos esbugalhados de curiosidade.

- Deixe-me continuar...

- Corrf! Corrf!

- Está tudo bem, filho?

- Tudo bem, mamãe. Foi só outra tosse.

- Essa me pareceu bem forte. Limpe a boca e corra e traga da cozinha um guardanapo.

- Para quê?

- Sua última tosse foi tão forte que arremessou no sofá um belo monte de muco. 

- Eecaa! Bustela! Que meleca!

- Como assim, meleca? Quem é esse garoto? Não tô entendendo... – protesta a maiorzinha. Faço de conta que não estou ouvindo e continuo. 

Cinco e cinco da tarde, do sofá, quase inaudível, uma pequena e derradeira frase era balbuciada, em tom bolhoso, por um pequeno ser em seus últimos momentos:

- Meu nome é Korrf. Não é muco... nem bustela... nem meleca... é Korff! – e expirou.

A mãe do menino veio e limpou o muco do sofá e lançou o papel no cesto de lixo.

E assim foi a breve vida de Korrf. Nasceu às cinco da manhã e morreu às cinco e cinco da tarde.

Fim!

...

Silêncio completo no quarto.

***

Termino a noite sob fortes protestos das duas criaturinhas, indignadas com a historinha. Não se conformam. O querido Korrf, tão simpático, é, bem..., uma meleca.

Após o beijo de boa noite, dado em cenhos fechados e lábios bicudos, ao fechar a porta não resisto e provoco.

- Boa noite, gatinhas! – E, dou duas tossidinhas – Corrf! Corrf!

Ouço de longe, já do corredor, a indignação das duas:

- Papai malvado!!!

***

Amo ser pai e curti muito a infância de minhas filhas! Que herança maravilhosa do Senhor!



👉 Esta história, e outras, foi originalmente publicada em "Santos: Quando o Cotidiano Evangélico é Belo e Inspirador", de minha autoria. CDA Editora. 2015, disponível na Amazon.

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4 comentários:

Anônimo disse...

Meleca, hahaha mais uma história engraçada.

Anônimo disse...

A infância dos filhos são momentos maravilhosos na vida dos pais ❤️

Anônimo disse...

Recordações maravilhosas!

Anônimo disse...

Kkkk, eu ficaria indignada também 🤭