Kelson Mota T. Oliveira
Como sabem, todo homem ao atingir seus
primeiros anos de vida adulta julga, em sua inerente ingenuidade, já saber tudo
o que se pode conhecer de uma mulher. Esse fato é especialmente evidente quando
nós, homens, nos reunimos, pois em algum momento da alegre reunião dessa grande
fraternidade universal, se for dado tempo suficiente, a conversa
invariavelmente convergirá para o tópico mulher, seja sobre como as mulheres
pensam, porque agem assim ou assado, do que gostam e, especialmente, o porquê
de serem tão diferentes de nós homens. Todos dão suas opiniões, todos têm teses
abalizadas que são partilhadas com o sentimento de conhecimento profundo de
causa. Nesse tópico, tão caro à mentes masculinas, não há ignorante.
Há várias conversas desse gênero. Há
aquelas, desagradáveis, de cunho chauvinista, cujo foco é resumir (e reduzir) a
essência da alma feminina a poucas frases de efeito do tipo “mulher não se bate
nem com uma flor, mas isso foi antes de inventarem o taco de beisebol” ou
“homens pilotam carros, mulheres o fogão”, “mulher só serve para duas coisas...
quais mesmo?”, comuns entre misóginos e bêbados enraivecidos. Há também aquelas
conversas que são caracterizadas apenas por chavões amargurados do tipo “mulher
é tudo igual”, “no mar têm muitos peixes”, “sai uma, já tem duas”, etc,
facilmente encontradas em grupos de “dor-de-cotovelo” e de “elevação da moral”,
devido à decepção amorosa de algum confrade. Por vezes as conversas tomam o
rumo intelectual e a mulher é sempre entendida em tons soturnos, com matizes
quase transcendentais, do tipo “mulher é mar só tempestade”, “é vida em botão,
gerando vida em botão”, “é fogo que incendeia o peito de quem a almeja”, “é
bruxa que nos encanta, é sereia que nos seduz”, etc, na maioria das vezes ditas
(ou cantadas) em baladas e reuniões de solteirões encalhados na presença de
outras mulheres (também encalhadas) que suspiram em marota e desinibida (e
incrédula) concordância. Claro que há também as conversas de obviedades gritantes
onde pérolas do tipo “difícil com elas, pior sem elas”, “mulher com TPM nem
diabo entende”, “reclamamos, mas estamos sempre procurando”, “a mulher e seu
dinheiro logo se separam”, “mulher gosta de bolsa pesada, e homem de medalha no
peito”, etc, são pronunciadas com a autoridade de mantras de sabedoria infinita
e acompanhadas por gestos de total aquiescência dos demais.
Todavia, nenhuma dessas conversas sequer
chega perto da essência do que é uma mulher. Por mais que a biologia molecular,
desenvolvida a ponto de mapear o genoma humano, afirme que homens e mulheres
são geneticamente da mesma espécie, eu afirmo: não são! Nada está mais longe da
verdade. Homens e mulheres não são apenas de gêneros diferentes, são de outra
espécie. Quando afirmo outra espécie, quero dizer “outra” espécie mesmo! Não me
refiro aqui ao tempo que dedicam ao asseio pessoal, à preocupação com beleza ou
mesmo as questões relacionadas à moda, cores e fragrâncias. Naturalmente que há
as diferenças normais físicas e psicológicas entre homens e mulheres que
permitem uma convivência agradável e surpreendente, e não há nenhuma
dificuldade nisso. Aliás, dou vivas por essas diferenças. A vida aqui na terra
seria muito pesada sem as mulheres. Entretanto há diferenças fundamentais no
processamento cognitivo das mulheres que escapam completamente à lógica,
intuição e cosmovisão de nós, os homens. Achar que tais diferenças se dão
apenas pela escolha desesperada de roupas, ou no amor pelos calçados, na
obsessão por perfumes, na inclinação por melodramas chorosos, no cuidado
obsequioso pelos cabelos e na preocupação desmesurada pelas rugas e cabelos
brancos que aparecem, é simplificar demais a mente feminina. Isso não é
essência feminina, é apenas a suave e colorida embalagem que a envolve. Quando
me refiro às diferenças fundamentais tenho em mente as situações em que é
possível entrever um pouco da alma feminina em seu estado mais puro. Àquelas
situações em que os homens se limitam a apenas balançar levemente a cabeça em
sinal de entendimento, mas que interiormente estão perplexos pelo que viram ou
ouviram e não saber como agir adequadamente. É no convívio do lar, abrigadas
pela segurança do companheirismo, quando começam a destilar seus pensamentos, é
que essas diferenças se fazem de fato notar.
Sabe aquela história de que homens são
de Marte e mulheres são de Vênus? Pois é, está errada apenas por uma questão de
distância... intergaláctica. O correto seria: homens são da terra, mulheres são
alienígenas, procedentes de outra galáxia além da Grande Nuvem de Magalhães. Sei
que a tese parece esdrúxula, mas verão que tenho razão. E por que afirmo? Simples.
Vivi quase 28 anos com esposa e duas filhas e testemunhei o lento processo de
especiação. Estive em uma posição privilegiada (eu acho) que me permitiu ver as
diferenças e situações que desafiam à lógica e percepção masculinas. Deixem-me
ilustrar esse ponto.
Lembro com muita clareza os últimos preparativos
de meu casamento, em 1998. Em meio às muitas preocupações para que tudo
corresse bem (a decoração, o lugar, a comida, se choveria ou não - o casamento
foi ao ar livre -, os convites, convidados, etc), uma das inquietações mais
pungentes da noiva era o estado final em que ficaria o buquê ao ser atirado ao
grupo (desesperado?) das amigas (solteiras? desesperadas? Não é a mesma coisa?)
que estaria presente à festa. Depois de muito pesquisar e perguntar bolou um
intrincado sistema em que seria jogado não o buquê, mas todo um ramalhete de
rosas soltas e entre elas uma que estaria amarrada a um pequeno laço vermelho.
A felizarda que apanhasse aquela rosa receberia o buquê das mãos da noiva,
intacto (bem como as esperanças etéreas de um possível desencalhe definitivo).
Perguntei-lhe, à época, por que tanta preocupação com o buquê, pois havia
coisas mais importantes a se preocupar. Bastava jogar e pronto. A melhor (e
mais desesperada) que vencesse, e caso se estapeassem no processo, dariam um
colorido único e inesquecível ao evento. Entretanto, a resposta estava além dos
processos mentais masculinos:
- Ah, mas é o buquê do casamento. Não
quero correr o risco de estragá-lo - é
tão bonitinho!! – ao atirar às garotas (às feras, pensava eu). Além do que,
desse jeito, cada uma acaba ficando com uma rosa de lembrança e todas ficam
alegres (... e ninguém lembra que ainda está encalhada, reflito em meu íntimo,
sem nenhuma coragem de pronunciar tão obvia verdade).
Enfim, o plano foi levado a cabo e pelo
menos quinze mulheres se engalfinharam por doze rosas. Ao fim, todas estavam
satisfeitíssimas por terem conseguido um amuleto contra um possível e solitário
futuro, e uma estava radiante pela certeza quase cabalística do futuro que o
buquê da noiva lhe reservava.
Com o nascimento de minhas duas filhas
tive a dupla oportunidade de ver a alma feminina sendo formada silenciosamente
dia após dia. Até cerca de dois anos de idade, tanto Mitca quanto Naomi, pouco
diferiam de qualquer outra criança do sexo masculino em termos de atenção,
interesses e desenvolvimento do raciocínio, exceto pela delicadeza dos gestos e
afetos e por uma leve predileção inata pela cor rosa e tecidos coloridos – que
se acentuaria com o decorrer dos anos. Aos poucos, sem muito alarde, começou a
lenta, porém irreversível, especiação que culminaria em um ser totalmente
distinto (de corpo e alma) de sua contraparte terráquea. Acompanhem comigo alguns episódios que ocorreram
no final de 2010 e início de 2011, à época em Porto Alegre, para ver se não
tenho razão:
1. Jantar e cabelos
cacheados
-
É que eu não o penteei. Livre, ele fica assim, meio encaracolado.
-
Puxa, está mais cacheado que o da Naomi.
-
É mesmo, papis. Tem mais ondas que o meu.
-
Parece que o papai está usando babyliss – comenta distraidamente a Mitca, como
se fosse um fato da vida (meros seis anos de idade)
-
É! – complementa Naomi (somente quatro anos de idade)
-
Baby o quê?
-
Babyliss! - sentencia a esposa (à época do
alto dos seus trinta e ...errr, poucos anos. Homens, muito cuidado nessa hora!)
-
O que é babyliss? – pergunto, com mais rugas na testa do que permite minha
curiosidade masculina.
As três se entreolham e lançam para
mim o fugaz olhar feminino padrão que pode ser toscamente traduzido, em
linguagem terráquea, como “O quê?! Como
ele não sabe o que é babyliss? De que planeta ele veio?”.
-
Babyliss é tipo de tubo que você enrola seu cabelo para deixá-lo com cachos,
assim, ó – e passa a mostrar em gestos a intrincada operação de cacheamento de
cabelos, pontuados de pequenas e obscuras observações dos detalhes da operação.
-
Ah! é isso?
E
as três me olham com o fugaz olhar feminino padrão número dois, que em tradução
livre quer dizer para cada uma delas:
-
Que absurdo não saber isso!
-
Como o papis não sabe isso?!
-
Não sabe nada!
Mulheres!!
2. É melhor ser solteira
-
Qual foi a principal lição dessa história? Quem sabe dizer?
-
Que devemos ser bons? – responde perguntando a Naná, a caçulinha.
-
Isso é verdade, devemos ser bons, mas não é essa a lição dessa história
-
Que devemos dar mais importância ao coração e não a aparência – responde, Mimi,
com convicção.
-
Muito bem!! – externo minha completa aprovação masculina pela resposta simples
e direta.
Animado, começo a dar vários
exemplos do que vem a ser isso no dia-a-dia. Depois de responder a algumas
perguntas que me dirigem, vou além e ensino que quando crescerem e estiverem
querendo casar devem dar a mais alta importância ao coração e não tanto à
beleza. Continuo animado até que Naomi pergunta:
-
Mas não podemos ver o coração dele. Como vamos saber se ele é bom?
-
Boa pergunta! – ainda animado, mas já desconfiado dos rumos femininos que a
conversa pode tomar – Não podemos ver o coração,
mas podemos ver as atitudes que vem do coração.
-
Como assim?
-
Um jeito infalível é visitar a casa dele e ver como ele trata seus pais, se
ajuda em casa, se é gentil, se não é preguiçoso...
-
Mas, papis, como vou saber se ele não está fingindo? Pode ser que ele faça tudo
isso porque sabe que vou na casa dele – retorquiu Mimi, com uma expressão
torturada.
Ainda tentando manter a moral,
confiando na lógica sagaz da mente masculina, respondo.
-
Boa observação (a animação claramente começando a ceder)! O segredo é visitar
várias vezes a casa de seus pais, conversar bastante, ficar de olho aberto para
ver se não é fingimento, orar, ver como ele é na igreja...
Sem esperar o restante da frase, com
a expressão de que é muito trabalho para pouco retorno, Mimi finaliza a
conversa com a frase feminina definitiva:
-
Melhor ficar solteira!
Desisto!
-
Que avião?
-
Aquele! Lá ó! Ele está riscando o céu?
-
Como assim riscando?
-
O céu, mamãe. Quando ele voa vai riscando o céu?
-
Filha, não tem o que riscar no céu.
-
Mas então como ele deixa uma marca no céu?
-
Mimi, no céu só tem ar, ar. Entendeu? Não tem como riscar.
-
Mas então como ele consegue riscar, hein?
-
Você está achando que o céu é tipo um teto, uma parede ou algo assim, em que o
avião risca e deixa a marca?
-
É! O céu não é isso?
-
Não, no céu só tem ar!! Ar! Entendeu? Não tem nenhum teto lá.
-
Como assim ar? Não dá para ver o ar! Como assim só tem ar?
-
Ar, filha, ar! Só tem ar no céu! Não tem teto! Entendeu?
Mimi, olhando para a mãe com visível
expressão de incredulidade, responde com um argumento que considera
irrefutável:
-
Mas o céu tem cor. Como então não tem nada lá Mamãe?
-
Ai, ai, ai... Kel...
-
Não tenho nada a ver com isso! Resolvam isso entre vocês – E, sorrindo, acelero
o passo em direção ao elevador pensando em como seria esse diálogo entre um pai
e dois meninos.
4. Gosto de Boi
-
Kel, posso usar um pouco do caldo dessa carne que você fez? O gosto da sopa
ficou muito forte com a couve batida no liquidificador.
-
Pode usar tudo. Tá bem gostoso.
-
Será que não é muito?
-
Não é não. A Mimi precisa de bastante ferro, depois da cirurgia e o caldo está
uma delícia. Deixa que eu misturo.
Após misturar e levar ao fogo, provo
a sopa, aprovo o sabor e exclamo:
-
Huumm, ficou muito bom. Prove.
Ela prova e guarda uma silencio
respeitoso.
-
Que foi? Não está bom?
-
É, está...
-
Fala, está faltando algo?
-
Para mim o gosto está muito forte.
-
Forte? Mas está bom, deu um gosto muito bom ao creme. Forte do quê?
-
Deixa para lá. Você não vai entender.
-
Diga, eu quero saber.
-
Deixa para lá. Tá bom. Dá para tomar.
-
Não, agora quero saber. Tá com o gosto forte do quê?
-
Tá bom, mas não vai rir. Tá com gosto de boi.
Primeiro fiquei perplexo, lâmpadas
vermelhas se acenderam em meu horizonte mental masculino, depois fiquei sério à
busca de perigos na frase e por fim tentei não rir, mas não deu. Cai na risada e
respondi:
-
Claro que tem gosto de boi. Coloquei caldo de carne. Hahahhaha!
-
Não! Tem gosto de boi mesmo, não de carne de boi!
Parei de rir. Novamente as luzes
vermelhas acenderam em minha mente. “Será
que estou caminhando em terreno minado?”, perguntava insistente a voz da
alma masculina. Entretanto, uma outra voz moleque, prevalecendo, só ria. Tentando
manter a seriedade, perguntei:
-
Você já mordeu um boi para saber o gosto? – E sem conseguir esperar a resposta,
comecei a rir novamente.
-
Viu, você não entende. Essa sopa está com gosto de boi – e arregalando os olhos
enfatizou – De boi!!
Sem mais tentar entender o
raciocínio alienígena continuei a rir. Fomos jantar e foi difícil engolir cada
colherada sem pensar em que parte do boi eu estaria mastigando. Como um bom
membro da confraria masculina universal, passei o resto da noite fazendo
trocadilhos com o gosto de boi. Hilário.
Dois dias depois, de caso pensado,
perguntei à esposa se ela queria um ovo mexido para comer com arroz quentinho no
jantar. Em resposta à sua aquiescência fiz uma boa fritada de ovos mexidos. No
momento em que ela entrou na cozinha, levei a colher a boca e fiz cara de que o
gosto estava ruim. O que a levou a perguntar:
-
Que foi? Tá com gosto ruim?
-
Sim, tá com um gosto esquisito.
-
De quê?
-
De pintinho!! – E cai na gargalhada
Em resposta às minhas risadas, calmamente
e com seriedade sentenciou, como se fosse uma verdade universal:
-
Deixa de bobagem. Ovo não fica com gosto de pintinho.
-
!!
Passei alguns dias procurando o
motivo pelo qual achara graça em um argumento que estava além de meus processos
mentais. Não achei.
5. Merda...
-
Mamãe, o que é merda?
Por dentro já começo a rir pela
delicadeza ingênua da pergunta.
-
Quem te disse essa palavra?
-
Foi um colega lá na escolinha. Ele falou merda.
-
Merda é um palavrão. Não é para ficar repetindo por aí.
Ainda rindo, sei que a conversa não
chegou ao clímax. Animado encho a boca com uma boa porção de arroz e espero a
réplica.
-
Mas mamãe, o que significa merda?
Estou me aguentando para não rir,
especialmente com a boca cheia.
-
Hummm... significa cocô.
Uma pequena lágrima escorre do canto
do olho esquerdo. Por dentro estou estourando de rir. Com dificuldades tento me
aguentar perante uma resposta sinonímica, dita com tanta seriedade. Estou
esperando a resposta lógica: o que é cocô?
Depois uma réplica (merda), uma tréplica (cocô), em uma série sem fim. No
entanto, o que ouço é:
-
Ieeecaaa! Cocô!! Naná, nunca mais vamos falar merda.
-
É, nunca mais vamos falar merda, só cocô!! Ieeeca!
-
Isso mesmo minhas filhas. Nunca falem isso! – E voltam todas a comer como se
nada tivesse acontecido, satisfeitíssimas com a resposta.
Estou boquiaberto, perplexo,
estupefato com uma resposta claramente de lógica circular, mas que fez todo
sentido dentro daquele pequeno e hermético círculo feminino. Engulo a comida em
contrito silêncio e reflito, com a alma masculina torturada, em como serão os
diálogos quando estiverem na adolescência e se serei capaz de acompanhá-los.
A elas meu carinho, admiração e
assombro!
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