quarta-feira, 23 de abril de 2025

MONSTROS EXISTEM?

 
 

Kelson Mota T. Oliveira

“E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” (Ap 21:4)

            Em um dos dias do prolongado feriado de páscoa que tivemos esse ano, eu e minha filha caçula, estávamos procurando algum programa para assistir à noitinha, aproveitando uma pipoca e um clima de tranquilidade. Ela decidiu por uma série documental de casos de crimes reais ocorridos no Brasil. Não seria minha primeira, ou segunda e, talvez, nem mesmo a quinta opção de programa, mas na falta de outra sugestão que fosse comum aos dois, aquiesci. O primeiro caso era justamente o triste episódio do assassinato da menina Isabella Nardoni. Naomi não conhecia o caso (pois à época ela tinha apenas três anos de idade), eu, só de ver o título, já comecei a sofrer ao lembrar de alguns detalhes de então. Por quase 60 minutos fomos apresentados a todos os detalhes da investigação criminal que culminou na prisão do pai e da madrasta, culpados do espancamento, seguido de morte da pequena e indefesa princesa de apenas seis aninhos, lançada a sangue frio do sexto andar do apartamento em que morava. Terminei a noite relembrando um diálogo que tive em meados de abril de 2007, quase um ano antes do assassinato da pequena Isabella, com minha filha mais velha, Mitca.

Como era de costume da Mimi, antes de dormir negociava duramente comigo sobre quantas historinhas da Bíblia iria contar no cultinho familiar e quantas músicas deveria cantar após a historinha. Mas naquela noite, após a história bíblica, fez apenas uma pergunta simples: Papai, monstros existem? Não era uma pergunta comum e, dependendo do contexto, a resposta poderia ser um tanto complexa.

            Indagando o porquê da questão entendi que a mesma se originara de um desenho que vira na TV, no qual apareciam algumas criaturas esquisitas. Respondi-lhe que aqueles monstros não existiam de fato e eram apenas um desenho animado. Expliquei a idéia de desenho animado como uma história gráfica, cujos elementos nem sempre são reais. Ela ficou satisfeita com a resposta e deixou claro que entendera que “aqueles monstros” não existiam. Eu, por minha vez, fiquei satisfeito e tranquilo com seu entendimento, já podíamos dormir em paz. E quando fiz menção de levantar e sair do quarto, veio a segunda pergunta: mas papai, existe outros tipos de monstros por aí? Eles existem?

            Desde a primeira pergunta algo me incomodara a mente e me deixara intranqüilo. Monstros de TV que babam verde, cospem fogo, engolem pessoas, saem do chão, por definição não existem. É um fato.  E não tive problemas em responder a primeira indagação. No entanto, a segunda pergunta era mais ampla e envolvia não exatamente a existência de monstros, e sim o conceito de monstruosidades. Permaneci calado por alguns momentos. Pensei em falar sobre aspectos de deformações físicas, consideradas monstruosas, mas claramente não era o que ela estava perguntando. Ela queria saber sobre monstros cruéis e reais. e isso era algo que eu não queria discutir, não naquela hora. Tive receio da impressão que poderia causar em sua tenra mente de apenas cinco anos.

            Por definição um monstro é algo/alguém que comete monstruosidades, atos vis, infames, fora dos padrões morais humanos. Atos reprováveis em todos seus aspectos. Sim, nesse aspecto, receei e tive dificuldades em falar a minha filha sobre os tantos monstros que andam por aí, reconhecidos em forma humana. Monstros que, como ela, nasceram em um lar, que tiveram pai e/ou mãe, se relacionaram com pessoas, conheceram lugares, e, contudo, cometem atrocidades maiores que aqueles monstros e vilões dos desenhos. Como responder com sinceridade, sem criar um problema moral precoce, para uma criança tão nova? Dureza. Tentei desconversar.

            Como ela insistisse na pergunta, respondi-lhe, traindo minhas convicções e experiência de vida, que monstros não existiam, que ela poderia dormir sossegada, que o papai estaria ali do lado. Logo depois ela dormiu tranquilamente, com um dedinho na boca. Naquela noite fui dormir tarde, assombrado com as notícias de atos cada vez mais perversos perpetrados pelo homem ao seu semelhante. Atos infames, indignos até dos vilões de quadrinhos. Mortes em família, destruição desenfreada, violência gratuita, estupros, mutilação, agressão sem sentido, roubos de coisas banais seguidos de morte, filhos espancando pais, mendigos queimados vivos, crianças invadindo escolas e fuzilando seus próprios colegas, homens e mulheres se explodindo na esperança de matar o máximo de pessoas consigo, representantes do povo roubando e desviando verbas que seriam usadas em hospitais e condenando à morte tantas pessoas, ditaduras togadas, narrativas desumanas e desumanizantes, genocídios... Monstros. Por definição, monstros. Monstros que tais nunca vi nos gibis que tanto li. Infames, perversos, tendo prazer no engano, morte, destruição, alheios ao sofrimento, buscando apenas seu próprio prazer, lucro, luxúria e interesse. São aqueles contados entre os “brutos irracionais” e “filhos malditos” que o apóstolo Pedro se refere em 2 Pe 2.12,14.

            Hoje, Mitca, está crescida e tem oportunidade de sobra de ler sobre as monstruosidades que cada dia mais se multiplicam. Hoje, também posso sentar e assistir com minha filha caçula, Naomi, a um documentário que testemunha o quão monstruoso, abjeto e sórdido pode vir a se tornar uma pessoa entregue a si mesma. E após, com os corações pesados e olhos lacrimejantes, conversar sobre monstros reais que habitam em cada esquina, pois ambos sabemos algo da profunda perversidade de um coração sem Cristo.

Espero que Mitca me perdoe por não ter conseguido falar toda a verdade naquela noite. Não pude. Espero que ela entenda, quando tiver seus próprios filhos, o quão doloroso é para um pai falar a uma filha que nesse mundo decaído e corrompido por toda sorte de pecado, há pessoas que se divertem em praticar a maldade, em ser cruéis, em ver a desgraça e sofrimento alheio. E que é doloroso olhar para o futuro, sabendo o quanto nós, enquanto humanidade, ainda iremos afundar como sociedade. Mas imagino que o pior, o mais doloroso para um pai, é saber que suas filhas estarão vivendo nesse mundo e que ele não estará sempre por perto para protege-las.

            Minha única certeza nesse caos mundial em que o mundo se encontra, cheio de dor, pranto, morte e luto, é que este estado de coisas não permanecerá. O Senhor enxugará as lágrimas dos seus. Quanto aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte (Ap 21.8). Na sua própria maldade e monstruosidade os pérfidos serão apanhados. Sim, haverá um Juízo Final e nele todos os atos serão pesados e a justiça finalmente triunfará. O cruel não ficará impune, o mal será extinto, o perverso não subsitirá. Até lá, oro ao Senhor que livre minhas filhas dos verdadeiros monstros que estão ao nosso redor. São muitos.

            Fiquem na paz e tranquilidade que há em Cristo Jesus...

           

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7 comentários:

Anônimo disse...

Amém 🙌🏼. Estou amando ler as histórias da sua família, há momentos que fico rindo imaginando a situação em que o pai precisa responder hahaha.

Anônimo disse...

Os verdadeiros monstros não estão em desenhos ou filmes , mas sim na vida real isso é triste ver a maldade humana como pode um pai fazer tal coisa com a filha confesso que gosto de vê documentários em fatos reais, porém fico perplexa com tanta maldade infelizmente muitas vezes de pessoas tão próximas .

Anônimo disse...

Lendo essa sua narração, lembro melhor do que C.S. Lewis disse que não seria justo não existir o inferno, pois até nossa justiça clama, imagina a de Deus.

Edson Jr disse...

Esclarecer as monstruosidades humanas para uma criança de cinco anos não é uma tarefa fácil, principalmente para os genitores que amam e protegem seus filhos.

Anônimo disse...

Qualquer um que tire do seu próximo a oportunidade de escolher os seu caminho para uma vida digna carrega consigo a monstruosidade. Uma vez ouvi que temos dentro de nós dois lobos: um de bondade e amorosidade e outro de maldade. Eles travam diariamente uma luta insana. Vencerá aquele que nós mais alimentamos.

Anônimo disse...

Hoje sendo pai pela segunda vez me fiz essa pergunta "Em que mundo estou deixando meus filhos?" mas a fé é isso né!? Acreditar nos livramentos do Senhor antes de sair de casa.

Anônimo disse...

Glória a Deus por nos enviar O Cristo, O Concerto da vida eterna. Aleluia!